"Deus nos ressuscitou e nos fez sentar no céu" - oão 3,14-21 - 15/03/2015

O texto do evangelho faz parte da resposta que Jesus deu a Nicodemos quando, no diálogo entre ambos, quis saber como poderia acontecer o “nascimento no Espírito” do qual Jesus falava. Nicodemos era um destacado fariseu, que admirava e respeitava Jesus. Ele aparecerá, mais tarde, defendendo Jesus, perante os chefes dos fariseus (cfr. João 7,48-52) e estará presente quando Jesus foi descido da cruz e colocado no túmulo (cfr. Jo 19,39).

Foi ter com Ele, para tirar as suas dúvidas, meio em segredo (“à noite”), para não arriscar a sua posição social na estrutura religiosa judaica. Ir ter com Jesus “à noite“ pode referir-se tanto à noite física quanto à noite interior por estar confuso diante da mensagem do Senhor. Jesus vai explicando a Nicodemos (e também a nós) o sentido da vida, de Deus e de seu grande amor ao mundo, da salvação para todos, da luz e da escuridão, de viver na verdade...

Nesta conversa, o Senhor revela a Nicodemos que o “Filho do Homem será levantado” numa clara referência à sua morte na cruz. Para explicar-lhe isto, recorre à velha imagem da serpente que “Moisés levantou... no deserto” a qual, segundo a tradição, salvou da morte a muitos israelitas. Não foram salvos por esse objeto, mas “por Vós, Salvador universal” (Sabedoria 16, 7). A expressão: “é preciso que o Filho do Homem seja levantado” significa que Jesus será levantado na cruz e exaltado na ressurreição e glorificação ao mesmo tempo.

É assim que o Senhor manifesta o seu amor e indica aos homens o caminho que eles devem percorrer para alcançar a salvação (“todo aquele que nele acreditar, nele terá a vida eterna"). “Acreditar” no “Filho do Homem” significa aderir a Ele e à sua proposta de vida; significa aprender a lição do amor e fazer, como Jesus, dom total da própria vida a Deus e aos irmãos. É dessa forma que se chega à “vida eterna”. O ser humano só pode chegar à plenitude de vida pela capacidade de amar, que completa o seu ser. Só com pessoas assim, dispostas a entregar-se sem reservas pelo bem dos outros, pode construir-se uma sociedade verdadeiramente justa e fraterna. Se a sociedade for baseada apenas na Lei, e não sobre o amor, nunca deixará de ser opressora e injusta.

Se “Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna” é porque não quer que os homens se percam na tristeza e na vida sem sentido. O amor de Deus alcança a toda a humanidade; quer que cada ser humano, tenha vida autêntica. Não é Deus quem castiga pelos erros; ao contrário, é Ele que nos salva deles. Um dos aspectos centrais da nossa fé é que Deus, em Jesus e por Jesus, liberta e salva; não que Deus castiga nem condena.

Jesus, de fato, não condena ninguém: “quem não acredita, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus”. A pessoa se condena a si mesma. Se “condena” a não desfrutar da sorte e da alegria de crer. Crer em Jesus é o maior estímulo e a melhor orientação para se viver em plenitude. Crer é sentir-se amado, descobrir novas possibilidades, novas forças, novos horizontes, um novo sentido para a vida. É ter vida eterna, começar a viver desde já algo novo e definitivo. É sentir o Deus amoroso e próximo que anima e sustenta a nossa vida, tornando-a mais plena, mais feliz e mais livre.

A grande novidade para toda a humanidade está em Jesus elevado na cruz, representando a vitória da doação e do amor, da generosidade e da paz vencendo o egoísmo e a violência. Só o amor dá sentido à vida, viver fora dele é desumanizar-se e cair no vazio.

Esta cruz de Cristo, porém, incomoda a partir do momento em que coloca o mundo dos homens em julgamento, exigindo tomar uma decisão. De um lado, os que acreditam em Jesus e vivem o amor, continuando a Palavra e a ação d'Ele em favor da vida. De outro lado, os que não acreditam n'Ele e não vivem o amor, permanecendo fechados no egoísmo e na procura dos próprios interesses que originam opressão e exploração. Por isso, estes últimos, para esconder suas verdadeiras intenções, não se aproximam da luz (“a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas ações eram más”). A única atitude válida para receber a graça de Deus é abrir sem reservas o coração para a luz da verdade, pois “quem age conforme à verdade, se aproxima da luz”.

