A riqueza não garante a vida

No Evangelho de hoje temos um dos quatro textos exclusivos de Lucas que, de modo contundente, denunciam a ambição e a acumulação das riquezas. Os outros três são os seguintes: o Cântico de Maria (Lc 1,52-53), os quatro "ais" (Lc 6,24-26) e a parábola do pobre Lázaro (Lc 16,19-31).

No Evangelho de hoje, Jesus é procurado por alguém do meio da multidão pedindo-lhe que intervenha na partilha de uma herança. Esta partilha devia obedecer a critérios previstos na Lei religiosa e poderia ser submetida ao julgamento de algum doutor da Lei. Jesus rejeita desempenhar tal papel de mediador nesta questão de partilha da riqueza. Ele não fica na casuística, mas vai ao fundo da questão, aproveitando este caso para a denúncia da ambição e da acumulação de riquezas. Dirige-se, então, não só ao homem que o procurou, mas a todos, em todos os tempos, prevenindo contra a ganância.

Devemos compreender que, toda acumulação de bens, a partir do trabalho de outros, é injusta e inaceitável. Mas mesmo que a posse de bens acumulados seja resultado de uma herança, tal posse não pode ser o sentido da vida.

Assim, Jesus conta, então, a parábola do homem rico que armazenou a abundante colheita de sua terra em grandes celeiros, pensando que, assim, poderia gozar sua vida em segurança. Tolice! A riqueza não garante a vida e perturba o sono (cf. primeira leitura). Devemos compreender que a fonte da vida é Deus, e dela usufrui quem se dedica aos valores do Reino.

Na parábola é dito: "A terra de um homem rico deu uma grande colheita [.]; vou construir maiores celeiros e neles guardar o meu trigo [.]". hoje podemos dizer também a este homem: quem colheu, quem construiu os celeiros e quem guardou a colheita nos celeiros foram os trabalhadores explorados. A tua falsa segurança é uma riqueza injusta, e a tua ganância o afasta de Deus. Estejamos atentos, também, à segunda leitura! Ora, qual cristão participante não sabe que somente o respeito à dignidade do irmão e a prática da partilha é que nos levam à comunhão de vida eterna com Deus.

Para entendermos melhor, reportamo-nos, aqui, aos fins do século IV, buscando como exemplo a São João Crisóstomo que afirma em sua homilia sobre a Primeira Carta a Timóteo, ao dizer que: "não é possível enriquecer sem cometer mil iniquidades", e quem recebe a herança de seu pai "recebe o que foi juntado à força de iniquidades", por aqueles que "se apoderaram e beneficiaram do alheio".

Como seguidores de Jesus nosso compromisso é ser, em primeiro lugar, testemunhas da justiça. Devemos deixar de lado as teorias (através das quais falamos, falamos e falamos... E não fazemos nada) para, ao contrário, sermos um pouco mais práticos, ou seja. Sim. Vamos falar menos e agir mais em prol do Reino de Deus. Vamos sair de nosso estado de estagnação e vamos partir para a ação.

Na maioria das vezes, nosso agir cristão, em decorrência de muita teoria, é puramente mecânico: Falamos... Falamos, e falamos, e não fazemos nada. Em decorrência disso, nem percebemos que os nossos braços já estão acomodados de tanto ficarem cruzados. Em outras palavras: mais cruzados do que abertos. Por quê agimos assim? Se pensarmos que é porque nos julgamos ricos, estamos muitos muito enganados. Na verdade, é porque temos uma fraca participação na Igreja da qual fazemos parte e, então, se insistimos em pensar, a exemplo do homem rico, exemplificado no evangelho de Lucas, estaremos enganando a nós mesmos.

Devemos ter cuidado! Se cruzarmos nossos braços para as coisas do Reino de Deus, jamais ousemos proferir que somos felizes. Jamais ousemos dizer que temos tudo de bom que precisamos para muitos anos. Jamais poderemos dizer que estamos prontos para descansar. Jamais deveremos dizer que temos tudo para comer ou beber. Jamais.

Se, enquanto formos cristãos – seguidores de Jesus - houver um irmão caído, explorado, espoliado, perseguido, maltratado, injustiçado, traído, enganado, faminto, pobre e miserável, nunca que deveremos permitir rigozijo e descanso para nossas almas, pois, em relação ao nosso agir, deveremos tomar muito cuidado, pois, estaremos sujeitos a ser chamados de “tolos!” e, quando resolvermos abrir os nossos olhos, talvez, será tarde demais, porque poderemos estar já, em outra dimensão, isto é: mortos. Apesar de sabermos que Deus é imensuravelmente misericordioso. Devemos entender que Ele – Deus - não é tolo e, que a sua justiça não falha nunca. Pensemos nisto...

Oração
Pai, preserva-me do apego exagerado às riquezas, as quais me tornam insensível às necessidades do meu próximo. Que eu descubra na partilha um caminho de salvação.



Prof. Diácono Miguel Teodoro

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