Deus justifica os humildes e pecadores

A 1ª leitura (que poderia ser estendida um pouco para que melhor aparecesse seu sentido) fala de que Deus não conhece acepção de pessoas e faz justiça aos pequenos (pobres, órfãos, viúvas, aflitos, necessitados). Isso é dito em oposição à maneira dos poderosos, que querem agradar a Deus por meio de sacrifícios perversos (Eclo 35, 14-15ª [11]. Deus não se deixa comprar pelas coisas que lhe oferecemos, pois não necessita de tudo isso. Mas nos considera jutos, amigos dele, quando lhe oferecemos um coração contrito e humilde (Sl 51 [50], 18-19).

Neste sentido, engana-se completamente o fariseu de quem Jesus fala no evangelho: acha que pode impressionar Deus com suas qualidades aparentes, seus sacrifícios e boas obras puramente formais, sem extirpar de seu coração o orgulho e o desprezo pelos outros. A atitude contrária é que encontra ouvidos junto a Deus: a humilde confissão de ser pecador (cf Sl 51 [50], 3). O publicano, que reza de coração contrito, volta para casa justificado. Lc acrescenta uma lição moral: quem se enaltece, será humilhado; quem se humilha, será enaltecido. Mais profunda ainda é a lição propriamente teológica, repetida por Paulo: quem se declara justo a si mesmo - como faziam os fariseus, convencidos de que a observância da Lei lhes dava “direitos” perante Deus - já não pode ser declarado justo por Deus; e isso é grave, porque, diante de Deus, todos ficamos devendo; cf. Sl 51 [50],7). Além de serem orgulhosos, os que se justificam a si mesmos são pouco lúcidos! Portanto, melhor fazer como o publicano: apresentarmo-nos a Deus conscientes de lhe estar devendo e pedir que ele nos perdoe e nos dê novas chances de viver diante de sua face, pois sabemos que Deus não quer a morte do pecador e sim que ele se converta e viva (Ez 18,23).

A mensagem de hoje tem duplo efeito. Deve extirpar a mania de se achar o tal e de condenar os outros: a auto-suficiência. Mas, para que isso seja possível, deve produzir primeiro um outro efeito: a certeza de sermos pecadores. Ora, isso se toma cada vez mais difícil numa civilização da sem-vergonhice. O ambiente em que vivemos trata de esconder a culpabilidade e, inclusive, condena-a como desvio psicológico. Que a culpabilidade neurótica passe do confessionário para o divã do psicanalista é coisa boa. Mas não se pode encobrir o pecado real. Tal encobrimento do pecado acontece tanto no nível do indivíduo quanto no da sociedade: oficialização de práticas opressoras e exploradoras nas próprias estruturas da sociedade, leis feitas em função de uns poucos etc. A autojustificação, entre nós, já não acontece ao modo do fariseu que se gabava da observância da Lei e das boas obras. Acontece ao modo do executivo eficiente que tem justificativa para tudo: para as trapaças financeiras, a necessidade da indústria e do desenvolvimento nacional; e para as trapaças na vida pessoal, o perigo de “estresse” e a necessidade de “variação”... Hoje, já não são os fariseus que se autojustificam, mas os “publicanos”. Só algum antiquado ainda se autojustifica “fazendo alguma coisa para Deus” no meio de uma vida cheia de egoísmo...

Saber-se pecador é o início da salvação. Isso vale para todos, ricos e pobres. Os pobres estão com tantas coisas em dívida, que se dão mais facilmente conta disso. Os ricos é que são o problema. Pecador não é apenas o que transgride expressamente a Lei, mas todo aquele que não realiza o bem que Deus lhe confia. Sabendo isso, é fácil reconhecer-se pecador. Por isso, cada liturgia começa como ato penitencial. Hoje, pode ser acentuado um pouco mais.

Paulo sabia-se pecador, mas pecador salvo pela graça de Deus (1Tm 1,13; cf. Gl 1,11-16a; 1 Cor 15,8-10). Na base desta experiência, anela pelo momento de se encontrar com aquele que, por mera graça, o tornou justo, o “Justo Juiz”, que o justificará para sempre, enquanto diante do tribunal dos homens ninguém tomou sua defesa (2Tm 4,16; 2ª leitura).

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

TRÍDUO DE S. FRANCISCO


Santuário de Santo Antônio do Valongo

Tema: São Francisco e a Natureza

Lema: Com Francisco encante a natureza: Revele a Vida

Missa às 19:00 horas

01/10 – Francisco e a busca de Deus

02/10 – São Francisco e a Fraternidade -

Missa será celebrada na Paróquia Nossa Senhora da Assunção

- Concentração na frente do Santuário às 18:00 horas

- 18:15 Caminharemos em procissão à Igreja de Nossa Senhora da Assunção, a frente irá a Cruz de São Damião.

03/10 – Com Francisco encante a Natureza: Revele a Vida

Missa do Trânsito de São Francisco

Responsáveis: Jufra e OFS

04/10 – São Francisco e a Natureza

Somos simples servos

Quem não gosta de um elogio? Não estão nossas igrejas tradicionais cheias de inscrições elogiando os generosos doadores dos bancos, dos vitrais ou da imagem de Santa Filomena?

Ora, o Evangelho nos propõe uma atitude que parece inaceitável a uma pessoa esclarecida, hoje em dia: o empregado não deve reclamar

quando, depois de todo o serviço no campo, em vez de ganhar elogio, ele ainda deve servir a janta. Ele é um empregado sem importância; tem de fazer seu serviço, sem discutir.

Jesus nos quer ensinar a estar a serviço do Reino sem darmos importância a nós mesmos. Ele mesmo dará o exemplo disso, apresentando-se, na Última Ceia, como aquele que serve (Lc 22,27).

Isto não rima com a mentalidade calculista e materialista da nossa sociedade, que procura compensação para tudo o que se faz – aliás, compensação superior ao valor daquilo que se faz...

Se levarmos a sério a parábola de Jesus, como então ensinamos aos empregados e operários reivindicarem sempre mais (porque, se não reivindicam, são explorados)? Certamente, Jesus não quer condenar os movimentos de reivindicação. A questão é outra.

Ele quer apontar a dedicação integral no servir. Interesse próprio, lucro, reconhecimento, fama poder... não são do nível do Reino, mas apenas da sobrevivência na sociedade que está aí.

A parábola não serve para recusar as reivindicações de justiça social, mas para declarar impróprios os interesses pessoais no serviço do Reino.

Convém fazer um sério exame de consciência sobre a retidão e a gratuidade de nossas intenções conscientes e de nossas motivações inconscientes.

Na Igreja, tradicional ou progressista, quanta ambição de poder, quanto querer aparecer, quantas compensaçõezinhas!

E mesmo com relação às estruturas da sociedade, a parábola de Jesus hoje nos ensina a não focalizarmos única e exclusivamente as reivindicações.

Estas são importantes, no seu devido tempo e lugar, para garantir a justiça e conseguir as transformações necessárias.

Mais fundamental, porém, na perspectiva de Deus, é criar o espírito de serviço e disponibilidade, que nunca poderá ser pago.

Quem vive no espírito de comunhão nunca achará que está fazendo demais para os outros.

“Somos simples servos”. Antigamente se traduzia: “Somos servos inúteis”.

Tal tradução era psicológica e sociologicamente nefasta, pois fomentava a acomodação, além de contraditória, pois servo inútil não serve...

Servindo com simplicidade, não em função de compensações egoístas, mas em função da fidelidade e da objetividade, somos muito úteis para o projeto de Deus.

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes