"Toda autoridade me foi dada, no Céu e na Terra" 05/06/2011

Exaltação e Senhorio de Cristo

Quarenta dias depois da Páscoa, a Igreja celebra a Ascensão de N. Senhor. Na realidade, o que se celebra hoje é bem mais do que uma aparição na qual Jesus é elevado ao céu. É toda a realidade de sua glorificação que celebramos, aquilo que a cristologia das origens chamou o “estar sentado à direita do Pai”. Assim, a última aparição
de Jesus aos apóstolos aponta para uma realidade que ultrapassa o quadro da narração. Por isso, não precisamos preocupar-nos em harmonizar o relato de Lucas em At 1,1-11 (1ª leitura) com aquele de Mt 28, 16-20 (evangelho) – aquele, situado na região de Jerusalém, este, na Galiléia.

Podem ser dois acontecimentos diferentes. O importanteé que tenham o mesmo sentido: Jesus, depois de sua ressurreição, não veio para retomar sua atividade de antes (cf. sua advertência a Maria Madalena em Jo 20, 17), nem para implantar um reino político de Deus no mundo, como muitos achavam que ele deveria ter feito (cf. At 1,6). Não. Jesus realiza-se agora numa outra dimensão, a dimensão de sua glória, de seu senhorio transcendente.

A atividade aqui na terra, ele a deixa para nós (“Sede as minhas testemunhas... até os confins da terra”; At 1,8), e nós é que devemos reiventá-la a cada momento. Na ressurreição, Jesus volta a nós, não mais “carnal”, mas em condição gloriosa, para nos animar com seu Espírito (At 1,8; Mt 16,20; cf. Jô 14,15-20, evangelho de dom. pass.)

Assim, ao celebrarmos a entrada de Jesus na glória, não celebramos uma despedida, mas um novo modo de presença; celebramos que ele é, realmente, o Emanuel, o Deus-conosco, para sempre (Mt 28,20, evangelho, cf Mt 1,23). Por isso, esse novo modo de presença é um aperitivo da realidade final: assim como ele entra na sua glória, isto é, como Senhor glorioso, assim ele voltará, para concluir o curso da História (At 1,11). Pouco importa como a gente imagina isso, o sentido é que, desde já, Jesus é o Senhor do Universo e da História (Salmo responsorial, Sl 47 [46]) e que nós, obedientes a sua palavra, colaboramos com o sentido definitivo que ele estabelece e há de julgar.

Como a encarnação e a Morte/Ressurreição, também a Glorificação de Cristo deve ser entendida como um “mistério”, isto é, uma realidade transcedente (às nossas categorias empíricas), da qual a celebração religiosa nos faz participar. Celebrando a Glorificação do Cristo, tomamos consciência de nossa própria vocação à glória, como exprime a Carta aos Efésios (que, com razão, pode ser considerada como sendo o exemplo por excelência de teologia “misterial” dentro do N.T.; 2ª leitura). Também a oração do dia fala neste sentido (cf. os prefácios próprios I e II).

Uma idéia que permeia a liturgia deste dia (como de todo o tempo pascal), e que se exprime na oração sobre as oferendas e na oração final, é que o cristão deve viver com a mente no Céu, comungando na realidade da glorificação do Cristo. Essa participação é um novo modo de presença junto ao mundo, não uma alienação, mas antes, o exercício do senhorio escatológico sobre este mundo. Viver com a mente junto ao Senhor glorioso não nos dispensa de estar com os dois pés no chão; significa encarnar, neste chão, aquele sentido da História e da existência que em Cristo foi coroado de glória.

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
(http://www.franciscanos.org.br/)

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