Mensagem do Papa Bento XVI para o Dia Mundial da Paz - 1o. de Janeiro de 2012


EDUCAR OS JOVENS PARA A JUSTIÇA E A PAZ

1. INÍCIO DE UM NOVO ANO, dom de Deus à humanidade, induz-me a desejar a todos, com grande confiança e estima, de modo especial que este tempo, que se abre diante de nós, fique marcado concretamente pela justiça e a paz.

Com qual atitude devemos olhar para o novo ano? No salmo 130, encontramos uma imagem muito bela. O salmista diz que o homem de fé aguarda pelo Senhor «mais do que a sentinela pela aurora»(v. 6), aguarda por Ele com firme esperança, porque sabe que trará luz, misericórdia, salvação. Esta expectativa nasce da experiência do povo eleito, que reconhece ter sido educado por Deus a olhar o mundo na sua verdade sem se deixar abater pelas tribulações.

Convido-vos a olhar o ano de 2012 com esta atitude confiante. É verdade que, no ano que termina, cresceu o sentido de frustração por causa da crise que aflige a sociedade, o mundo do trabalho e a economia; uma crise cujas raízes são primariamente culturais e antropológicas. Quase parece que um manto de escuridão teria descido sobre o nosso tempo, impedindo de ver com clareza a luz do dia.

Mas, nesta escuridão, o coração do homem não cessa de aguardar pela aurora de que fala o salmista.
Esta expectativa mostra-se particularmente viva e visível nos jovens; e é por isso que o meu pensamento se volta para eles, considerando o contributo que podem e devem oferecer à sociedade. Queria, pois, revestir a Mensagem para o XLV Dia Mundial da Paz duma perspectiva educativa: «Educar os jovens para a justiça e a paz», convencido de que eles podem, com o seu entusiasmo e idealismo, oferecer uma nova esperança ao mundo.

A minha mensagem dirige-se também aos pais, às famílias, a todas as componentes educativas, formadoras, bem como aos responsáveis nos diversos âmbitos da vida religiosa, social, política, econômica, cultural e mediática. Prestar atenção ao mundo juvenil, saber escutá-lo e valorizá-lo para a construção dum futuro de justiça e de paz não é só uma oportunidade, mas um dever primário de toda a sociedade.

Trata-se de comunicar aos jovens o apreço pelo valor positivo da vida, suscitando neles o desejo de consumá-la ao serviço do Bem. Esta é uma tarefa, na qual todos nós estamos, pessoalmente, comprometidos.

As preocupações manifestadas por muitos jovens nestes últimos tempos, em várias regiões do mundo, exprimem o desejo de poder olhar para o futuro com fundada esperança. Na hora atual, muitos são os aspectos que os trazem apreensivos: o desejo de receber uma formação que os prepare de maneira mais profunda para enfrentar a realidade, a dificuldade de formar uma família e encontrar um emprego estável, a capacidade efetiva de intervir no mundo da política, da cultura e da economia contribuindo para a construção duma sociedade de rosto mais humano e solidário.

É importante que estes fermentos e o idealismo que encerram encontrem a devida atenção em todas as componentes da sociedade. A Igreja olha para os jovens com esperança, tem confiança neles e encoraja-os a procurarem a verdade, a defenderem o bem comum, a possuírem perspectivas abertas sobre o mundo e olhos capazes de ver « coisas novas » (Is 42, 9; 48, 6).

Os responsáveis da educação

2. A educação é a aventura mais fascinante e difícil da vida. Educar – na sua etimologia latina educere – significa conduzir para fora de si mesmo ao encontro da realidade, rumo a uma plenitude que faz crescer a pessoa. Este processo alimenta-se do encontro de duas liberdades: a do adulto e a do jovem. Isto exige a responsabilidade do discípulo, que deve estar disponível para se deixar guiar no conhecimento da realidade, e a do educador, que deve estar disposto a dar-se a si mesmo. Mas, para isso, não bastam meros dispensadores de regras e informações; são necessárias testemunhas autênticas, ou seja, testemunhas que saibam ver mais longe do que os outros, porque a sua vida abraça espaços mais amplos. A testemunha é alguém que vive, primeiro, o caminho que propõe.

E quais são os lugares onde amadurece uma verdadeira educação para a paz e a justiça? Antes de mais nada, a família, já que os pais são os primeiros educadores. A família é célula originária da sociedade. «É na família que os filhos aprendem os valores humanos e cristãos que permitem uma convivência construtiva e pacífica. É na família que aprendem a solidariedade entre as gerações, o respeito pelas regras, o perdão e o acolhimento do outro». Esta é a primeira escola, onde se educa para a justiça e a paz.

Vivemos num mundo em que a família e até a própria vida se veem constantemente ameaçadas e, não raro, destroçadas. Condições de trabalho frequentemente pouco compatíveis com as responsabilidades familiares, preocupações com o futuro, ritmos frenéticos de vida, emigração à procura de um adequado sustento se não mesmo da pura sobrevivência, acabam por tornar difícil a possibilidade de assegurar aos filhos um dos bens mais preciosos: a presença dos pais; uma presença, que permita compartilhar de forma cada vez mais profunda o caminho para se poder transmitir a experiência e as certezas adquiridas com os anos – o que só se torna viável com o tempo passado juntos. Queria aqui dizer aos pais para não desanimarem! Com o exemplo da sua vida, induzam os filhos a colocar a esperança antes de tudo em Deus, o único de quem surgem justiça e paz autênticas.

Quero dirigir-me também aos responsáveis das instituições com tarefas educativas: Velem, com grande sentido de responsabilidade, por que seja respeitada e valorizada em todas as circunstâncias a dignidade de cada pessoa. Tenham a peito que cada jovem possa descobrir a sua própria vocação, acompanhando-o para fazer frutificar os dons que o Senhor lhe concedeu. Assegurem às famílias que os seus filhos não terão um caminho formativo em contraste com a sua consciência e os seus princípios religiosos.

Possa cada ambiente educativo ser lugar de abertura ao transcendente e aos outros; lugar de diálogo, coesão e escuta, onde o jovem se sinta valorizado nas suas capacidades e riquezas interiores e aprenda a apreciar os irmãos. Possa ensinar a saborear a alegria que deriva de viver dia após dia a caridade e a compaixão para com o próximo e de participar ativamente na construção duma sociedade mais humana e fraterna.

Dirijo-me, depois, aos responsáveis políticos, pedindo-lhes que ajudem concretamente as famílias e as instituições educativas a exercerem o seu direito–dever de educar. Não deve jamais faltar um adequado apoio à maternidade e à paternidade. Atuem de modo que a ninguém seja negado o acesso à instrução e que as famílias possam escolher livremente as estruturas educativas consideradas mais idôneas para o bem dos seus filhos. Esforcem-se por favorecer a reunificação das famílias que estão separadas devido à necessidade de encontrar meios de subsistência.

Proporcionem aos jovens uma imagem transparente da política, como verdadeiro serviço para o bem de todos. Não posso deixar de fazer apelo ainda ao mundo das mídia para que prestem a sua contribuição educativa.

Na sociedade atual, os meios de comunicação de massa têm uma função particular: não só informam, mas também formam o espírito dos seus destinatários e, consequentemente, podem concorrer notavelmente para a educação dos jovens. É importante ter presente a ligação estreitíssima que existe entre educação e comunicação: de fato, a educação realiza-se por meio da comunicação, que influi positiva ou negativamente na formação da pessoa.

Também os jovens devem ter a coragem de começar, eles mesmos, a viver aquilo que pedem a quantos os rodeiam. Que tenham a força de fazer um uso bom e consciente da liberdade, pois cabe-lhes em tudo isto uma grande responsabilidade: são responsáveis pela sua própria educação e formação para a justiça e a paz.

Educar para a verdade e a liberdade

3. Santo Agostinho perguntava-se: «Quid enim fortius desiderat anima quam veritatem – que deseja o homem mais intensamente do que a verdade?». O rosto humano duma sociedade depende muito da contribuição da educação para manter viva esta questão inevitável. De fato, a educação diz respeito à formação integral da pessoa, incluindo a dimensão moral e espiritual do seu ser, tendo em vista o seu fim último e o bem da sociedade a que pertence.

Por isso, a fim de educar para a verdade, é preciso antes de mais nada saber que é a pessoa humana, conhecer a sua natureza. Olhando a realidade que o rodeava, o salmista pôs-se a pensar: «Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as estrelas que Vós criastes: que é o homem para Vos lembrardes dele, o filho do homem para com ele Vos preocupardes? » (Sal 8, 4-5). Esta é a pergunta fundamental que nos devemos colocar: Que é o homem?

O homem é um ser que traz no coração uma sede de infinito, uma sede de verdade – não uma verdade parcial, mas capaz de explicar o sentido da vida –, porque foi criado à imagem e semelhança de Deus. Assim, o fato de reconhecer com gratidão a vida como dom inestimável leva a descobrir a dignidade profunda e a inviolabilidade própria de cada pessoa.

Por isso, a primeira educação consiste em aprender a reconhecer no homem a imagem do Criador e, consequentemente, a ter um profundo respeito por cada ser humano e ajudar os outros a realizarem uma vida conforme a esta sublime dignidade. É preciso não esquecer jamais que «o autêntico desenvolvimento do homem diz respeito unitariamente à totalidade da pessoa em todas as suas dimensões», incluindo a transcendente, e que não se pode sacrificar a pessoa para alcançar um bem particular, seja ele econômico ou social, individual ou coletivo.

Só na relação com Deus é que o homem compreende o significado da sua liberdade, sendo tarefa da educação formar para a liberdade autêntica. Esta não é a ausência de vínculos, nem o império do livre arbítrio; não é o absolutismo do eu. Quando o homem se crê um ser absoluto, que não depende de nada nem de ninguém e pode fazer tudo o que lhe apetece, acaba por contradizer a verdade do seu ser e perder a sua liberdade. De fato, o homem é precisamente o contrário: um ser relacional, que vive em relação com os outros e, sobretudo, com Deus. A liberdade autêntica não pode jamais ser alcançada, afastando-se d’Ele.

A liberdade é um valor precioso, mas delicado: pode ser mal entendida e usada mal. «Hoje um obstáculo particularmente insidioso à ação educativa é constituído pela presença maciça, na nossa sociedade e cultura, daquele relativismo que, nada reconhecendo como definitivo, deixa como última medida somente o próprio eu com os seus desejos e, sob a aparência da liberdade, torna-se para cada pessoa uma prisão, porque separa uns dos outros, reduzindo cada um a permanecer fechado dentro do próprio “eu”. Dentro de um horizonte relativista como este, não é possível, portanto, uma verdadeira educação: sem a luz da verdade, mais cedo ou mais tarde cada pessoa está, de fato, condenada a duvidar da bondade da sua própria vida e das relações que a constituem, da validez do seu compromisso para construir com os outros algo em comum ».

Por conseguinte o homem, para exercer a sua liberdade, deve superar o horizonte relativista e conhecer a verdade sobre si próprio e a verdade acerca do que é bem e do que é mal. No íntimo da consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer e cuja voz o chama a amar e fazer o bem e a fugir do mal, a assumir a responsabilidade do bem cumprido e do mal praticado. Por isso, o exercício da liberdade está intimamente ligado com a lei moral natural, que tem caráter universal, exprime a dignidade de cada pessoa, coloca a base dos seus direitos e deveres fundamentais e, consequentemente, da convivência justa e pacífica entre as pessoas.

Assim o reto uso da liberdade é um ponto central na promoção da justiça e da paz, que exigem a cada um o respeito por si próprio e pelo outro, mesmo possuindo um modo de ser e viver distante do meu. Desta atitude derivam os elementos sem os quais paz e justiça permanecem palavras desprovidas de conteúdo: a confiança recíproca, a capacidade de encetar um diálogo construtivo, a possibilidade do perdão, que muitas vezes se quereria obter mas sente-se dificuldade em conceder, a caridade mútua, a compaixão para com os mais frágeis, e também a prontidão ao sacrifício.

Educar para a justiça

4. No nosso mundo, onde o valor da pessoa, da sua dignidade e dos seus direitos, não obstante as proclamações de intentos, está seriamente ameaçado pela tendência generalizada de recorrer exclusivamente aos critérios da utilidade, do lucro e do ter, é importante não separar das suas raízes transcendentes o conceito de justiça. De fato, a justiça não é uma simples convenção humana, pois o que é justo determina-se originariamente não pela lei positiva, mas pela identidade profunda do ser humano. É a visão integral do homem que impede de cair numa concepção contratualista da justiça e permite abrir também para ela o horizonte da solidariedade e do amor.

Não podemos ignorar que certas correntes da cultura moderna, apoiadas em princípios econômicos racionalistas e individualistas, alienaram das suas raízes transcendentes o conceito de justiça, separando-o da caridade e da solidariedade. Ora « a “cidade do homem” não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A caridade manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor teologal e salvífico a todo o empenho de justiça no mundo».
« Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados » (Mt 5, 6). Serão saciados, porque têm fome e sede de relações justas com Deus, consigo mesmo, com os seus irmãos e irmãs, com a criação inteira.

Educar para a paz

5. «A paz não é só ausência de guerra, nem se limita a assegurar o equilíbrio das forças adversas. A paz não é possível na terra sem a salvaguarda dos bens das pessoas, a livre comunicação entre os seres humanos, o respeito pela dignidade das pessoas e dos povos e a prática assídua da fraternidade». A paz é fruto da justiça e efeito da caridade.

É, antes de mais nada, dom de Deus. Nós, os cristãos, acreditamos que a nossa verdadeira paz é Cristo: n’Ele, na sua Cruz, Deus reconciliou consigo o mundo e destruiu as barreiras que nos separavam uns dos outros (cf. Ef 2, 14-18); n’Ele, há uma única família reconciliada no amor.

A paz, porém, não é apenas dom a ser recebido, mas obra a ser construída. Para sermos verdadeiramente artífices de paz, devemos educar-nos para a compaixão, a solidariedade, a colaboração, a fraternidade, ser ativos dentro da comunidade e solícitos em despertar as consciências para as questões nacionais e internacionais e para a importância de procurar adequadas modalidades de redistribuição da riqueza, de promoção do crescimento, de cooperação para o desenvolvimento e de resolução dos conflitos.

« Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus » – diz Jesus no sermão da montanha (Mt 5, 9). A paz para todos nasce da justiça de cada um, e ninguém pode subtrair-se a este compromisso essencial de promover a justiça segundo as respectivas competências e responsabilidades. De forma particular convido os jovens, que conservam viva a tensão pelos ideais, a procurarem com paciência e tenacidade a justiça e a paz e a cultivarem o gosto pelo que é justo e verdadeiro, mesmo quando isso lhes possa exigir sacrifícios e obrigue a caminhar contracorrente.

Levantar os olhos para Deus

6. Perante o árduo desafio de percorrer os caminhos da justiça e da paz, podemos ser tentados a interrogar-nos como o salmista: «Levanto os olhos para os montes, de onde me virá o auxílio? » (Sal 121, 1). A todos, particularmente aos jovens, quero bradar: «Não são as ideologias que salvam o mundo, mas unicamente o voltar-se para o Deus vivo, que é o nosso criador, o garante da nossa liberdade, o garante do que é deveras bom e verdadeiro (…), o voltar-se sem reservas para Deus, que é a medida do que é justo e, ao mesmo tempo, é o amor eterno. E que mais nos poderia salvar senão o amor?». O amor rejubila com a verdade, é a força que torna capaz de comprometer-se pela verdade, pela justiça, pela paz, porque tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (cf. 1 Cor 13, 1-13).

Queridos jovens, vós sois um dom precioso para a sociedade. Diante das dificuldades, não vos deixeis invadir pelo desânimo nem vos abandoneis a falsas soluções, que frequentemente se apresentam como o caminho mais fácil para superar os problemas. Não tenhais medo de vos empenhar, de enfrentar a fadiga e o sacrifício, de optar por caminhos que requerem fidelidade e constância, humildade e dedicação. Vivei com confiança a vossa juventude e os anseios profundos que sentis de felicidade, verdade, beleza e amor verdadeiro. Vivei intensamente esta fase da vida, tão rica e cheia de entusiasmo.

Sabei que vós mesmos servis de exemplo e estímulo para os adultos, e tanto mais o sereis quanto mais vos esforçardes por superar as injustiças e a corrupção, quanto mais desejardes um futuro melhor e vos comprometerdes a construí-lo. Cientes das vossas potencialidades, nunca vos fecheis em vós próprios, mas trabalhai por um futuro mais luminoso para todos. Nunca vos sintais sozinhos! A Igreja confia em vós, acompanha-vos, encoraja-vos e deseja oferecer-vos o que tem de mais precioso: a possibilidade de levantar os olhos para Deus, de encontrar Jesus Cristo – Ele que é a justiça e a paz.

Oh vós todos, homens e mulheres, que tendes a peito a causa da paz! Esta não é um bem já alcançado, mas uma meta, à qual todos e cada um deve aspirar. Olhemos, pois, o futuro com maior esperança, encorajemo-nos mutuamente ao longo do nosso caminho, trabalhemos para dar ao nosso mundo um rosto mais humano e fraterno e sintamo-nos unidos na responsabilidade que temos para com as jovens gerações, presentes e futuras, nomeadamente quanto à sua educação para se tornarem pacíficas e pacificadoras! Apoiado em tal certeza, envio-vos estas reflexões que se fazem apelo: Unamos as nossas forças espirituais, morais e materiais, a fim de «educar os jovens para a justiça e a paz».

Vaticano, 8 de dezembro de 2011.

Um cartão de Natal misterioso - L. Boff

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Inauguração da Exposição de Presépios/2011
24 de dezembro - após a Missa de Natal
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O Natal é a festa das crianças e da divina Criança que se esconde dentro de cada adulto.

É altamente inspiradora a crença de que Deus se acercou dos seres humanos na forma de uma criança. Assim ninguém pode alegar que Ele é apenas um mistério insondável, fascinante por um lado e aterrador por outro. Não.

Ele se aproximou de nós na fragilidade de um recém-nascido que choraminga de frio e que busca, faminto, o seio materno. Precisamos respeitar e amar esta forma como Deus quis entrar no nosso mundo. Pelos fundos, numa gruta de animais, numa noite escura e cheia de neve “porque não havia lugar para ele nas pousadinhas de Belém”.

Mais consoladora é ainda a ideia de que seremos julgados por uma criança e não por um juiz severo e esquadrinhador. Criança quer brincar. Ela se enturma imediatamente com todas as outras, pobres, ricas, japonesas, negras e loiras. É a inocência originária que ainda não conheceu as malícias da vida adulta.

A divina Criança nos introduzirá na dança celeste e no festim que a família divina do Pai, do Filho e do Espírito Santo prepara para todos os seus filhos e as suas filhas, não excluidos aqueles que, um dia, foram desgarrados.

Estava refletindo sobre esta realidade benaventurada quando um um anjo, daqueles que cantaram aos pastores nos campos de Belém, se aproximou espiritualmente e me entregou um cartãozinho de Natal. De quem seria?

Comecei a ler. Nele se dizia:

“Queridos irmãozinhos e irmãzinhas:

Se vocês ao olharem o presépio e ao verem lá o Menino Jesus no meio de Maria e de José e junto do boi e do jumento, se se encherem de fé de que Deus se fez criança, como qualquer um de vocês;

Se vocês conseguirem ver nos outros meninos e meninas a presença inefável do Menino Jesus que uma vez nascido em Belém, nunca nos deixou sozinhos neste mundo;

Se vocês forem capazes de fazer renascer a criança escondida nos seus pais, nos seus tios e tias e nas outras pessoas que vocês conhecem para que surja nelas o amor, a ternura, o cuidado com todo mundo, também com a natureza;

Se vocês, ao olharem para o presépio, descobrirem Jesus pobremente vestido, quase nuzinho e lembrarem de tantas crianças igualmente mal vestidas e se sofrerem no fundo do coração por esta situação e se puderem dividir o que vocês têm de sobra e desejarem já agora mudar este estado de coisas;

Se vocês ao verem a vaquinha, o burrinho, as ovelhas, os cabritos, os cães, os camelos e o elefante no presépio e pensarem que o universo inteiro é também iluminado pela divina Criança e que todos eles fazem parte da grande Casa de Deus;

Se vocês olharem para o alto e virem a estrela com sua cauda luminosa e recordarem que sempre há uma estrela como a de Belém sobre vocês, acompanho-os, iluminando-os, mostrando-lhes os melhores caminhos;

Se vocês se lembrarem que os reis magos, vindos de terras distantes, eram, na verdade, sábios e que ainda hoje representam os cientistas e os mestres que conseguem ver nesta Criança o sentido secreto da vida e do universo;

Se vocês pensaram que esse Menino é simultaneamente homem e Deus e por ser homem é seu irmão e por ser Deus existe uma porção Deus em vocês e por causa disso, se encherem de alegria e de legítimo orgulho;

Se pensarem tudo isso então fiquem sabendo que eu estou nascendo de novo e renovando o Natal entre vocês. Estarei sempre perto, caminhando com vocês, chorando com vocês e brincando com vocês até aquele dia em que chegaremos todos, humanidade e universo, na Casa de Deus que é Pai e Mãe de infinita bondade, para morarmos sempre juntos e sermos eternamente felizes”.