Com certeza, aquela noite Nicodemos não perdeu a viagem, não saiu defraudado daquele encontro com Jesus. Falar com Jesus sempre proporciona paz e luz.

Pe. Ciríaco Madrigal, o.s.a.

"O zelo pela tua casa me consome..." - Jo 2,13-25 - 08/03/2015

A Quaresma é tempo de preparação ou de renovação batismal. No afã de instruir os fiéis, a liturgia do 3º domingo apresenta os Dez Mandamentos (1ª leitura). Não são meros  “preceitos”. A primeira frase não é um preceito, mas a expressão do benefício que Deus prestou a seu povo. “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa de escravidão”. 

Os Dez Mandamentos têm a forma de uma “aliança”, de um pacto entre um soberano e seus subalternos. O soberano “entra” com sua proteção e força, os subalternos com sua colaboração. Deus mostrou sua força, tirando o povo do Egito. Agora, os subalternos vão colaborar, observando as regras necessárias para que o povo que Deus escolheu para si fique em pé. São regras vitais: respeitar e adorar a ele só, e respeitar-se mutuamente, na justiça e na solidariedade. Estas duas regras são necessárias para que o povo não se desintegre pela divisão religiosa e pela divisão político-social. São as duas tábuas da Lei: o amor a Deus e o amor ao próximo. Desde então fazem parte do catecismo, até hoje.

Esse Deus, que nos manda adorar a si e amar os nossos irmãos, dá-se a conhecer de forma sempre mais concreta através da História. Os antigos israelitas o concebiam sobretudo como “o Senhor dos Exércitos”, o Todo-Poderoso, que os tirou do Egito. São Paulo, porém, depois que se converteu a Jesus de Nazaré, percebeu Deus de outra maneira. Deus não se manifesta só no poder; em Jesus, manifestou-se na frequeza da cruz, “escândalo para os judeus e loucura para os pagãos”( 2ª leitura). Loucura também para os cristãos de nome que somos nós, que preferimos cuidar de nosso próprio proveito, enquanto mais que a metade da humanidade vive na miséria, e isso, bem perto de nós.

Esse Deus da “loucura do amor”, que se manifesta em Jesus, é o centro do evangelho de hoje, que orienta nosso olhar para a obra do amor fiel que Jesus levará a termo em Jerusalém. Jesus entra no Templo, irrita-se com os abusos – comércio em vez de oração – e expulsa, até com chicote, os animais do sacrifício e os vendedores. Ora, expulsando, na véspera da Páscoa, os animais do sacrifício – um para cada família de peregrinos – ele põe fim ao regime do Templo (que servia exatamente para os sacrifícios dos animais).

O evangelista acrescenta que os discípulos mais tarde entedenderam que a esse gesto se referiam as palavras do Sl 69,10: “O zelo por tua casa me devorará”. E quando os chefes exigem um sinal de sua autoridade, Jesus responde: “Destruí este santuário, eu o reerguerei em três dias”. O evangelista explica que ele falava da ressurreição, do templo de seu corpo, que desde agora toma o lugar do templo de pedra. Jesus é o lugar do verdadeiro culto, da verdadeira adoração, do encontro com Deus. Jesus crucificado.

Jesus renovou a primeira Aliança, a de Moisés e da Lei, no dom de sua própria vida. Este dom é agora o centro de nossa religião, de nossa busca de Deus. Uma vida que não vai em direção da cruz não é cristã.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
(fonte: www.franciscanos.org.br)

Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz! - Mc 09, 02-10 - 01/03/2015

O Evangelho ( Mc 9, 2-10 ) apresenta a fé dos Apóstolos, fortalecida na Montanha, pela Transfiguração de Jesus.

Na Caminhada para Jerusalém, o primeiro anúncio da Paixão e Morte de Jesus abalou profundamente a fé dos apóstolos. Desmoronaram seus planos de glória e de poder.

Para fortalecer essa fé ainda tão frágil... Cristo tomou três deles... subiu ao Monte Tabor e “Transfigurou-se...”

A transfiguração de Jesus é uma catequese que revela aos discípulos e a nós Quem é Jesus: O Filho Amado de Deus!

Em nossa caminhada para a Páscoa somos também convidados a subir com Jesus a montanha e, na companhia dos três discípulos, viver a alegria da comunhão com Ele. As dificuldades da caminhada não podem nos desanimar. No meio dos conflitos, o Pai nos mostra desde já sinais da Ressurreição e do alto daquele monte Ele continua a nos gritar: “Este é o Meu Filho Amado, escutai-O”.

Não desanimemos diante das dificuldades! Os Planos de Deus não conduzem ao fracasso, mas à Ressurreição, à vida definitiva, à felicidade sem fim!

São Leão Magno diz que “o fim principal da transfiguração foi desterrar das almas dos discípulos o escândalo da Cruz”. Os Apóstolos jamais esquecerão esta “gota de mel” que Jesus lhes oferecia no meio da sua amargura. Jesus sempre atua assim com os que o seguem. No meio dos maiores padecimentos, dá-lhes o consolo necessário para continuarem a caminhar.

Esta centelha da glória divina inundou os Apóstolos de uma felicidade tão grande que fez Pedro  exclamar: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas...” Pedro quer prolongar a situação! O que é bom, o que importa, não é estar aqui ou ali, mas estar sempre com Cristo, em qualquer parte, e vê-Lo por trás das circunstâncias em que nos encontramos. Se estamos com Ele, tanto faz que estejamos rodeados dos maiores consolos do mundo ou prostrados na cama de um hospital, padecendo dores terríveis. O que importa é somente isto: Vê-Lo e viver sempre com Ele! Esta é a única coisa verdadeiramente boa e importante na vida presente e na outra. Desejo ver-Te, Senhor, e procurarei o Teu rosto nas circunstâncias habituais da minha vida!

A vida dos homens é uma caminhada para o Céu, que é a nossa morada (2 Cor 5,2). Uma caminhada que, às vezes, se torna áspera e difícil, porque com freqüência devemos remar contra a corrente e lutar com muitos inimigos interiores ou de fora.Mas o Senhor quer confortar-nos com a esperança do Céu, de modo especial nos momentos mais duros ou quando se torna mais patente a fraqueza da nossa condição: “À hora da tentação, pensa no Amor que te espera no Céu. Fomenta a virtude da esperança, que não é falta de generosidade” (São Josemaria Escrivá, Caminho, nº 139).

O pensamento da glória que nos espera deve animar-nos na nossa luta diária. Nada vale tanto como ganhar o Céu. Ensina Santa Teresa: “ E se fordes sempre avante com esta determinação de antes morrer do que desistir de chegar ao termo da jornada, o Senhor, mesmo que vos mantenha com alguma sede nesta vida, na outra, que durará para sempre, vos dará de beber com toda a abundância e sem perigo de que vos venha a faltar” (Caminho de Perfeição, 20,2).

“Este é o meu Filho amado, no qual pus o meu agrado. Escutai-O!” (Mt 17,5). E Deus Pai fala através de Jesus Cristo a todos os homens de todos os tempos. A sua voz faz-se ouvir em todas as épocas, sobretudo através dos ensinamentos da Igreja...

Nós devemos encontrar esse Jesus na nossa vida corrente, no meio do trabalho, na rua, nos que nos rodeiam, na oração, quando nos perdoa no Sacramento da Penitência (Confissão), e sobretudo na Sagrada Escritura, onde se encontra verdadeira, real e substancialmente presente. Devemos, aprender a descobri-Lo nas coisas ordinárias, correntes, fugindo da tentação de desejar o extraordinário.

Escutar e anunciar!...

Não podemos ficar no Monte... de braços cruzados... O seguidor de Cristo deve descer do monte para enfrentar o mundo e os problemas dos homens!

Cada domingo, ao participar da Santa Missa, subimos a Montanha, para contemplar o Cristo transfigurado (ressuscitado) e escutar a sua voz.

Depois, ao descer a Montanha (sair da Igreja) devemos prosseguir a nossa caminhada, sendo sal da Terra e luz do mundo.

Somos convidados a ser Missionários da Transfiguração!


Mons. José Maria Pereira.

Especial Campanha da Fraternidade/2015


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