"... se teu irmão te ouvir, ganhaste teu irmão..." - Mt 18,15-20 - 07/09/2014

Correção fraterna

Conforme lemos na 1ª leitura, Deus estabelece o profeta como “sentinela do povo”. Ele tem de avisar os irmãos a respeito de sua conduta, para que não se percam. Deus cobrará dele esse serviço! Na mesma linha, o evangelho nos ensina a prática da “correção fraterna”. Jesus aconselha isso para a comunidade como tal – não apenas para os conventos, fora do mundo… Imagine só que em nossas paróquias qualquer cristão fosse corrigir seu “irmão”ou sua “irmã”!

Jesus ensina, concretamente, o que fazer com o pecador na comunidade eclesial, não para castigá-lo, mas para ganhá-lo e ele não se perder. Primeiro, é preciso falar-lhe em particular (mais ou menos como se faz na confissão); depois, fale-se a ele na presença de algumas testemunhas; finalmente, se não se corrigir, seja interpelado perante a comunidade. E se isto não der resultado, aguente ele o afastamento da comunidade.

Ninguém é uma ilha. A vida de nosso irmão nos concerne. Repartimos com ele nosso espaço vital, nosso trabalho, nosso lazer. Então, somos também, em parte, responsáveis por seu caminho. Devemos avisar nosso irmão quando este parece desviar-se (pois ele mesmo nem sempre enxerga). Isso não é arvorar-se em juiz da vida alheia, mas é serviço fraterno. E devemos também nos deixar corrigir.

“Ninguém tem algo a ver com a minha vida privada”. Mas será que ela é tão privada assim? Hoje, religião e moral são muito privatizadas, mas isso não é necessariamente um progresso! Pode ser uma estratégia do “Adversário” para diminuir a consciência e a força moral do povo. A fuga na privacidade torna difícil o trabalho de transformação: as drogas, a pornografia, a alienação religiosa têm algo a ver com isso.

Devemos ter a coragem de denunciar – com amor e conforme o procedimento do evangelho – os erros dos irmãos, sejam ricos ou pobres, poderosos ou subalternos. Aos abastados, devemos lembrar a “hipoteca social”, a dívida dos ricos com os pobres; aos pobres, importa ensinar uma solidariedade disciplinada, para construir verdadeira fraternidade e comunhão nas coisas materiais. E não tenhamos medo de chamar a atenção para os desvios particulares das pessoas, antes que se tornem um perigo público. Muitos dos males de nosso país e de nossa Igreja provêm do encobrimento daquilo que está errado. É como um câncer descoberto tarde demais…

A 2ª leitura de hoje (Rm 13,8-10) ensina que o amor é o pleno cumprimento da lei. Uma forma de amar é advertir o irmão. Não é agradável. Mas, quem disse que o amor deve sempre ser agradável? O médico que cura uma ferida nem sempre consegue fazer isso sem dor. Corrigir o irmão – sem se pretender superior a ele – faz parte do “amor exigente”.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
(fonte: www.franciscanos.org.br)

"Se alguém quiser vir após mim, tome sua cruz e siga-me" - Mt 16,21-27 - 31/08/2014

“É proibido proibir”. Hoje em dia existe o pensamento de que nada pode restringir o prazer e o poder. Privar-se de algum prazer é contrário ao que ensinam os grandes doutrinadores da sociedade – a publicidade, a televisão… “Chega de cristianismo triste! Para que sempre falar em cruz e sacrifício?”

No domingo passado vimos que Pedro, com entusiasmo, proclamou a fé em Jesus Messias. No evangelho de hoje, Jesus começa a ensinar que“o filho do Homem” vai sofrer e morrer. Ao ouvir essas palavras, Pedro fica indignado. Mas Jesus o repreende, porque pensa segundo categorias humanas e não segundo o projeto de Deus. Ensina-lhe que, para segui-lo, é preciso assumir a cruz. Séculos antes, Jeremias já experimentara a estranha lógica de Deus. Ele disse abertamente que Deus o “seduziu” para a tarefa ingrata de ser profeta (1ª leitura).

Os critérios humanos se opõem ao modo de proceder de Deus. O homem envereda pelo sucesso e pela eficiência, Deus pelo dom da própria vida. O caminho de Jesus e de seus seguidores é convencer o mundo do amor de Deus.

Deus não deseja “sacrificar pessoas” (como é praxe em estratégias militares e políticas). Apenas deseja que sejam testemunhas de seu projeto. Mas os que não concordam com este projeto matam os profetas, os enviados de Deus, quando estes querem ser fiéis à sua missão. Exemplos disto não faltam em nosso mundo. Por isso, quando Pedro protesta contra a idéia da morte de Jesus, este o vê do lado do grande “adversário”, Satanás: “Vai para trás de mim, Satanás, tu és uma pedra de tropeço para mim”. Pedro deve ir atrás de Jesus, em vez de seduzi-lo para um caminho que não condiz com o projeto de Deus (Satanás significa sedutor). Pedro pensava num Messias de sucesso, Jesus pensa no Servo Sofredor de Deus, que liberta o mundo por sua dedicação até a morte.

A lição que Pedro recebe ensina-nos a olhar para Cristo, para ver nele a lógica de Deus; a olhar para os pobres, para ver neles o resultado da estratégia do adversário… Pois o sucesso e a ganância produzem os porões de miséria.

Devemos analisar o sistema de Deus e o sistema do Adversário hoje. O sistema de Deus proíbe ao homem dominar seu irmão, porque Deus é o único “dono”, os sistemas contrários são baseados na dominação do homem pelo homem. Quem quiser ser mensageiro do Reino de Deus experimentará na pele a incompatibilidade com os sistemas deste mundo (2ª leitura). O mensageiro de Deus, seguidor de Jesus, será rejeitado pela sociedade como “corpo alheio”. Tomando consciência disso, vamos rever nossa escala de valores e critérios de decisão. A mania de sucesso, o prazer de dominar, de aparecer, de mandar… já não valem. Vale agora o amor fiel, que assume a Cruz, até o fim.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
(fonte: www.franciscanos.org.br)

"Tudo que ligares na Terra, eu ligarei no Céu" - Mt 16,13-20 - 24/08/2014

Ponto alto dos evangelhos sinóticos é a profissão de fé de Pedro, em Cesareia de Filipe. Em Mt, este episódio é enriquecido com a narração da transferência do “poder das chaves” a Pedro, chefe dos Apóstolos. O significado dessa atribuição é ilustrado pela 1ª Leitura, que narra a missão de Isaías junto a Sobna, prefeito do palácio (a cidade-templo de Jerusalém), para o depor de seu cargo e instalar no seu lugar Eliacim, filho de Helcias, “pondo sobre seus ombros as chaves da casa de Davi”. (Ao mordomo-prefeito cabia a tarefa de admitir ou recusar as pessoas diante do rei, como também a responsabilidade de sua hospedagem; daí ele ser chamado de “pai para os habitantes de Jerusalém”: aquele que dirigia a casa).

Em Mt 15,13-20 (evangelho), a atribuição do “poder das chaves” a Simão Pedro é provocada por sua proclamação de fé messiânica em Jesus, em nome dos outros apóstolos. Simão pode ser o “pai” da comunidade: ele assume a responsabilidade. Jesus lhe dá nome de Cefas, em grego Pedro, que significa “rocha”. A própria Igreja é comparada com uma cidade, contra a qual aquela outra (as “portas”, ou seja, a cidade do inferno), não tem poder algum. E o prefeito desta cidade é aquele que se responsabilizou pela profissão de fé messiânica, Simão. Ele tem o poder de ligar (= ordenar, obrigar) e desligar (= deixar livre), portanto, o dom do governo, ratificado por Deus (o que o responsável faz aqui na terra, Deus o ratifica no céu).

Como os v. 17-19 são típicos de Mt, e a 1ª leitura serve de ilustração exatamente destes versículos, pode-se considerar como tema especial deste domingo o poder de Pedro, ou melhor, sua “responsabilidade” (ele “respondeu” em nome dos outros). Mt traz alguns textos sobre Pedro que os outros evangelhos não trazem (Mt 14,28-31; 16,17-19). Pedro é quem responde pela fé da Igreja. Prefigura-se aqui o carisma – pois não é uma inspiração de “carne e sangue”, mas de Deus mesmo (v. 17) – de enunciar a palavra decisiva quando é preciso formular o que a Igreja indefectivelmente assume na sua fé. (A “infalibilidade papal”) tem por objeto a fé que a Igreja quer conservar e expressar, mas não a fórmula considerada de modo meramente verbal. O responsável tem também a última palavra no governo (disciplina), embora não em seu próprio nome, mas como mordomo da casa do Cristo. Nesse sentido, é “vigário”, lugar-tenente de Cristo aqui na terra. O texto mostra também que Simão se tornou chefe pela iniciativa de Cristo (imposição do novo nome, que significa Chefe ou Rocha). Liderar a Igreja não pode ser uma ambição pessoal: na comunidade cristã não há lugar para tais ambições (cf. Mt 18, 1-4; 20, 24-28). Só porque o único Mestre e Senhor assim o quer, Pedro pode revestir esta responsabilidade, e do mesmo modo os seus sucessores. Daí que, desde o início, o Papa é escolhido, sob a invocação do Espírito Santo – provavelmente a mais antiga tradição ininterrupta de governo por eleição que existe no mundo! O salmo responsorial sublinha, aliás, que Deus olha para os humildes ao distribuir os seus dons.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
(fonte: www.franciscanos.org.br)

Assunção de Nossa Senhora - 17/08/2014 - Lc 1,39-56

Neste Domingo, em que comemoramos a Assunção de Nossa Senhora, é importante lermos o excelente material de reflexão que o site Franciscanos (franciscanos.org.br) preparou.

Clique na imagem para acessar.

http://franciscanos.org.br/?p=65389

"Coragem, sou eu. Não tenhais medo" - 10/08/2014 - Mt 14,22-33

Deus se manifesta em meio às dificuldades, aos ventos da tempestade.

Enquanto Jesus está em diálogo com o Pai, os discípulos estão sozinhos,em viagem pelo lago. Essa viagem, no entanto, não é fácil e serena… É de noite; o barco é açoitado pelas ondas e navega dificilmente, com vento contrário.

Os discípulos estão inquietos e preocupados, pois Jesus não está com eles…

Esse BARCO é a COMUNIDADE CRISTÃ:

A “noite” representa as trevas, a escuridão, a confusão, a insegurança em que tantas vezes “navegam” através da história os discípulos de Jesus, sem saberem exatamente que caminhos percorrer nem para onde ir…

As “ondas” representam a hostilidade do mundo, que bate continuamente contra o barco em que viajam os discípulos…

Os “ventos contrários” representam as resistências ao projeto de Jesus.

Os discípulos de Jesus se sentem perdidos, sozinhos, abandonados, desanimados, desiludidos, incapazes de enfrentar as tempestades que as forças da morte e da opressão (o “mar”) lançam contra eles…

É precisamente aí, que Jesus manifesta a sua presença.

Ele vai ao encontro dos discípulos “caminhando sobre o mar”.

O episódio reflete a fragilidade da fé dos discípulos, quando tiveram de enfrentar as forças adversas, sem a presença de Jesus na barca.

Os discípulos seguem a Jesus de forma decidida, mas se deixam abalar quando chegam as perseguições, os sofrimentos, as dificuldades…

Então, começam a afundar e a ser submergidos pelo “mar” da morte, da frustração, do desânimo, da desilusão…

No entanto, Jesus lá está para lhes estender a mão e para os sustentar.

Finalmente, a desconfiança dos discípulos transforma-se em fé firme: “Tu és verdadeiramente o Filho de Deus”.

Esse texto é uma CATEQUESE sobre a caminhada da Comunidade de Jesus, enviada à “outra margem”, para convidar todos para o banquete do Reino e a oferecer-lhes o alimento com que Deus mata a fome de vida e de felicidade dos seus filhos.

- A caminhada não é um caminho fácil.

A comunidade (o “barco”) dos discípulos deve abrir caminho através de um mar de dificuldades, pela hostilidade dos adversários do Reino e pela recusa do mundo em acolher os projetos de Jesus.

- Os discípulos devem estar conscientes da presença de Jesus.

O “fantasma” do MEDO desvanece e as crises de fé são superadas, quando aceitamos a presença de Deus em nossa vida pessoal e comunitária.

Ele continua a garantir: “Coragem! Sou Eu. Não tenhais medo”.

+ Dia do Padre: O padre também não está isento de “tempestades”, que se formam dentro e fora da Comunidade.

Nesse dia a ele consagrado, rezemos para que, nesses momentos em que possa ter a sensação de afundar no mar da frustração e do desânimo, possa perceber essa presença de Cristo, que vem ao seu encontro com palavras de esperança. “Coragem! Sou eu. Não tenhas medo!”

Quando Cristo entra na BARCA, o vento e as ondas param… e volta a tranqüilidade… a paz.

Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa

Festa de Santa Maria dos Anjos - Porciúncula - 02 de agosto

Matéria sobre essa celebração, que comemora o início da Ordem Franciscana, no site dos Franciscanos:
Acesse aqui
Carta da Ministra Regional da OFS sobre a Festa da Porciúncula. Acesse aqui

Abaixo a reflexão de Frei Alvaci Mendes, OFM, sobre o tema:


Quem tem ouvidos para ouvir, ouça! Mt 13,24-43 - 20/07/2014

Como já notamos, o capítulo treze do evangelho de Mateus nos apresenta um leque de parábolas sobre o Reino. Todas elas destacam que a presença do Reino na História supõe um processo.