Belém, 25 de dezembro do ano 1.
Assinado: Menino Jesus

Por Leonardo Boff

Mensagem de D. Jacyr Braido, no Advento/2011 e Homilia 4o. Dom. Advento/2011



"Alegra-te cheia de Graça"

Hoje podemos perceber que a narrativa da anunciação do anjo a Maria é exclusiva do evangelho de Lucas. No evangelho de Mateus a comunicação do anjo é feita a José. O evangelho mais antigo, de Marcos, inicia-se com a pregação de João Batista e o batismo de Jesus.

Lucas, por sua vez, em uma perspectiva retrospectiva, iniciará com o anúncio do nascimento de João a Zacarias e do nascimento de Jesus a Maria. Assim, vemos que João Batista e Jesus estão intimamente ligados no projeto de Deus.

Observemos que Lucas faz um paralelismo entre as origens dos dois. João, a partir da escolha do próprio nome pelo anjo, diferente do nome do pai, significa a ruptura com a tradição familiar sacerdotal e com o sistema religioso do judaísmo.

Jesus, com sua prática nova que flui do amor, no Espírito Santo, confirmará esta ruptura com a tradição templária e legalista. Maria e José representam a periferia.

Um operário de Nazaré, na Galiléia paganizada, apresenta na sua ascendência genealógica um ramo davídico. Porém a concepção de Jesus dar-se-á por obra do Espírito Santo, frustrando as expectativas messiânicas fundadas na tradição davídica elaborada por meio da profecia de Natan – é o que se percebe na primeira leitura -, o que exigirá amadurecimento dos discípulos para compreendê-lo.

Em Maria, escolhida por Deus, encontramos a plenitude da dignidade, na humildade, na simplicidade, no serviço e no amor. Maria ouve a saudação do anjo: "Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo".

A graça consiste nos dons de Deus.

Importante ressaltar que a presença do Senhor significa a força para cumprir uma missão que parece estar além das condições humanas.

Está em andamento a revelação do mistério de Deus – atentem-se para a segunda leitura.

Voltemos, então, o nosso olhar para Maria - ela, livremente e consciente de que pode confiar em Deus, dá sua inteira adesão ao Espírito que renova todas as coisas em Jesus.

Pela encarnação, que já acontece a partir da concepção de Jesus em seu ventre, Deus nos dá a conhecer que homem e mulher, foram criados para participarem da sua vida divina e eterna.

Em Jesus, que é a expressão histórica desta realidade revelada, encontramos esta íntima união entre o humano e o divino. O Divino que se faz humano para tornar o humano divino.

Prof. Diácono Miguel A. Teodoro
Teologia Fé e Vida (http://www.teologiafeevida.com.br/)

"Aplainai o caminho do Senhor" Jo 1,6-8.19-28 - 11/12/2011

O Ser humano é uma criatura fantástica, desta sua condição diferenciada de todas as demais surgem comportamentos, atitudes, sentimentos, manifestações que brotam do seu interior e muitas vezes nem ele mesmo é capaz de explicar e entender.

Dentre os sentimentos que a vida humana experimenta, uma delas é a sensação de alegria. Alegria por que vêem seus projetos se realizarem, por que vê seus filhos crescer, porque se dá bem no exercício da profissão, por que a pessoa que ama está próxima e assim por diante.

Pois é da Alegria que a liturgia deste domingo se ocupa. É deste sentimento que falam as leituras da Palavra de Deus que se ouve nas celebrações dominicais, é isso que sugere o tempo do advento com a proximidade para o natal.

Alegria e espanto por tudo o que Deus realiza em favor da humanidade em todos os tempos.

Maria a mãe de Jesus, experimentou esse sentimento em distintas ocasiões e por diferentes motivos.

Ao receber o anúncio do Anjo de que seria mãe do Salvador; Alegra-te cheia de graça! Maria encheu-se de alegria com um misto de preocupação e incompreensão por tudo o que estava acontecendo.

Alegria quando se encontrou com Isabel sua parenta. E pela vida afora, diversas vezes a Bíblia aponta a alegria de Maria na companhia e presença do Filho.

Hoje, no terceiro domingo do advento, as comunidades que se reúnem para celebrar e rezar, são convidados a experimentar a mesma alegria que experimentaram homens e mulheres ao longo da história. Afinal de contas está muito próximo o momento de encontrar o Senhor. Eis que Ele vem!

Nesta condição, cada cristão é chamado, a proclamar como fez o Profeta Isaias no texto da primeira leitura: “Exulto de alegria no Senhor e minh'alma regozija-se em meu Deus; ele me vestiu com as vestes da salvação, envolveu-me com o manto da justiça. O Senhor Deus fará germinar a justiça e a sua glória diante de todas as nações”.

Na mesma direção exorta São Paulo: “Estai sempre alegres! Rezai sem cessar. Afastai-vos de toda espécie de maldade! Que o próprio Deus da paz vos santifique totalmente, e que tudo aquilo que sois - espírito, alma, corpo - seja conservado sem mancha alguma para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo!”.

Para dar testemunho da alegria que o Cristo veio trazer não é necessário ignorar a condição e a situação que se vive. João Batista, no texto do Evangelho, faz ver como isso é possível. Imitá-lo é sugestão e condição para todos os que querem ver Jesus.

O texto que se ouve hoje começa dizendo: “Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz”. João mesmo afirma a sua condição e missão: “'Eu sou a voz que grita no deserto: 'Aplainai o caminho do Senhor’. 'Eu batizo com água; mas no meio de vós está aquele que vós não conheceis, e que vem depois de mim. Eu não mereço desamarrar a correia de suas sandálias”.

Neste sentido a alegria deste terceiro domingo do advento sugere às assembléias reunidas aquilo que se reza na última oração da missa: “que estes sacramentos purifiquem os pecados e preparem para as festas que se aproximam”.

Toda a Igreja e a Igreja toda é convidada a proclamar com Maria: “Minha alma exulta em Deus meu Salvador”, ao mesmo tempo em que se coloca penitente no caminho da conversão e da vida nova: “aplainai os caminhos do Senhor”. Para isso seja útil a oração de todos, a Eucaristia e a Palavra.

Padre Elcio Alberton (http://padreelcio.blogspot.com/)

“Preparai o caminho do Senhor!” - Marcos 1,1-8 - 04/12/2011

Consolai, meu povo!

O tempo do Advento celebra as duas vindas de Cristo: Aquele que virá sobre as nuvens e o que veio sobre a palha. É a mesma dimensão de encontro com “Aquele que vem”.

A liturgia do Advento nos coloca na mesma expectativa dos profetas, principalmente do profeta Isaías, pois rezamos na oração da missa: “Nós vos pedimos, ó Deus, que nenhuma atividade terrena nos impeça de correr ao encontro do vosso Filho” (Oração). Isto é o mesmo que dizer: “Nivelem-se os vales, rebaixem os montes; endireite-se o que é torto e alisem-se as asperezas” (Is. 40,4).

O Advento nos remete ao sentimento de que um dia esse mundo será melhor, a partir do momento em que as pessoas aceitam Jesus na condição humana. Ele vem para implantar a paz, a justiça e o amor, como rezamos no salmo: “A verdade e o amor se encontrarão, a justiça e a paz se abraçarão” (Sl 84).

Todas as promessas têm sua realização no que João anuncia. João é a síntese de todos os profetas: Anunciou a presença do Messias e O acolheu como o enviado do Pai. O profeta Isaias anuncia, ao povo que estava no exílio da Babilônia, uma libertação grandiosa como o Deus que vem a seu encontro.

Deus mesmo liberta seu povo. Por isso o profeta inicia com palavras de conforto: “Consolai, consolai, meu povo… a servidão acabou e a expiação de suas culpas foi cumprida” (Is 40,1.2). É o novo Êxodo e, dessa vez, glorioso.

No mundo atual, em meio a tantas escravidões, podemos ouvir a voz do profeta e de João que preconizam tempos novos de libertação. Cada Natal é a realização da libertação que vem de Deus através de seu Filho, o pastor que carrega os cordeiros ao colo (11). Infelizmente os caminhos estão bem estragados.

Na Angola o povo cantava que estava difícil voltar para casa, pois o mato crescera no caminho. Sua vinda é consolação para todos sofredores.

Correr ao encontro de Jesus

Ir ao encontro de Cristo tem um endereço certo: a pessoa do irmão. Irmão não é só o irmão de fé, mas todo homem e toda mulher, pois todos são filhos e filhas de Deus.

Ele vem ao nosso encontro e nós O encontramos no irmão: “Agora e em todos os tempos Ele vem ao nosso encontro, presente em cada pessoa humana para que O acolhamos na fé e O testemunhemos na caridade, enquanto esperamos a feliz realização do seu Reino” (Prefácio).

João Batista é o exemplo e o pregador desta verdade, pois ele próprio era desapegado de tudo e aberto para receber a Boa Notícia que é Jesus e comunicá-la.

Deus age na história na libertação do exílio, na vinda de Jesus e no Reino presente no meio de nós. Para realizar essa missão e acolher e anunciar, como fez João, temos que ter uma vida penitente e despojada. Só o deserto pode nos formar.

Julgar os valores terrenos

Quais são os caminhos que devemos aplainar? O fiel necessita neste tempo a capacidade de discernir o que é de Deus e onde firmar sua esperança.

Já temos por experiência que os bens terrenos são bons para conquistar o Reino dos Céus pela caridade. Mas não são bons quando nos conquistam. Jesus ensinou: “Fazei amigos com o dinheiro da iniqüidade, a fim de que, no dia em que falar, eles vos recebam nos tabernáculos eternos” (Lc 16,9). Esta paz vem “os que voltam ao Senhor seu coração! (Id).

A Eucaristia será sempre a mestra que ensina a julgar com sabedoria os valores terrenos e a colocar nossas esperanças nos bens eternos” (Pós-comunhão). Nossa vida prepara a vinda do Senhor a outros que vem.

Pe. Luiz Carlos de Oliveira, Redentorista

Advento - 27/11/2011 - Mc 13,33-37

Este trecho é tirado do capítulo 13 - todo ele escatológico - quer dizer, referente ao fim do mundo. No evangelho de hoje, Jesus chama a nossa atenção sobre a vigilância.

Estamos começando o Ano Litúrgico já nos preparando para o Natal com o Advento ou a chegada de Jesus, e a liturgia nos lembra a segunda vinda de Jesus - o tempo final. O importante mesmo é ficar vigilante.

A primeira frase já nos apresenta a mensagem total: “Cuidado! fiquem atentos, porque vocês não sabem quando chegará o momento”.

Se esse versículo tivesse sido levado a sério (veja também 13,32) ter-se-ia evitado muito papel, tinta, trabalhos, escândalos, frustrações e transtornos ao longo da história da religião cristã, principalmente de seitas cristãs, ou pseudo-cristãs.

