O tesouro e o mal empregado


Resultam-me encantadoras as palavras de Jesus: "Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino". Jesus contemplava a sua pequena comunidade, da qual ele se sentia líder e pastor, como uma pequena comunidade agraciada com o tesouro do Reino de Deus. Jesus convida-a a não temer. Os Evangelhos fazem-nos ver como os temores comunitários provem frequentemente da diminuição ou da falta de fé-confiança.

A comunidade de Jesus superará qualquer tipo de temor se de fato confia. A desconfiança, no entanto, faz surgir os temores. Quando um grupo, uma comunidade se deixa dominar pelos temores, só procura segurança e normas. Uma sociedade atemorizada converte-se pouco a pouco num cárcere.

Jesus não queria que suas comunidades, por pequenas que sejam, vivam submergidas no temor, no medo, mais na mais absoluta confiança no Tesouro que receberam: Deus reinando e, portanto tudo sob controle divino, sob a influência da boa vontade de Deus!

A experiência do pequeno rebanho muitos de nós a temos. Mas isso não nos deprime. Menos os 12 ou os 72 com os quais tudo começou! Nunca nos tem prometido a maioria numérica, mas a qualidade suprema: o presente do Reino de Deus. Ali onde Deus Pai está Jesus se faz presente e o Espírito atua, ali está o sumo valor: não há o que temer! Que poder têm milhões de células cancerígenas ante o pequeno, mas potente antídoto! Quem tem mais poder, um numeroso exército que mata, ou uma mulher que dá a luz um menino?

A comunidade de Jesus tem o poder da vida, do Reino. Não temos de temer. Mas também não confiar em nossas estratégias de segurança. Não precisamos nos dar demasiadas leis para nos defender do inimigo. Não precisamos depósitos para a segurança. Só confiança em nosso Deus!

Recebemos um Tesouro. E só nele deve estar nosso coração. Porque quando damos categoria de tesouro àquilo que não o é, ficamos muito degradados.

Podem alguns desprezar o clero ou a vida religiosa ou os praticantes cristãos envelhecidos e em estado de diminuição, mas o mais interessante é a qualidade. E entre elas e eles há tanta riqueza, tanta sabedoria, tanta bondade, santidade, misericórdia... Temos tesouros e desprezamo-los e abandonamos; temos água viva e a ocultamos; temos sabedoria e lhe tampamos a boca.

O ministério na Igreja não é para "pegar os moços e as raparigas", para se aproveitar dos privilégios que dá o poder, nem para suplantar ao Senhor ausente, senão para administrar bem todos os bens do Senhor. Para atuar como o mesmo Senhor! Pedir-se-á contas a quem não valoriza os tesouros que Deus põe entre nós. Um governo eclesial que não conta com todos, senão só com os “amigos”, com os do próprio “grupo” e exclui aos demais, me recorda ao mal empregado da parábola. Por algo semelhante, perguntou o perspicaz Pedro: "Senhor, tu contas esta parábola para nós ou para todos?”.

Às vezes na Igreja há gente, grupos que temem, precisamente porque lhes parece que se impõe o critério numérico e não o qualitativo. A estes grupos há que lhes recordar as palavras de Jesus: "Não temas, pequeno rebanho". A estes grupos há que lhes pedir resistência, porque se os maus administradores e empregados os maltratam, quando cheguar o amo eles mesmos receberão "muitos açoites".

Jesus agradece o Abbá o tesouro que nos concedeu: seu Reino, sua presença entre nós. Que não nos preocupemos com o futuro, que confiemos só em Vós e não em nós. Ajuda-nos Jesus a sermos bons administradores: a servir a nossos irmãos e irmãs, a valorizá-los e confiar em todos eles, sem exclusivismos, a ser como Tu que derramaste teu sangue "por todos".

Pe. José Cristo Rey Garcia Paredes.

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