"Levanta-te e anda" - Mc 2, 1-12 - 19/02/2012

No evangelho de hoje presenciamos um típico “sinal” de Jesus, e este sinal nos faz também entender o sentido dos outros sinais dele. A história do paralítico poderia ser uma “simples” cura de um homem que foi baixado pelo teto diante dos pés de Jesus, porque havia tanta gente que não existia outro jeito. Mas, onde a gente esperava uma cura, Jesus perdoa. O que nem foi pedido. Também não poderia ter sido pedido, pois, para perdoar, é preciso uma “autoridade”especial e esta, só Deus a tem (cf. 1ª leitura). Por isso, “as autoridades” acusam Jesus de blasfêmia. Mas, na verdade, não é uma blasfêmia, senão a revelação da verdadeira missão de Jesus, que transparecia na “autoridade” que o povo observou nele (cf. 1,22): “Para que vejais que o Filho do Homem tem autoridade na terra…”.

Todos os termos são importantes: “Filho do Homem”: a figura celestial de Dn 7, a quem é dada a “autoridade”(exousia), porém, não lá no céu, mas aqui “na terra”, portanto, na execução da intervenção escatológica de Deus. É a hora do Juízo, aqui na terra. Mas este Juízo não serve para destruir os impérios, como em Dn 7, mas para perdoar e restaurar, pois Deus não quer a morte; pelo contrário como Pai e criador, renova a vida. E o sinal que deixa transparecer este sentido último é o seguinte: “Para que vejais que tenho esta autoridade (e agora fala ao paralítico): Levanta-te, toma tua cama e anda”. Não convém perguntar se o homem era pecador (quem é justo diante de Deus?), o importante é que ele é destinatário e ocasião de uma revelação do amor criador do Pai em Jesus, exercendo o poder do Filho do Homem de um modo inesperado, aqui na terra. “Jamais vimos tal coisa”, exclama o povo. Jesus se revela como plenipotenciário de Deus. Mas não apenas isso.

Revela também uma dimensão do Juízo de Deus que facilmente era esquecida naquele tempo de esperança apocalíptica. Esperava-se vingança, condenação, fogo. Mas Deus tem outros meios para sanar a situação de desespero. Aí, Deus resolveu jogar longe de si o pecado com o qual o povo o cansara (em vez de o povo se cansar em procurar Deus!) (Is 43,22-25; 1ª leitura).

Este é o Juízo do qual Deus sai vencedor (43,26): ele perdoa! Deus queria trazer Israel de volta à sua terra; mas isto não serviria para nada, se o povo, primeiro, não “voltasse” (se convertesse) interiormente. Precisava de perdão, como de uma nova criação. Entendemos, assim, melhor a “autoridade” escatológica que se manifesta em Jesus, o Filho do Homem. Certo, é um poder judicial, mas este é apenas uma explicitação do poder criacional. Pois o último juízo é, em última análise, uma nova criação: “Eis que faço tudo novo” (Ap 21,5).

Ora, o comportamento verdadeiramente divino para com a criatura não é destruí-la, mas reconstruí-la e recriá-la; não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (Ez 18,23). Por isso, o Filho do Homem não vem destruir, mas perdoar. A “autoridade”que ele recebeu de Deus é marcada por aquela outra qualidade de Deus, que é mais característica: a “misericórdia” (cf. Mc 1,41;6,34 etc). A 2ª leitura é do início da 2Cor. Paulo se defende da acusação de inconstância. Paulo deve explicar por que lhes prometeu uma visita e não a realizou. A razão não é inconstância.

O “sim” de Deus é “sim” mesmo, e igualmente deve ser também o “sim” do apóstolo, cuja atuação deve ilustrar o conteúdo de sua pregação. A razão é que Paulo não quis visitar os coríntios com o coração magoado por causa das polêmicas, que alguém lá estava conduzindo contra ele. Portanto, o adiamento da visita confirmava o “sim” do carinho de seu coração. Este era constante. Paulo atribui sua firmeza a Deus, que nos sela com o Espírito. Sua firmeza é dom divino, não mérito humano. É graça. Num tempo de inconstância, provocada por uma cultura de consumo e alta rotatividade, convém pedir a Deus o dom da firmeza. Firmeza como instrumento de amor, para poder amar e servir de modo coerente. Firmeza também como fortaleza permanente na resistência à injustiça, sobretudo quando ela se aninha firmemente na própria estrutura da sociedade.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
http://www.franciscanos.org.br/

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