Ninguém sabe o dia, nem a hora, nem o século do momento final. Para ilustrar isso Jesus faz uma comparação como se ele fosse um homem que tivesse feito uma longa viagem para o estrangeiro e tivesse deixado a sua casa sob a responsabilidade dos empregados, cada um com uma tarefa. E tivesse mandado o porteiro ficar vigiando. O porteiro, sem dúvida, representa os líderes das comunidades, mas a responsabilidade para zelar da casa de Deus que é o mundo, é tarefa de todos. “O que digo a vocês, digo a todos”. A qualquer momento da noite o dono da casa pode voltar e ninguém pode ser encontrado dormindo.

O que significa afinal, “vigiar ou não dormir”? Significa a tarefa de continuar com empenho a tarefa de Jesus, que, em uma palavra, é vida para todos, ou seja, lutar para que o homem viva com dignidade, tenha casa, terra, pão, educação e viva na justiça e na comunhão. Isso é vigiar, isso é não dormir.

Vigiar ou estar vigilante não é algo passivo, mas um desempenho da tarefa recebida. Acho que há muita gente na comunidade cristã, que está participando das liturgias, mas mesmo assim está vivendo em total descuido, sem vigilância nenhuma e em profundo sono. Acho que muita gente está correndo o perigo de acordar assustado, quando Jesus chegar!

Dom Emanuel Messias de Oliveira
Bispo Diocesano de Caratinga

Jesus, Rei do Universo-20/11/2011-Mt 25,31-46

Ensina o profeta Ezequiel: Deus, no tempo de sua intervenção, assumirá pessoalmente o governo do seu povo, como um dono que quer cuidar pessoalmente do seu rebanho – já que os pastores não prestavam (1ª leitura).

No evangelho de hoje, último domingo do ano litúrgico, Jesus evoca essa imagem para falar do Juízo no tempo final. Ao mesmo tempo “rei” e “pastor”, o “Filho do Homem” vai separar os bons dos maus, como o pastor separa os bodes dos carneiros. E o critério dessa separação será o amor ao próximo, especialmente ao mais pequenino. Aliás, Jesus se identifica com esses pequenos. Conforme tivermos acudido a esses, nas suas necessidades, Jesus nos deixará participar do seu reino para sempre – ou não.

A 2ª leitura completa esse quadro pela grandiosa visão de Paulo sobre Jesus, Rei do Universo. Ele subjuga todos os inimigos, inclusive a morte; e então, ele mesmo se submeterá a Deus, para que este seja tudo em todos. Assim, a obediência e o despojamento de Jesus o acompanham até na glória.

Chamar Jesus Rei do Universo significa que é ele quem dirige a História. Sua mensagem, selada pelo dom da própria vida, é a última palavra. A mensagem do amor fraterno gratuito, manifestado ao mais pequenos dos irmãos, é o critério que decide sobre a nossa vida e sobre a História.

Entretanto, vivemos num mundo de pouca gratuidade. Até aquilo que deve simbolizar a gratuidade é explorado e comercializado (indústria dos brindes...). Esforçar-se por alguém ou por algo sem visar proveito parece um absurdo. Contudo, é isso que vence o mundo. É deste amor não interesseiro que Cristo pedirá contas na hora decisiva.

Ora, olhando bem, descobrimos que esse amor gratuito existe no mundo. Mas por sua própria natureza, ele fica na sombra, age no escondido, produzindo, contudo, uma transformação irresistível e sempre renovada.

Temos assim exemplos de pessoas individuais que optaram pelo amor gratuito, ou também de grupos que vencem a exclusão pelo modo solidário de viver. Evangelho é educar as pessoas para a caridade não interesseira e criar estruturas que a favoreçam (contra o consumismo, a competição exacerbada, o classismo e o racismo e todas as formas de negação dos nossos semelhantes).

Neste sentido, os humildes projetos de solidariedade não interesseira (creches de favela, hortas comunitárias, escolas atendidas por voluntários etc) são uma coroa para Cristo Rei, que hoje celebramos.

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
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Multiplicar ou Enterrar os TALENTOS? Mt 25,14-30 - 13/11/2011

Neste domingo, a liturgia toda converge na perspectiva escatológica.

A oração do dia fala da felicidade completa (a “paz” do canto da entrada), que é o fruto do serviço dedicado ao Senhor (cf. oração sobre as oferendas).

Disso fala a parábola dos talentos (evangelho), mais conhecida que compreendida. Convém interpretá-la bem. Seu lugar, no fim do evangelho de Mt e do ano litúrgico, orienta a interpretação: exprime o critério final de nossa vida.

Portanto, o acento principal não está na diversidade dos talentos, dos dons, mas no valor decisivo do serviço empenhado (*).

A 1ª leitura cita o “talento feminino” como exemplo, mas deve ser situada na intenção escatológica do conjunto da liturgia.

O assunto não é a diversidade dos carismas (em Lc 19,12-17, os servos recebem todos a mesma soma), e sim, o investimento diligente em vista do fim.

Para a volta do Senhor (a Parusia), para a participação definitiva no seu senhorio, deveremos prestar contas daquilo que tivermos recebido, no sentido de tê-lo utilizado e não escondido. É como a luz que não deve ser colocada debaixo do alqueire (Mi 5,1 4s); e a advertência concomitante: com a medida com que medirdes, sereis servidos. Em outros termos: o que recebemos deve frutificar em nós. O mesmo significado tem a parábola dos talentos, que usa como imagem a prática administrativa e comercial: quando se confia dinheiro a alguém, se ele for um homem diligente, ele o fará render.

Tal diligência cabe no Reino de Deus (cf. a diligência como tema central da parábola das dez virgens, imediatamente anterior).

A mensagem central é, portanto, a diligência. Deus nos confiou um tesouro, e devemos diligentemente aplicá-lo na perspectiva do sentido último e final de nossa existência, que é: Deus mesmo (a participação no senhorio de Cristo, quando da Parusia, significa a nossa exaltação, integração na existência divina).

Aplicando com diligência e conforme a vontade de Deus o que recebemos, realizamos desde já uma existência escatológica, divina. Tomar nossa a causa (o “interesse”) de Deus, eis a mensagem de hoje. A diligência da “mulher virtuosa”, na 1ª leitura, ilustra essa mensagem. Ser mulher cem por cento, explorando as ricas possibilidades da feminilidade, é viver a presença decisiva de Deus.

A 2ª leitura aponta na mesma direção. É um dos raros textos em que Paulo cita palavras da tradição evangélica (“O Dia do Senhor vem como um ladrão de noite”, cf. Mt 24,35.43 e par.; a repentina destruição, cf. Lc 21,34s; a comparação com as dores do parto, cf. Mt 24,8 e par.). Paulo descreve aqui a existência completamente iluminada pela proximidade do Senhor.

Novamente observamos que a iminência do último dia é descrita muito mais em termos de luz do que de ameaça (embora estes também ocorram).

Existência escatológica (viver hoje o “Dia do Senhor”) é deixar-se iluminar pelo Cristo que vem. Esta era também a mensagem dos primeiros domingos do ano litúrgico, que antecipavam a perspectiva final. Por isso, lembramo-nos de que Deus, em última análise, pensa em paz para nós (canto da entrada).


(*) Um talento é 30 kg de ouro. Mt gosta de números exagerados, cf. 24º Domingo T.C.

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
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A santidade é estar com Deus - 06/11/2011 - Mt 5,1-12a

Celebramos a festa de todos os santos, lembrando a vocação de todos nós, ser santos. “sede santo como vosso pai é santo”.

Muitas vezes compreendemos de maneira errada o que é ser santo. Olhamos para as imagens e achamos que ser santo é privilégio de poucos ou só daqueles que estão nos altares. Muitas vezes achamos que aquela cabecinha torta, inclinada para a esquerda é a posição de santidade, que foi a postura da vida daquelas pessoas retratadas nas imagens.

Precisamos entender que todos eles tiveram vida normal: choraram, sorriram, sofreram, se apaixonaram, se decepcionaram, sentiram dor, fome, frio e calor, pessoas comuns. O que os diferenciou é que viveram o seguimento de Jesus que é o único santo, o único merecedor de adoração.

Por falar em adoração, nós católicos, somos criticados por adorar imagens.

Falam que na bíblia está dito que não devemos adorar imagens. É verdade. O que não entendem e que nós precisamos dizer sempre é que não adoramos as imagens, mas, temos especial carinho e devoção aos homens e mulheres que vieram antes de nós e que fizeram de sua vida um caminho de seguimento de Jesus e por isso, se santificaram.

Pensando assim, fica mais fácil entender o que nosso batismo nos deu: o caminho de santidade. Todos nós devemos buscar o seguimento de Jesus para sermos santos, pois esta é a nossa vocação.

Não é fácil para nós porque não foi fácil para São Francisco, Santa Clara, Santa Terezinha, Santo Antônio, São José e todos os outros. Para eles foi possível e, por isso, é possível para nós também. Pé/fé na caminhada, este é o caminho da santidade.

Na primeira leitura (Ap 7,2-4.9-14) o autor de apocalipse nos lembra que “... o louvor, a glória, a sabedoria, a ação de graças, a honra, o poder e a força pertencem ao nosso Deus, para sempre.” (Ap 7,12). Uma multidão vem ao encontro de Deus e é incontável (tem lugar para nós também).

Os que se santificaram, na linguagem apocalíptica, lavaram suas vestes no sangue do cordeiro e vieram de uma grande tribulação. Assim foram suas vidas e não há outro caminho. Devemos lavar nossas vestes no sangue do cordeiro e conformar nossas vidas com a proposta/projeto do reino de Deus, na grande tribulação.

A santidade se busca no empenho diário e na graça de Deus que insiste constantemente para que nos aproximemos mais e mais de seu trono/serviço aos irmãos.

O belíssimo texto das bem aventuranças nos é dado por Mt 5,1-12. A primeira e a oitava bem aventurança tem um tempo presente na promessa:

Felizes os pobres em espírito e Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino de Deus. As outras bem aventuranças colocam o tempo do verbo no futuro: “serão consolados, herdarão a terra, serão saciados”.

O caminho de santidade não é para o futuro, não é para depois. Somos santos e estaremos com Deus se já o buscamos e se já o temos em nosso cotidiano. Santidade não se faz com o que é periférico e sim com a centralidade do seguimento de Jesus, ser pobre em espírito e trilhar o caminho da justiça.

Concluímos nossa reflexão com a palavra forte e amorosa de 1 Jo 3,1-3: somos chamados filhos de Deus e de fato o somos. Santidade não é uma culminância de vida, mas uma conquista no dia a dia, nos fatos corriqueiros, na busca dos acertos em família e na sociedade.

A festa de todos os santos é a festa da família, de toda a família dos filhos e filhas de Deus. Muitos são os que já estão na casa do Pai e nós ainda peregrinamos para lá. Ele nos espera de braços abertos e nós, aqui, vamos enfrentando a grande tribulação e lavando nossas vestes no sangue do cordeiro.

