Multiplicar ou Enterrar os TALENTOS? Mt 25,14-30 - 13/11/2011

Neste domingo, a liturgia toda converge na perspectiva escatológica.

A oração do dia fala da felicidade completa (a “paz” do canto da entrada), que é o fruto do serviço dedicado ao Senhor (cf. oração sobre as oferendas).

Disso fala a parábola dos talentos (evangelho), mais conhecida que compreendida. Convém interpretá-la bem. Seu lugar, no fim do evangelho de Mt e do ano litúrgico, orienta a interpretação: exprime o critério final de nossa vida.

Portanto, o acento principal não está na diversidade dos talentos, dos dons, mas no valor decisivo do serviço empenhado (*).

A 1ª leitura cita o “talento feminino” como exemplo, mas deve ser situada na intenção escatológica do conjunto da liturgia.

O assunto não é a diversidade dos carismas (em Lc 19,12-17, os servos recebem todos a mesma soma), e sim, o investimento diligente em vista do fim.

Para a volta do Senhor (a Parusia), para a participação definitiva no seu senhorio, deveremos prestar contas daquilo que tivermos recebido, no sentido de tê-lo utilizado e não escondido. É como a luz que não deve ser colocada debaixo do alqueire (Mi 5,1 4s); e a advertência concomitante: com a medida com que medirdes, sereis servidos. Em outros termos: o que recebemos deve frutificar em nós. O mesmo significado tem a parábola dos talentos, que usa como imagem a prática administrativa e comercial: quando se confia dinheiro a alguém, se ele for um homem diligente, ele o fará render.

Tal diligência cabe no Reino de Deus (cf. a diligência como tema central da parábola das dez virgens, imediatamente anterior).

A mensagem central é, portanto, a diligência. Deus nos confiou um tesouro, e devemos diligentemente aplicá-lo na perspectiva do sentido último e final de nossa existência, que é: Deus mesmo (a participação no senhorio de Cristo, quando da Parusia, significa a nossa exaltação, integração na existência divina).

Aplicando com diligência e conforme a vontade de Deus o que recebemos, realizamos desde já uma existência escatológica, divina. Tomar nossa a causa (o “interesse”) de Deus, eis a mensagem de hoje. A diligência da “mulher virtuosa”, na 1ª leitura, ilustra essa mensagem. Ser mulher cem por cento, explorando as ricas possibilidades da feminilidade, é viver a presença decisiva de Deus.

A 2ª leitura aponta na mesma direção. É um dos raros textos em que Paulo cita palavras da tradição evangélica (“O Dia do Senhor vem como um ladrão de noite”, cf. Mt 24,35.43 e par.; a repentina destruição, cf. Lc 21,34s; a comparação com as dores do parto, cf. Mt 24,8 e par.). Paulo descreve aqui a existência completamente iluminada pela proximidade do Senhor.

Novamente observamos que a iminência do último dia é descrita muito mais em termos de luz do que de ameaça (embora estes também ocorram).

Existência escatológica (viver hoje o “Dia do Senhor”) é deixar-se iluminar pelo Cristo que vem. Esta era também a mensagem dos primeiros domingos do ano litúrgico, que antecipavam a perspectiva final. Por isso, lembramo-nos de que Deus, em última análise, pensa em paz para nós (canto da entrada).


(*) Um talento é 30 kg de ouro. Mt gosta de números exagerados, cf. 24º Domingo T.C.

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
http://www.franciscanos.org.br/

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