O Reino não chega subitamente, implica acolhida da nossa parte, aceitação que se dá no tempo.Esse texto continua o capítulo 13 de Mateus, onde se proclamam as parábolas do Reino.

Hoje lemos três parábolas, que comparam o Reino de Deus a um campo de trigo, um grão de mostarda e o fermento na massa, quando se faz pão. Termina com uma explicação alegórica do sentido da parábola do trigo de do joio. Podemos entender essas parábolas todas como uma mensagem de esperança para a comunidade pequena mateana - e para nós hoje. Uma leitura atenta delas deve nos reanimar para a nossa caminhada e luta em favor do Reino, sem desânimo nem desesperança.

Isso fica patente nas pequenas parábolas do grão de mostrada e do fermento na massa. A semente de mostarda é minúscula, mas quando brota, forma um arbusto viçoso. Quando se faz pão, não se usa mais do que uma pequena porção de fermento, mas é o suficiente para levedar a massa toda. O efeito é desproporcional ao tamanho ou peso do grão e do fermento. Pois, eles têm um dinamismo interno que dá resultados inesperados.

Jesus aplica essas observações ao Reino de Deus. O seu crescimento depende de pessoas e coisas que aparentemente são insignificantes. Porém, onde existe uma real comunidade de discípulos; há um dinamismo interno que causa efeitos muito maiores do que a sua força humana, pois é movido pela força do Espírito de Deus.

Com certeza, no tempo da redação desse evangelho, a comunidade mateana estava sentindo-se fraca

demais para enfrentar a polêmica e a luta com o judaísmo rabínico formativo. Diante das expulsões das sinagogas e das famílias, da rejeição dos discípulos por seus pares, e diante da ameaça de perseguição real, muitos devem ter desanimado, sentindo-se fracos demais para esta caminhada.

Algo semelhante facilmente ocorre hoje - diante do rolo compressor da globalização do mercado, do projeto neo-liberal, muitos acham que nós não temos forças para resistir, pois somos fracos e insignificantes nos olhos dos donos do poder. Mas, isso é julgar somente com critérios humanos.

É fácil esquecer a ação do Espírito e que para Deus nada é impossível. Essas duas parábolas nos ensinam a valorizar o nosso grão de mostarda e a nossa medida de fermento - ou seja, as pequenas ações e gestos de solidariedade, que trazem o dinamismo do Espírito e podem alcançar resultados surpreendentes.

Olhando as estatísticas da diminuição da mortalidade infantil no Brasil, diante de quais os governantes se ufanam, quem não sabe que em grande parte é resultado do trabalho humilde e perseverante dos membros da Pastoral da Criança, que, mesmo diante de décadas de descaso governamental diante da saúde pública, fazem verdadeiros milagres em favor da vida. E poder-se-ia multiplicar os exemplos.

Olhemos com os olhos de fé e de Deus e não com os olhos do mundo, que só valoriza a força do dinheiro, do poder e da dominação.

Nesse contexto pode-se ler a parábola do campo onde foi semeado joio (erva daninha) junto com o trigo. Os servos querem arrancar à força o joio, mas o patrão não permite, pois talvez faça mais mal do que bem. Aqui o campo é o mundo, a comunidade, a Igreja. Somos uma comunidade santa e pecadora, como reza a oração eucarística. Cada comunidade, cada pessoa é ao mesmo tempo trigo e joio.

A parábola alerta contra dois perigos muitas vezes presentes nas Igrejas. Uma é a tendência do puritanismo - de criar uma comunidade de “santos” ou “eleitos”, intolerante com os pecadores e com as fraquezas humanas, criando uma religião rígida e fria, que esconde o rosto misericordioso de Deus.

O outro perigo é o oposto - simplesmente ignorar o joio, e assim correr o perigo que a erva daninha (os males e erros) sufoquem o trigo na comunidade. A parábola aconselha paciência e cautela, e assim quer evitar os dois entremos de “elitismo” e de "laissez-faire", pois ambas as atitudes teriam como resultado a destruição da comunidade.

O Reino é de Deus e Ele não falha. Somos convidados a caminhar juntos na construção lenta, mas segura, desse Reino, apesar de sermos joio e trigo, confiantes no dinamismo do Espírito que faz com que o nosso grão de mostarda e fermento na massa dão frutos, muito além das expectativas humanas

Pe. Helder Salvador