Se a gente fosse mais santo, o mudo seria bem melhor para todos.
CNBB Oeste Região 2 - http://www.cnbbo2.org.br/

"Quem se humilha será exaltado" - Mateus 23,1-12 - 30/10/2011

Um pastor doente é um desastre para o rebanho. A liturgia de hoje chama à coerência de vida. Malaquias mostra a situação calamitosa dos sacerdotes do tempo. Jesus fala dos fariseus que pregam e não vivem. Para viver bem o sacerdócio é necessária profunda união entre a pregação e a vida.

A primeira vestimenta do sacerdote é a vivência da palavra na simplicidade de vida. A meta é deixar Jesus transparecer que continua nos ministro a fazer a vontade do Pai e dar a vida pelos irmãos.

A coerência que Paulo ensina são suas canseiras pelo evangelho com bondade, dando a própria vida. Somos convidados a amar nossos sacerdotes e não falar mal deles.

Ninho de cobras

Jesus enfrenta os responsáveis pela religião do povo. Jesus não era um bagunceiro que atacava para ver o barulho que fazia. Ele põe a mão na grave ferida que havia na instituição religiosa. Ele próprio era um perfeito cumpridor da lei, mas não no modo deles que tinham uma observância exterior e pior ainda, não viviam o que ensinavam. Não ensinavam errado. Viviam errado o que ensinavam certo.

O que queriam mesmo era aparecer. Deus mandava ter sempre diante dos olhos a Palavra. Então amarravam textos da Bíblia pelo corpo. Deus queria vida, não vitrine.

Esse evangelho pega pesado contra os que ensinam o povo de Deus, sejam sacerdotes, bispos, ministros etc… também aos da área civil. Deus quer de nós, como disse a primeira leitura que sejamos coerentes. A vida dupla não é um bom caminho.

Hoje há muita procura de roupas bonitas no altar (é bom, mas não é tudo), muito rito, muito salamaleque, quando Deus quer o culto do coração. Não dispensa a beleza, mas tem que ter, principalmente, a beleza interior.

Somos convidados também a amar os dirigentes do povo. Mas temos o direito de cobrar coerência de vida e vida mais santa.

Pe. Luiz Carlos de Oliveira, Redentorista
http://www.arquidiocesedefortaleza.org.br/

Amar a Deus e ao próximo - Mt 22,34-40 - 23/10/2011

Jesus resume a Lei, a norma ética, em “amar Deus e o próximo”. Tendo claro que “amar”, neste contexto, não significa mero sentimento, mas opção ética, podemos desdobrar este ensinamento em duas perguntas:

1) Pode-se amar Deus sem amar ao próximo? Não. Já na antiga “Lei da Aliança”, mil anos antes de Cristo, “amar a Deus” significa, concretamente, ajudar ao próximo:
a viúva, o órfão, o estrangeiro, o povo em geral: o direito do pobre clama a Deus (1ª leitura).

Na mesma linha, Jesus, interrogado sobre qual é o maior mandamento, vincula o amor a Deus ao amor ao próximo, e acrescenta que desses dois mandamentos dependem todos os outros (evangelho). Todas as normaséticas devem ser interpretadas à luz do amor a Deus e ao próximo, que são inseparáveis. É impossível optar por Deus sem ser solidário com seus filhos (1Jo 4,20).

A verdadeira religiãoé dedicar-se aos necessitados (Tg 1,27). Na prática, o “amor a Deus” (a religião) passa necessariamente pelo “sacramento do pobre e do oprimido”, ou seja, pela opção por aqueles cuja miséria clama a Deus, seu “Defensor”.

Entre Deus e nós está o necessitado. Só dedicando-se a este, temos acesso a Deus. Mas não basta uma esmola. Com a nossa atual compreensão da sociedade e da história, a dedicação ao empobrecido não se limita à escola, mas exige novas estruturas.

Importa trabalhar as estruturas da sociedade e transforma-las de tal modo que o bem-estar do fraco e do pobre estejam garantido pela solidariedade de todos, numa estrutura política e social que seja eficaz.

2) Pode-se amar o próximo sem amar a Deus? Nosso mundo é, como se diz, “secularizado”. Não dá muito lugar a Deus. Não nos enganem as aparências, os shows religiosos que aparecem em teatro e televisão, pois esse tipo de religiosidade, muitas vezes, não passa de um produto de consumo, no meio de tantos outros. Não é compromisso com Deus.

Ao mesmo tempo, pessoas com profundo senso ético dizem: já não precisamos de Deus para explicar o universo. Será que ainda precisamos dele para sermos éticos, para respeitar nosso semelhante, para “amar o próximo?” Será que não basta ser bom para com os outros, sem apelar a Deus? Para que “amar a Deus”? Para que a religião?

Eis a resposta: para amar bem o irmão, devemos também “amar a Deus”, aderir a ele (embora não necessariamente por uma religião explícita).

Isso, porque o que entendemos por Deus é o absoluto, o incondicional, aquele que tem a última palavra, que sempre nos transcende e está acima de nossos interesses pessoais. Se não buscamos ouvir essa palavra última, pode acontecer que nos ocupemos com o próximo para nos amar a nós mesmos (amor pegajoso, interesseiro, sufocante etc.)

Como cristão, conhecendo “Deus” como Pai de Jesus Cristo e como a fonte do amor que este nos manifestou, devemos perguntar sempre se nossa prática de solidariedade é realmente orientada pelo absoluto, por Deus, aquele que Jesus chama de Pai. Senão, vamos conceber nosso amor de acordo com a nossa medida, que é sempre pequena demais...

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
http://www.franciscanos.org.br/

“Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” Mt 22,15-21 16/10/2011

Os fariseus buscavam, sem trégua, desacreditar Jesus diante do povo ou colocá-lo numa situação complicada, de modo a terminar encarcerado pelas tropas romanas.

Uma declaração comprometedora saída de sua boca seria uma boa cilada. Por isso, enviaram para armar-lhe ciladas alguns de seus discípulos acompanhados de judeus partidários de Herodes, simpatizantes do poder romano.

É bom recordar o ódio que os fariseus nutriam por estes dominadores estrangeiros.

Os emissários agiram com extrema esperteza: trataram Jesus de maneira cortês, louvando-lhe os ensinamentos e a coragem, vendo que não se deixava amedrontar por ninguém.

Além disso, apresentaram-se como judeus piedosos, cheios de escrúpulos de consciência.

Propuseram ao Mestre a questão da liceidade ou não de pagar o tributo a César.

Jesus, porém, deu-se conta da hipocrisia deles travestida de piedade. Por isso, ofereceu-lhes uma resposta que os deixou confundidos.

Em última análise, a resposta do Mestre serve ainda hoje para discernirmos o lícito e o ilícito.

Qualquer coisa é lícita, desde que compatível com o projeto de Deus. O que fere este projeto é ilícito e deve ser rejeitado por quem aderiu ao Reino e procura pautar-se por ele.

Tomando Deus como ponto de referência, é possível determinar, em cada caso concreto, o que é ou não é permitido.

Bastava, pois, que os emissários dos fariseus aplicassem este critério à questão do tributo a ser pago ao imperador romano.

Oração
Pai, por reconhecer-te como centro de minha vida, ensina-me a submeter tudo a ti, e a rejeitar o que pretende polarizar minhas atenções.

Pe. Jaldemir Vitório, jesuita
http://www.domtotal.com.br/

"Poucos são escolhidos"... Mt 22,1-14 - 09/10/2011

Há quem ensine que o número dos "eleitos" é limitado, preestabelecido. Os eleitos vivem conforme sua eleição, e os outros ... se danem. Mas a Bíblia acentua a universalidade da salvação. Todos são chamados.

O profeta Isaías descreve a felicidade do fim dos tempos como um banquete universal na montanha de Deus, em Jerusalém (1ª leitura). Inspirando-se nesta imagem, Jesus, no evangelho, fala de um rei que oferece um banquete para o casamento do seu filho (o Messias "esposo do povo").

Manda vir primeiro os convidados de praxe (os chefes de Israel), mas estes se esquivam. Então manda convidar todo o mundo: miseráveis, estropiados, aleijados ... (a Igreja convocada entre toda espécie de gente). Depois, porém, Jesus acrescenta uma segunda parábola: um dos convidados não vestiu traje de festa ... é expulso.

Todos são convidados, e os que declinam o convite perdem sua vez. Agora convidam-se até os mais pobres, mas isso não quer dizer que podem se apresentar dum jeito qualquer. No mínimo têm que vestir a melhor roupa: a fé e a prática que Cristo espera de nós. O convite é universal, feito sem acepção de pessoas, mas não sem exigências!

Os que recusam o convite não são apenas os chefes de Israel, mas todos aqueles que, bem instalados e satisfeitos consigo mesmos, são incapazes de se alegrarem com o convite universal. Ficam de cara feia, agora que a Igreja convida os pobres para serem realmente "sujeitos" na comunidade eclesial.

Por outro lado, até dos mais simples se exige que "vistam a camiseta". Trata-se de combinar a disponibilidade para o convite do Senhor (a simplicidade, a alegria), com o empenho por corresponder à sua expectativa. O traje mais bonito que temos é a caridade. Quantas pessoas usam este traje para participar do "banquete eucarístico"?

"Muitos são chamados, nem todos são escolhidos". Jesus quer dizer que o fato de ser chamado - que vale para todos - não é suficiente para contar com a eleição. Ora, o que decide se seremos eleitos ou não é a nossa disposição. Quem se alegra com o que Deus faz e revela em Jesus, quem na prática adere a esse modo de viver, sem dúvida poderá participar da festa. Deus convida a todos, mas os admitidos são aqueles que, por sua vida, correspondem ao convite. A "seleção" não é preestabelecida por Deus, mas é o efeito de nosso modo de responder dignamente ao apelo universal.

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
http://www.franciscanos.org.br/

"A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular" Mt. 21,33-43

A parábola era tão clara que os chefes dos fariseus entenderam a quem se referia. Deus – o proprietário – mandou seus servos – profetas – e sempre renovou por meio deles as exigências de sua Aliança.

Diante dessa recusa, Deus abrirá as portas a um novo povo: pecadores, cobradores de impostos, pagãos. Portanto, esta parábola é um síntese da história da salvação: Deus deu provas de extrema dedicação a seu povo.

A parábola da vinha tem todas as características de uma alegoria. Cada elemento tem um significado: Deus é o proprietário; a vinha é Israel; os servos são os profetas; os administradores são os judeus infiéis; os outros vinhateiros são os pagãos e os pecadores; o filho é Jesus.

Esta parábola mostra ainda uma violência constante e crescente contra os que Deus enviou como seus mensageiros, uns foram espancados, outros mortos, outros ainda apedrejados. A parábola deste domingo tem seu paralelismo nos outros dois evangelhos sinóticos – Marcos e Lucas -, e seu sentido é polêmico. Primeiro, quer ser uma condenação dos que, pela violência, queriam vencer os pequenos e pobres, julgando-se os mais fiéis administradores – doutores da lei, escribas, fariseus, zelotas -; depois, mostrando que o Reino de Deus não virá pela violência.

