"Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho unigênito..." 19/06/2011

Hoje celebramos a festa da Santíssima Trindade e, nesta perícope do evangelista - núcleo do discurso de Jesus a Nicodemos -, João reapresenta a encarnação salvífica de Jesus, já anunciada no Prólogo de seu evangelho. "E o Verbo se fez carne e veio morar entre nós e vimos a sua glória, que ele recebe do seu Pai como Filho único" (Jo 1,14). "Ele estava no mundo. A quantos, porém, o acolheram deu o poder de se tornarem filhos de Deus: são os que crêem no seu nome" (Jo 1,12).

Assim, temos aqui o anúncio fundamental que pregava o evangelho de João. Deus, no seu grande amor, enviou seu Filho ao mundo para comunicar a vida eterna a todos que nele crêem. O objeto do amor de Deus é o mundo. A palavra "mundo", principalmente nas cartas paulinas (1Co 2,12; 3,19; Ef 6,12) e no evangelho de João, significa a sociedade alienada de Deus pela dominação daqueles que são seduzidos pela ambição do dinheiro e do poder.

No evangelho de João o mundo está submisso ao príncipe das trevas. Não é necessário pensar em entidades demoníacas. Trata-se do poder da morte. São os poderosos, os governantes corruptos, ambiciosos deste mundo que semeiam a morte em vista de garantir e consolidar suas riquezas, seu poder econômico, militar, e ideológico, apelando para contra-valores seculares ou religiosos.

Este "mundo" tem uma estrutura que se opõe a Deus, mas Deus vem, com amor, para transformar e libertar este mundo. O mundo é criação de Deus e Deus dá seu Filho único ao mundo para elevá-lo à plenitude da paz e da vida eterna. O Filho é a "luz do mundo" (Jo 1,9; 3,19; 8,12; 9,5; 12,46), e Jesus dá a vida pelo mundo (Jo 6,33). "Deus amou tanto o mundo que deu seu filho único", enviando-o pela sua concepção no ventre de Maria, na encarnação.

Jesus, o novo Adão, já é a realidade da nova humanidade: é o homem que, na condição de filho de Deus, já é divino e eterno. O fruto do amor não é a condenação, mas a libertação de toda opressão, que é realizada por Deus com o dom gratuito da vida eterna, e alcançada pela fé.

Jesus, a luz do mundo, vem como dom e prova do amor de Deus. Sua glória, que é a glória do Pai é a comunicação deste amor. Deus que "dá" seu Filho ao mundo para que o mundo seja salvo, foi entendido dentro das categorias do judaísmo, como oferta sacrifical. Jesus seria sacrificado na cruz nos moldes dos cordeiros no altar do Templo de Jerusalém ou como Isaac que é levado ao sacrifício por seu pai Abraão.
Terrível compreensão! Deus é amor! Deus envia seu Filho Jesus não para julgar e condenar, mas como portador do amor divino, no Espírito Santo, para comunicar a vida aos homens e mulheres. É um renascer para a eternidade, é a ressurreição.

"Deus enviou seu Filho ao mundo, não para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele". A salvação, na tradição de Israel, é compreendida como sendo o resgate do castigo e da condenação dos ímpios pecadores, um povo de "cabeça dura", sob o ponto de vista das elites religiosas, conforme se percebe na primeira leitura.

Com Jesus esta idéia de salvação vai sendo didaticamente substituída pela idéia da libertação da opressão que impera no mundo e o anúncio do dom da vida eterna.
O estar julgado ou não estar julgado é substituído pelas atitudes de não crer ou crer em Jesus, Filho único de Deus. Quem crer em Jesus não será julgado porque se libertou e recebe o dom da vida eterna. Quem não crer é julgado por permanecer conivente com as estruturas de poder deste mundo, distanciando-se deste dom.

Os discípulos eram do mundo, mas foram libertados de seu poder e de sua ideologia, perniciosa e maléfica, pela adesão ao projeto de Jesus. Eles são a semente da libertação do mundo. O crer é a porta para a vida eterna. Crer no nome do Filho é seguir Jesus. É ser portador da misericórdia e da vida ao mundo. É testemunhar e viver o amor na comunidade. É desvelar a presença do amor de Deus no mundo.

Prof. Diácono Miguel A. Teodoro
(http://www.teologiafeevida.com.br/)

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