A Exigente liberdade cristã - 26/06/2016 - Lc 9,51-62

Há algumas semanas  a liturgia dominical vêm apresentando a Carta de Paulo aos Gálatas, o documento mor da “liberdade cristã”. Será que se entende por liberdade a mesma coisa que pensam as pessoas hoje, sobretudo os jovens (veja a propaganda de carros e jeans …). Que é liberdade para o cristão?

No evangelho de hoje, Cristo nos diz que seus seguidores devem largar tudo que os atrapalha para o seguir: coisas materiais, apegos afetivos … Paulo, na 2ª leitura, nos diz que fomos libertos por Cristo para vivermos na liberdade. Mas como combina essa “liberdade” com a severa exigência pronunciada no evangelho?

A liberdade cristã é “liberdade de” e “liberdade para”.

“Liberdade de” outros sistemas, valores, apegos. Liberdade de outros mestres e senhores a não ser Cristo. Não é libertinagem, pois libertinagem não é liberdade e sim escravidão de veleidades, instintos, vícios, orgulho, autossuficiência.

Muitos que se dizem livres são na realidade escravos de si mesmos, do seu egoísmo, de algum poder escuso – um grupo, uma pessoa que os tem em seu poder sem que o reconheçam. O cristão é livre na medida em que pertence a Jesus como a seu único Senhor, e a Deus, Pai de Jesus e de todos.

O cristão é “livre para” o que Cristo deseja: a dedicação ao irmão, o próximo. Livre para a corajosa transformação da exploração em fraternidade; para a verdade que afugenta a mentira; para tudo o que o Espírito de Deus nos inspira, os frutos do Espírito: caridade, alegria, paz (cf.GI5,22).

E para isso, ele cumprirá a “lei única”, que contém tudo o mais que é preciso observar: amar o próximo como a si mesmo (ou seja, como se se tratasse de si mesmo). Na mesma carta, Paulo chega a dizer que a liberdade consiste em tornarmo-nos escravos de nossos irmãos …  (Gl5,13).

Paulo escreveu essa carta numa situação muito específica. Como ele era judeu, os pagãos da Galácia (Turquia), recém-convertidos a Cristo, pensavam que, para ser como Paulo, eles deviam tornar-se judeus, com circuncisão e tudo.

Alguns pregadores judeus lhes botaram isso na cabeça. Paulo reage contra isso com veemência, explicando que não foi esse o evangelho que ele tinha anunciado. O sistema da lei judaica está agora superado, e não é preciso ser judeu para ter acesso ao povo de Deus, refundado por Jesus de Nazaré.

No nosso contexto histórico hoje, que significa essa liberdade apregoada por Paulo? Exige a derrubada de sistemas e estruturas que impedem as pessoas de realizar a fraternidade que Deus espera e que Jesus veio inaugurar.

Liberdade cristã significa liberdade em relação ao sistema de exploração que nos quer dominar. Significa dizer “não” ao sistema alienante e explorador – sustentado inclusive por formas alienantes de religião – e colocarmo-nos a serviço de um novo sistema, que promova a justiça e a vida. Pois liberdade não é andar solto; é comprometer-se com o apelo de Deus e de nossa consciência.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
(www.franciscanos.org.br)

Acreditar na Palavra - Lc 7, 1-10 - 29/05/2016

Neste 9.º domingo do tempo comum, o Evangelho apresenta-nos a figura de um centurião romano que se dirige a Jesus para que salve o seu servo, que estava muito doente.

É impressionante este relato em que o centurião, amigo dos judeus pois até lhes construiu a sinagoga, pede a alguns anciãos dos judeus para interceder junto de Jesus pela cura do servo a quem muito estimava. E quando Jesus se dirige para a sua casa, manda alguns amigos dizer para não entrar, pois basta-lhe a sua palavra para que aconteça a cura.

Temos aqui uma relação muito estreita e concreta entre a fé e a palavra de Jesus, que se enche de admiração pela fé deste homem a ponto de dizer que nem em Israel encontrou tão grande fé. E tudo na infinita misericórdia e compaixão de Jesus para com o servo e o seu senhor. Este centurião, homem de grande fé, para mais estrangeiro à raça de Israel e aos seus cultos, aponta-nos o sentido da nossa fé, sempre em profunda intimidade com a Palavra e na atenção dedicada a quem precisa do nosso amor.

«Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo»: são as palavras do centurião que dizemos antes de comungarmos em cada Eucaristia que celebramos. É profundamente eucarístico este encontro entre o centurião que acredita sem mais em Jesus, sem o ver, e a palavra de Jesus, proclamada também sem ver o centurião. A Eucaristia, celebrada, adora e quotidianamente vivida, não é mais do que um encontro como este.

Às vezes pergunto-me se nós, cristãos de hoje, que andamos enfarinhados nas coisas de Deus, nas liturgias bem aprumadas e em longas orações, assumimos a causa de Deus na liturgia quotidiana da nossa vida. Pergunto-me se basta a Palavra para a fé, ou ainda procuramos outros sinais que podem parecer importantes mas não essenciais.
Pergunto-me se andamos no único Evangelho que conta, o de Jesus Cristo, ou navegamos noutros evangelhos; assim nos provoca Paulo na segunda leitura. Pergunto-me se habitamos e conhecemos o nome de Deus e lhe oramos com plena escuta do nosso ser ou entretemo-nos com outros nomes e repetidas orações que apenas passam pelo ouvido; assim nos interpela a primeira leitura.

Toda a liturgia deste domingo nos coloca nesta centralidade em Jesus que a todos se dá, sem exceção e sem olhar a quem, exigindo a adesão plena à sua Pessoa a quem o quiser seguir como discípulo missionário. Uma adesão de fé centrada no amor misericordioso de Deus em Jesus Cristo, que há três dias celebrámos na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo e que na próxima semana vamos intensamente viver na Solenidade do Sagrado Coração.


Pe. Joaquim Garrido, Pe. Manuel Barbosa, Pe. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)

Domingo da Santíssima Trindade/2016

Domingo da Santíssima Trindade. Reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM
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