O sentido da parábola é claro: os judeus não aceitaram Jesus, que apresenta uma explicação pela sua morte na cruz. Todo o progresso que não alimenta o plano salvífico de Deus é fruto de destruição, que condena a existência humana e esvazia o sentido da vida.

Prof. Diácono Miguel A. Teodoro
http://www.teologiafeevida.com.br/

Bom para com todos - Mateus 20,1-16a - 18/09/2011

“Bom para com todos”

Os últimos serão os primeiros Jesus devia chocar seus ouvintes, mas atraia sempre mais sua admiração e adesão do povo para colocar as verdades no seu verdadeiro lugar.

A parábola do patrão que foi contratar trabalhadores para sua colheita é muito estranha se não entendemos a realidade para a qual ela foi escrita. Os primeiros cristãos eram de origem judaica. Assumiram a fé com entusiasmo e foram grandes evangelizadores.

Nos primeiros anos estes bons cristãos, vindos do judaísmo, estavam como que revoltados ao verem os pagãos aderirem a fé e serem tratados iguais a eles na Igreja. Pensavam que, pelo fato de serem judeus, desde os tempos de Abraão, acumularam um grande serviço pelo Reino de Deus. Foram fiéis e conservaram grande amor a Deus e a todas as tradições.

Até aqui tudo bem. Receberam o salário de sua fidelidade e do trabalho. A parábola diz que o Reino de Deus é semelhante à história de um patrão que busca operários. O povo é chamado na Sagrada Escritura como a plantação de Deus (1Cor 3,9). O chamado dos operários é o convite à conversão. O pagamento é a vida da graça no Reino.

Os judeus receberam o pagamento completo por sua fidelidade ao peso do trabalho e do calor do sol nos seus muitos anos de história de fidelidade.

Com a conversão dos pagãos, os da última hora, a Igreja é composta de alguns que não “mereceram” esta paga e são tratados como iguais. Mateus afirma que os judeus receberam tudo. E pela bondade de Deus, os pagãos recebem também tudo, pois a misericórdia de Deus é infinita. Ao rezar o salmo entendemos essa resposta de Jesus: “Misericórdia e piedade é o Senhor, Ele é amor é paciência, é compaixão.

O Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda a criatura” (Sl 144,8-9). Como não entendemos o modo de agir de Deus, recebemos do profeta Isaías a resposta: “Meus pensamentos não são vossos pensamentos, vossos caminhos não como os meus caminhos” (Is 55,8).

Deus é abundante em todos os seus dons. Não mede de acordo com nossos méritos mas conforme sua abundante misericórdia. O evangelista, escrevendo para judeus, convida à conversão da mente para pensar como Jesus e acolherem os cristãos vindos do paganismo.

Meu viver é Cristo.

Paulo, mesmo sofrendo e desejando estar em Cristo, se dispõe a continuar sua dedicação aos cristãos. Filipos é sua primeira comunidade em terras da Europa.

Tinha um amor especial por ela. Ele vive tão unido a Cristo que não vê diferença entre ir para o Céu ou se dedicar à evangelização: “Se o viver na carne significa que meu trabalho será frutuoso, neste caso, não sei o que escolher… uma só coisa é importante: viver à altura do evangelho de Cristo” (Fl 1,22.27).

Com este pensamento tão exigente, podemos examinar nossa vida cristã. Nós somos beneficiados por Deus pela graça de fazer parte do Reino e sermos anunciadores deste evangelho. É o momento de examinar nossa fé e ver nossa união com Cristo.

Podemos ver o quanto discutimos por idéias. Há os avançados, os conservadores, os movimentos, as tradições. E Cristo, onde fica em tudo isso? Se todos nós vivermos em Cristo, tudo será diferente. Não se briga por Cristo, mas por ideologias. Sabemos muito de religião e pouco viver em Cristo. A coerência de fé e vida é fundamental.

Mudando de pensamento

A palavra conversão, em grego – metánoia – significa mudança de direção, não de estrada, mas de coração. Essa mudança, como é descrita em Isaías, é para ter os pensamentos de Deus.

Em Mateus, Jesus repreende a Pedro que quer impedi-lo de ir a Jerusalém para sofrer a Paixão: “Afasta-te de mim Satanás! Tu me serves de pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens!” (Mt 16,23).

Pensar diferente de Deus é resultado de viver sem Cristo. Ele não é uma idéia, ou dogma religioso, ou tradição, mas Vida. Se for Vida, a vida está plena Dele. Passamos a ter seus sentimentos e sua mentalidade; abrem-se para nós as portas da Palavra de Deus e a densidade dos sacramentos.

A bondade de Deus será grande e aberta a todos com generosidade.

Pe. Luiz Carlos de Oliveira, redentorista
http://www.arquidiocesedefortaleza.org.br/

Perdoar sem limites - Mt 18,21-35 - 11/09/2011

Já ouvimos o ensinamento de Jesus sobre a correção fraterna. Mas não basta "corrigir", importa que o que estava errado seja realmente superado pelo perdão. E que adianta pedir perdão a Deus, se a gente mesmo não perdoa?

Já o Antigo Testamento nos ensina que não podemos pedir perdão se não perdoamos. A 1ª leitura fundamenta o perdão fraterno na Aliança: somos todos "povo de Deus". Como posso condenar para sempre o meu irmão, que é filho de Deus? Se fizesse tal coisa, eu negaria minha comunhão com Deus, e então, o perdão de Deus não me alcançaria.

E Jesus, no evangelho. nos ensina a estarmos sempre dispostos a perdoar, inúmeras vezes. Conta a parábola do homem que foi absolvido de uma dívida enorme, mas não quis perdoar uma ninharia a seu colega.

Resultado: seu patrão o condenou a pagar tudo. Quem não é capaz de perdoar não é capaz de viver em fraternidade, em comunhão.

O que importa para Deus, em última instância, não é acertar contas, e sim, promover a comunhão, a amizade, a reconciliação. Talvez seja preciso primeiro pôr as contas em dia, mas o objetivo final é a fraternidade. Quem não sabe reconciliar-se com seu irmão não pode ser amigo de Deus, que é o Pai de todos.

Num mundo de competição, como é o nosso, nada se perdoa, não se leva desaforo para casa, vinga-se a honra etc. Devemos substituir esse modelo de competição e de vingança pelo modelo de comunhão.

Quando perdoo, não perco nada; pelo contrário, ganho a comunhão com o irmão e a realização de minha vocação: a semelhança com Deus (cf. Gn 1,26).

O ser humano é tão coitado, que qualquer coisa que alguém lhe estiver devendo lhe parece uma carência vital... Apenas Deus é bastante rico para perdoar sempre a quem se arrepende. A Igreja deve ser um sinal de Deus no mundo. Deve imitar Deus no perdão - no sacramento da reconciliação - e ensinar a mesma coisa aos homens.

O sacramento da reconciliação é uma alegria, não um desagradável dever. É uma celebração da magnanimidade de nosso Deus. "Confessar" significa proclamar não só os pecados, mas sobretudo o louvor do Deus que perdoa.

O sacramento da reconciliação é um serviço que Deus confiou à Igreja, comunidade de salvação, para ajudar o irmão a corrigir seu caminho, a reconciliar-se com Deus e com seus irmãos na fé, e a proclamar a grandeza do amor de Deus. Para quem vivia em pecado grave, é uma verdadeira ressurreição.

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
(http://www.franciscanos.org.br/)

"Se ouvires minha voz" - Mt 18, 15-20 - 04/09/2011

Pe.Luiz Carlos de Oliveira, Redentorista

Presença de Cristo

“Jesus Cristo está realmente presente no altar”. Mas está também realmente presente na comunidade. É um tipo diferente de presença, mas é presença, pois esta união dos irmãos em nome de Jesus são palavras Dele. Jesus, pela ação do Espírito Santo, une as pessoas no Corpo de Cristo. Ao nos unirmos, estamos unidos a Ele. Por isso, a comunidade que se reúne para as celebrações é a matéria desta união, como o pão e o vinho são a matéria que se torna Corpo e Sangue de Cristo. Jesus diz que não precisamos de muitas palavras, muitos gritos, pois Deus sabe do que precisamos, pois é Jesus que reza conosco, é o conteúdo de nossa oração e sua finalidade.

Força da união

Cristo que se faz presente na união de todos para salvar, está presente também na união de todos para rezar. Por isso, rezamos juntos na comunidade. Este modo de rezar dá mais força à oração e garantia de ser ouvido. Muitos dizem que rezam melhor em particular e não precisam ir à comunidade. A força da oração não vem do sentir-se bem, mas do sentir-se unidos, pois Jesus prometeu presença quando estamos reunidos em seu nome. É fundamental a oração pessoal. Se for verdadeira, conduzirá à oração na comunidade para a celebração ou para as devoções.

1. O povo de Deus foi convidado a não fechar os ouvidos. Mateus nos ensina que na comunidade devemos ouvir o chamado à salvação através dos irmãos que nos corrigem. Essa correção tem um método que não é a fofoca: fala-se em particular, depois com duas testemunhas e depois toda a comunidade. Todos somos responsáveis uns pelos outros no caminho da salvação.

2. Cristo está presente na Eucaristia e também na comunidade. Ao nos unirmos estamos unidos a Ele, pela ação do Espírito.

3. A força da união e da presença de Jesus garante a oração. Rezar em particular é necessário, juntos é fundamental. Por isso participamos das celebrações, pois Jesus prometeu estar presente. O amor é o cumprimento da lei.

São Mateus ensina a viver em comunidade. Sabemos que o amor é o fundamento da comunidade. Paulo ensina que o amor resume todos os mandamentos.

O amor nos impulsiona a corrigir os irmãos em suas dificuldades e erros. Somos corresponsáveis uns pelos outros. Se eles não aceitam a correção, continuamos na responsabilidade de amá-los.

Jesus é prático e vai aos detalhes quando trata do modo de corrigir os irmãos. Nós fazemos fofoca, depois acusamos. Jesus ensina: primeiro se procure a pessoa e, a sós, e depois fale com ela. Se não aceita, chama mais duas pessoas para ver que o negócio não é pessoal. Só aí apresenta à comunidade. É duro ouvir que a Igreja não usa esse método e aceita denúncias sem confrontar os acusadores.

A comunidade vive da união. Cremos na presença real de Jesus na Eucaristia. Temos também que crer em sua presença real, de modo diferente, quando dois estão reunidos em seu nome.
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Homilia do 22º Domingo Comum (28.08.11)

Pe. Luiz Carlos de Oliveira, Redentorista

1. Jeremias é uma das expressões do Servo Sofredor que luta para libertar o povo do mal. Reconhece a vontade divina e a ela se entrega. A Palavra de Deus é um fogo que está dentro de seus ossos. A fé o faz fiel a Deus e não recua. Tem a opção clara por Deus. É preciso a busca por Deus. Não há fé sem Deus. Não pode ser baseada em tradições e ideologias.

2. Deixar-se seduzir é assumir a Cruz como fruto da abnegação que dá a Deus o valor fundamental. Perder a alma é perder tudo. Ganhar significa ter a conduta de quem descobriu o verdadeiro valor da vida, o Reino.

3. Pela vida em Cristo e no Espírito podemos ser um sacrifício espiritual que acontece em nosso corpo. O culto cristão se faz primeiro no interior. As atitudes fundadas no Espírito são as oferendas. A meta é não se conformar com o mundo, mas transformar-se renovando o modo de pensar. Se tivermos a sedução de Deus, vencemos.

Saco vazio não para em pé.

Jesus, na palavra de hoje, ensina o sentido da vida: Deixar tudo para ter tudo. Os bens materiais são um nada. Vemos tantos grandões, endinheirados e poderosos deitados no caixão. Não levam nada! Nadinha de tudo. Nem reclamam.

Os que escolhem Jesus perdem muitas coisas, mas ganham o Tudo. É preciso manter esta escolha que deve ser total. Só assim será consistente.

O profeta Jeremias era um fraco, dizem que era medroso. Para mim, ele era um sofredor forte que tirava sua resistência na escolha que fez de ser de Deus. Isso não o deixava fracassar, mesmo quando bonita demais: Disse comigo: “Não quero mais me lembrar disso, nem falar mais em nome Dele”. Senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo”.

Sem esse Deus dentro de nós, não paramos em pé. Saco vazio não para em pé. Cheio das maldades do mundo. Não dobra.

CAMPANHA PELA RESTAURAÇÃO DO TELHADO DA BIBLIOTECA DA ORDEM FRANCISCANA - VALONGO

Venho até a presença de vocês para solicitar apoio à CAMPANHA PARA RESTAURAR O TELHADO DA ORDEM TERCEIRA - VALONGO - SANTOS - SP (imagens anexas).

A Ordem Terceira Franciscana (atualmente designada Ordem Franciscana Secular) está empenhada numa campanha para restaurar a parte do Telhado e Beiral que desabaram já há algum tempo.

Pelas fotos anexas, poderão ter uma idéia de como descaracterizou a fachada de todo o complexo, inclusive do Santuário Santo Antonio.

Tivemos, recentemente, a liberação de uma verba de R$ 10.000,00 através da Prefeitura de Santos, referente ao Fundo de Apoio a Cultura.

No entanto, precisaremos de, pelo menos, o dobro dessa quantia para que possamos fazer um serviço decente.

Estamos lançando essa campanha com esse objetivo.

Meus pedidos a vocês são dois:

1) que contribuam com qualquer quantia para a conta poupança do MOVIMENTO VALONGO MINHA CASA:
Caixa Econômica Federal - Ag. 354 - CP: 13 - 38094-3 (lembrando que o tipo de conta é 13).
Nosso CNPJ é: 05.660.622/0001-60.
Se possível, após a contribuição me informem via email. É possível colaborar via internet, na página do movimento (www.valongominhacasa.org)

2) que repassem este email, como uma corrente do bem, para toda sua lista solicitando, pessoalmente, a colaboração de cada um.

NA TERÇA FEIRA, DIA O4 DE OUTUBRO (Dia de SÃO FRANCISCO) MISSA ÀS 19H00 por todos os colaboradores do restauro e, SE DEUS e VOCÊS NOS AJUDAREM, vamos inaugurar o telhado restaurado.

Na página do Movimento (www.valongominhacasa.org) tem mais informações e, inclusive, maneira de colaborar pela Internet.

PAZ E BEM
OSWALDO DA CRUZ
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"O reino dos Céus é semelhante a um tesouro" - 24/07/2011

Os evangelistas usam as parábolas de Jesus, que circulavam como tradição das comunidades primitivas, adaptando-as e acrescentando explicações, para o entendimento de suas comunidades.

No evangelho de Mateus encontramos duas parábolas que são seguidas de detalhadas explicações (Mt 13,18-23; 36-43).

No evangelho de João encontramos apenas a parábola da porta do redil das ovelhas, seguida, no estilo de metáfora, da proclamação de Jesus de que ele próprio é a porta do redil e é o bom pastor.

Mateus reúne, no capítulo 13 de seu evangelho, sete parábolas com o objetivo de elucidar o mistério do Reino dos Céus. Os evangelistas sinóticos, Marcos, Mateus, Lucas, registram uma explicação, de difícil interpretação, do porque Jesus fala em parábolas (Mt 13,10-15; Mc 4,10-12; Lc 8,9-10). Uma interpretação desta explicação levaria, por um lado, à conclusão de que haveria um prévio propósito de Deus em salvar alguns e condenar outros.

Tal interpretação corresponde à perspectiva de povo eleito, do judaísmo, que deu origem à seletiva teologia da predestinação, conforme nos ensina a segunda leitura, por um lado, e da condenação dos inimigos, por outro lado.

Outra interpretação é a de que aqueles que se indispõem em acolher a palavra de Jesus não compreenderão as parábolas e se excluirão da salvação. Porém a misericórdia de Deus é universal e perene para com todos. Deus cria por amor, e, com amor, sustenta sua criação, glorificando-a.

No evangelho de hoje temos a narrativa das três últimas parábolas, da coletânea do capítulo 13. As duas primeiras parábolas, a do tesouro encontrado no campo e a da perola de grande valor encontrada, revelam a supremacia absoluta do Reino dos Céus em relação a qualquer riqueza terrena. A descoberta do imenso valor do Reino, revelado por Jesus, gera uma tal alegria que a pessoa abre mão de tudo para aderir e participar, já, deste Reino.

A terceira parábola tem certa semelhança com a parábola do joio e do trigo. Contudo aqui o núcleo da parábola é o julgamento escatológico, no fim dos tempos, com a separação entre os maus e os justos. Este dualismo entre maus e justos é decorrente da reivindicação de povo eleito, e foi descartada e superada por Jesus.

Particularmente, a descrição própria de Mateus quanto ao destino final dos maus, lançados na fornalha de fogo, com ranger de dentes, expressa um ato cruel que destoa com a prática misericordiosa e amorosa de Jesus.

Na primeira leitura encontramos uma bela apologia de Salomão, o que entra em contradição com a sua ambição desmedida, revelada em seu reinado. Por um lado, no Primeiro Testamento, Salomão é exaltado em suas posses, em seu harém, em sua haras, no seu poder, caracterizado por sua opressão sobre o povo. Por outro lado o texto de hoje lhe atribui grande sabedoria, dando-lhe grande projeção na tradição de Israel e judaica.

Na comparação final, pode-se pensar que tenhamos uma identificação do autor do evangelho, atribuído a Mateus. Seria o autor este escriba que se tornou discípulo do Reino e reviu suas tradições, tirando delas coisas novas e velhas?

Oração.

Pai, meu grande anseio é deixar-te ser o senhor de minha vida. Faze-me suficientemente audacioso, corajoso e valente, para renunciar a tudo quanto me afasta deste objetivo.

Prof. Diácono Miguel Teodoro
(fonte: www.teologiafeevida.com.br)

O joio e o trigo - 17 de julho de 2011

Em sua pregação aos camponeses da Palestina, na linguagem campestre deles, Jesus aborda hoje o tema da condenação (evangelho).

Já vimos, no domingo passado, que ninguém conhece a profundeza do pensamento de Deus. Incredulidade não significa necessariamente perdição. Como ainda muitos “bons cristãos” hoje, também os antigos judeus se admiravam de que Deus deixasse coexistir fé e incredulidade, justos e injustos. Mas Deus não precisa prestar contas a ninguém.

Sua grandeza, ele a mostra julgando com benignidade, pois ele tem suficiente poder; Deus não é escravo de sua própria força (Sb 12,18; 1ª leitura)! O salmo responsorial (Sl 86[85]), aparentado à revelação de Deus a Moisés em Ex 34,5-6, acentua o tema da magnanimidade de Deus.

Contrariando nossa impaciência e intolerância, Deus aguarda que talvez o injusto ainda se converta (12,19; cf. Lc 13,6-9). Sobre este tema Jesus bordou uma de suas mais eloqüentes parábolas: quando num campo se encontra joio no meio do trigo, é muito imprudente extirpar apressadamente o joio, pois se poderia arrancar também o trigo. Melhor é ter paciência, deixar tudo amadurecer e, no fim, conservar o que serve e queimar a cizânia. Deus é tão grande, que no seu Reino tem espaço até para a paciência com os incrédulos e injustos. Ele é quem julga.

A essa parábola são encadeadas algumas outras, de semelhante inspiração campestre (Mt 13,31-33), bem como uma consideração sobre a “pedagogia” das parábolas. Depois, Jesus explica a parábola do joio. As parábolas intermediárias (do grão de mostarda e do fermento) referem-se ao incrível crescimento do Reino de Deus. Há, porém, diferenças no acento. Na parábola do grão de mostarda, o enorme crescimento do Reino, incomparável com seu humilde início, dá uma impressão de amplidão, de expansão, de espaço; na parábola do fermento, é a força interior que é acentuada: um pouco de fermento dá gosto ao todo.

Nos v. 34-35, o evangelista faz uma observação sobre a pedagogia de Jesus. Ele não fala por meio de parábolas para confundir o povo, mas sua pregação confunde, de fato, os que acham que sabem tudo (cf. Mt 13,12-15; dom. pass.). Ora, para quem quiser escutar, cumpre-se, nesta pedagogia de Jesus, o que o salmista já anunciara há muito tempo: a revelação das coisas escondidas desde a formação do mundo.

O tema principal para hoje é, pois, a grandeza de Deus, que tem lugar para todos, inclusive os pecadores, até o momento em que eles terão de decidir se aceitam a sua graça, sim ou não. Isso nos ensina também algo sobre o pecado: com o tempo, o pecado se transforma, ou em arrependimento, ou em orgulho “infernal”, ao qual cabe o destino que finalmente é dado ao joio.

E como viver num mundo onde coexistem fé e incredulidade, justiça e pecado (muitas vezes, dentro da mesma pessoa, dentro da Igreja também)? Como aceitar pessoas, sem aceitar seu pecado nem a estrutura pecaminosa de nosso mundo? São perguntas candentes, que podem ser meditadas à luz da paciência, não tanto “histórica”, mas antes escatológica, de Deus.

A 2ª leitura nos ensina algo fundamental sobre a “espiritualidade”. Para muita gente, espiritualidade é uma espécie de conquista de si mesmo, um treinamento, uma ascese – tanto que, antigamente, “ascese e espiritualidade” eram estudadas no mesmo tratado. Ora, espiritualidade cristã existe quando o Espírito do Cristo vive em nós, toma conta de nós. Isso nada tem a ver com ascetismo, uma vez que o Espírito adota até a nossa fraqueza. Nós nem sabemos rezar como convém, mas “o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8,26). Portanto, o importante é deixar-se envolver por esse Espírito e não expulsá-lo pela auto-suficiência de nosso próprio espírito. O Espírito do Cristo é que consegue dar conta da nossa fraqueza; o nosso, dificilmente...

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

"A semente é a Palavra de Deus e Cristo é o semeador" 10/07/2011

A Palavra de Deus é igual para todos, assim como a semente que o semeador joga na terra; a germinação e a frutificação dependem das condições do terreno, ou seja, de nossa disposição e colaboração.

Há um mistério no coração do homem: o mistério da generosidade divina e a liberdade humana. Podemos acolher ou menosprezar e, até, rejeitar a semente da Palavra de Deus

Jesus usou uma parábola que seus ouvintes entendiam bem. Eram agricultores: lavravam a terra, semeavam as sementes e colhiam! Hoje, a maioria dos que freqüentam a igreja pouco entendem de sementes e de semeadura! Por isso, é necessário um esforço maior para entender o significado da Palavra de Deus. Podemos dizer que a semente é a leitura da Palavra de Deus, e a frutificação é o comportamento das pessoas que leram ou escutaram a Palavra de Deus.

A Palavra de Deus tem o aval do próprio Deus: é semente de qualidade comprovada; mas as condições da terra dependem mais de nossa vontade de colaborar com ela. A Palavra de Deus ilumina o coração de uma pessoa, mesmo analfabeta; mas, pode ser ineficaz e cansativa num coração estufado de orgulho ou de palavras ocas de nossos Meios de Comunicação Social!

A vida humana conhece, certamente, o sofrimento, mas para um coração simples e repleto de fé, sobra muito espaço para a luz, a alegria e a esperança: “Penso que os sofrimentos do tempo presente não tem proporção com a glória que deverá revelar-se em nós” (Rm 8,18).

Frei Carlos Zagonel, ofmcap
(http://ministrosextraordinariospnsap.blogspot.com)

São Pedro e São Paulo 03/07/2011

1) Pedro: Simão responde pela fé dos seus irmãos (evangelho). Por isso, Jesus lhe dá o nome de Pedro, que significa sua vocação de ser pedra, rocha, para que Jesus edifique sobre ele a comunidade daqueles que aderem a ele na fé. Pedro deverá dar firmeza aos seus irmãos (cf. Lc 22,32). Esta “nomeação” vai acompanhada de uma promessa: as “portas” (= cidade, reino) do inferno (o poder do mal, da morte) não poderão nada contra a Igreja, que é uma realização do “Reino do Céu”
(de Deus).

A libertação da prisão ilustra esta promessa (1ª leitura). Jesus lhe confia também “o poder das chaves”, i.é, o serviço de “mordomo” ou administrador de sua casa, de sua família, de sua comunidade ou “cidade”. Na medida em que a Igreja é realização (provisória, parcial) do Reino de Deus, Pedro e seus sucessores, os Papas, são “administradores” dessa parcela do Reino de Deus (dos “Céus” no sentido de “Deus”... nada a ver com a figura de Pedro como porteiro do céu no sentido do “além”..).

Eles têm a última responsabilidade do serviço pastoral. Pedro, sendo aquele que “responde pelos Doze”, administra ou governa as responsabilidades da evangelização (não a administração material...). Quem exerce este serviço hoje é o Papa, sucessor de Pedro e bispo de Roma (de Roma, por causa das circunstâncias históricas).

Pedro recebe também o poder de “ligar e desligar” - o poder da decisão, de obrigar ou deixar livre -, exatamente como último responsável da comunidade (em Mt 18,18, esse poder é dado à comunidade como tal, evidentemente sob a coordenação de quem responde por ela). Não se trata de um poder ilimitado, mas da responsabilidade pastoral, que concerne à orientação dos fiéis para a vida em Deus, no caminho de Cristo.

2) Paulo: Se Pedro aparece como fundamento institucional da Igreja, Paulo aparece mais na qualidade de fundador carismático. Sua vocação se dá na visão do Cristo no caminho de Damasco: de perseguidor, transforma-se em mensageiro de Cristo; “apóstolo”. É ele que realiza, por excelência, a missão dos apóstolos, de serem testemunhas de Cristo “até aos extremos da terra” (At 1,8).

As cartas a Tímóteo, escritas da prisão em Roma, são a prova disto, pois Roma é a capital do mundo, o trampolim para o Evangelho se espalhar por todo o mundo civilizado daquele tempo. Ele é o “apóstolo das nações”. No fim da sua vida, pode oferecer sua vida como “oferenda adequada” a Deus, assim como ele ensinou (Rm 12,1). Como Pedro, ele experimenta Deus como um Deus que liberta da tribulação (2ª leitura).

Pedro e Paulo representam duas vocações na Igreja, duas dimensões do apostolado, diferentes, mas complementares. As duas foram necessárias para que pudéssemos comemorar, hoje, os fundadores da Igreja universal. A complementaridade dos dois “carismas” continua atual: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária.

Essa complementaridade pode provocar tensões (cf. Gl 2); as preocupações de uma “teologia romana” podem não ser as mesmas que as de uma “teologia latino-americana”. A recente polêmica em tomo da Teologia da Libertação mostrou que tal tensão pode ser extremamente fecunda e vital para a Igreja toda.

Hoje, celebra-se especialmente o “Dia do Papa”. Enseja uma reflexão sobre o serviço da responsabilidade última. Importa libertar-nos de um complexo antiautoritário de adolescentes. Devemos crescer para a obediência adulta, sem mistificação da autoridade, nem anarquia. O “governo” pastoral é um serviço legítimo e necessário na Igreja. Mas importa observar também que aquele que tem a última palavra deve escutar as penúltimas palavras de muita gente.

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
fonte: http://www.franciscanos.org.br/

“Quem vos recebe, a mim recebe” - 26/06/2011

Pe. Luiz Carlos, Redentorista
Acolher bem é caridade

Jesus não era contra tudo que se fazia. Era sempre a favor do que construía o homem e o Reino. Ele é o exemplo do acolhimento. Isso marcou os apóstolos. Por isso, a virtude da hospitalidade era muito estimulada no Novo Testamento, em contraposição às tradições dos antigos que criaram muitas regras de pureza ritual que eram verdadeiras discriminações: “Ao verem isso, todos murmuravam dizendo: Ele (Jesus) entrou para se hospedar na casa de um homem pecador” (Lc 19,7). A celebração de hoje nos ensina o acolhimento como fundamental, porque Divino.

Toda virtude nasce do amor. Na Trindade Santa, o acolhimento mútuo no amor é a força que cria a Unidade. Nossa missão é amar como Jesus que foi ao extremo do amor, dando a vida. Jesus, em suas atitudes “revolucionárias”, acolhia todos aqueles que a prática judaica excluía: pobres, doentes, pecadores e pecadoras, pagãos.

Acolher a pessoa significava para Ele, ir a seu ambiente. Quando chamou Mateus, foi a sua casa e fez refeição com eles e seus amigos, pouco recomendáveis para os fariseus. Ali afirma que são os doentes que precisam de médico (Mt 9,9-13). Tudo é fruto do amor misericordioso de Deus. Acolher o outro é acolher Jesus.

Acolher Cristo, fonte da acolhida

Para viver o amor que acolhe, é urgente acolher Cristo, desprendendo-se de tudo, até da própria vida, assumindo seu modo de viver, carregando sua cruz. Por que a cruz? Porque a morte de Jesus é o resultado por ter acolhido a todos como faz o Pai. Em nós, Jesus acolhia o Pai que não faz distinção de pessoas (Mt 5,45). A mulher de Sunan foi recompensada com um filho, pelo acolhimento que fez ao profeta Eliseu. Para os que crêem em Cristo, esta abertura total, que Paulo chama de morrer com Cristo, resulta em ressuscitar e viver com Cristo (Rm 6,8).

Quem der um copo de água fresca … não ficará sem recompensa (Mt 10,42). O modelo será sempre Jesus: “Acolhei-vos como Cristo vos acolheu” (Rm 15,7). É impossível ser cristão de nome e de fato, se tivermos uma religião excludente. A exclusão não se reduz a um mero suportar, mas criar medidas de acolhimento na comunidade. Criamos o esquema que nos é cômodo. Vejamos as dificuldades as pessoas humildes têm para receber o batismo, a primeira comunhão, a crisma etc… E depois reclamamos das seitas que crescem. Certas estruturas de Igreja destroem, pior quanto se vendem.

Acolhimento universal

Evangelização não é dar doutrinas e criar estruturas. Também, mas não em primeiro lugar. O Concílio Vaticano II manda que a Igreja deve se encarnar como Jesus (AG 10) que assumiu as condições culturais e sociais de seu povo. Deve assumir o admirável intercâmbio, recebendo das culturas tudo o que for bom para confessar a glória de Criador e ordenar a vida cristã (AG 22).

No mundo atual há necessidade de acolhimento. Vemos as migrações internas e s as imigrações. É preciso acolher sem distinção de cor, raça, sexo, religião, idade, personalidade, opinião, diversidade política, social, educação, evangelizando pelo testemunho de vida, depois pela palavra. É preciso também promover o dom das pessoas. A Igreja necessita examinar-se sobre sua evangelização. Quem sabe somos culpados pela falta de fé da sociedade por transmitir uma cultura e não anunciar o Evangelho como Jesus o fez. A Eucaristia é o lugar do primeiro acolhimento.

Para reflexão:

1. Jesus é o exemplo do acolhimento. Esta virtude era importante para os primeiros cristãos. No tempo de Jesus havia leis que impunham a discriminação. Estranhavam que Jesus se misturasse com os “impuros”. Esta virtude nasce do amor que há na Trindade e a faz Unidade. Por isso Jesus foi revolucionário, como por exemplo no caso da vocação de Mateus.

2. Para acolher os outros, é preciso acolher Jesus e ser como Ele foi. Paulo chama essa abertura de morrer com Cristo, o que resulta em ressuscitar e viver com Cristo. É a vida da comunidade: “Acolhei-vos, como Cristo acolheu a vós”. Nossa fé não permite que façamos qualquer tipo de exclusão. Muitas estruturas atuais das comunidades excluem sobretudo os fracos e pecadores. É preciso ordem, mas a estrutura não está acima da necessidade das pessoas.

3. Evangelizar é acolher e depois ensinar. Deve ser como a Encarnação de Jesus que acolheu completamente a cultura, o povo e a situação. Nossa pastoral deve levar em conta a migração. A Igreja deve examinar-se como evangeliza.