Quarta feira de CINZAS

CONVERTEI-VOS E CREDE NO EVANGELHO! (Liturgia da Quarta-feira de Cinzas – Tempo da Quaresma) O tempo da Quaresma, que se inicia hoje, é uma ótima ocasião para reaquecer a nossa vida com o fogo do amor de Deus: “Hoje não endureçais o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor!” (Sl 94,8), convida o salmista da liturgia desta quarta feira de cinzas.

O primeiro dia desse tempo começa logo a “quebrar o gelo” do nosso coração. O ponto de partida é o mesmo amor de Deus, tão misericordioso a ponto de esquecer os pecados, inclusive os mais graves, para o bem do pecador que se converte. O Senhor Deus que criou tudo, ama tudo, não despreza nada e a todos dá a possibilidade do arrependimento. Somos convidados neste início de quaresma a derramar um pouco de cinzas sobre a cabeça começando, assim, um itinerário com este gesto importante que assinala o ponto de partida de cada fiel que busca converter-se e crer no Evangelho, abrindo-se ao serviço a Deus e ao próximo.

As nossas mesas deveriam tornar-se mais simples, para que o jejum nos ajudasse a ter fome e sede de Deus. As nossas mãos deveriam abrir-se muito mais para se estenderem na direção das necessidades do próximo. Só assim podemos “enfrentar vitoriosamente com as armas da penitencia, o combate contra o espírito do mal”. Quaresma quer dizer, portanto, luta na esperança de uma vitória. E a luz da Palavra de Deus nos oferece os meios para esta luta. Bastaria reler e meditar bem o Evangelho de hoje que nos convida a mergulhar nesse olhar do Pai que vê o que está oculto, para alegrar-nos com o Seu amor, enquanto procuramos ser “mais brancos do que a neve”!

Temos consciência dessa necessidade, pois no dia a dia experimentamos a fragilidade e a discrepância entre o desejo da santidade e a nossa vida concreta. Somos feitos de bons propósitos, renúncias, alguns atos de caridade, mas às vezes, constatamos que nada muda! Talvez, devêssemos começar a mudar a nossa maneira de pensar. Talvez, devêssemos crer verdadeiramente, e pode ser este o tempo propício para isso. Ao viver intensamente este tempo propício para a conversão e ao celebrá-lo intensamente escutando a Palavra de Deus com atenção e docilidade, certamente, experimentaremos um dom imenso da Sua parte.

Ele vê o nosso coração, sabe que está se purificando e nos dá a oportunidade necessária para colocar em ordem a nossa vida. Nestes quarenta dias Deus é o primeiro a caminhar ao nosso encontro, no deserto da nossa vida, com a Sua Aliança e a Sua amizade. O deserto para Israel não foi um lugar fácil. O tempo dos quarenta anos significou viver sob uma tenda, sem morada fixa, na total falta de segurança. Muitas vezes foi tomado pela tentação de retornar à escravidão do Egito onde, pelo menos, o alimento era assegurado, mesmo que fosse comida de escravos.

Na precariedade do deserto foi o próprio Deus que providenciou água e alimento para o Seu povo, defendendo-o dos perigos. Assim, a experiência da dependência total de Deus tornou-se para os Hebreus um caminho de libertação da escravidão para servir a Ele e ao próximo. O período quaresmal nos impulsiona a percorrer espiritualmente o mesmo itinerário, exortando-nos àquela conversão que nos permitirá chegar purificados ao dia da Páscoa, ao coração do mistério cristão, da qual somos chamados a ser no mundo testemunhas alegres, como fiéis que professam com convicção a ressurreição e a vida eterna, alegres anunciadores do Paraíso; mesmo que experimentemos, muitas vezes, a incapacidade de proclamar o Evangelho com a própria vida.

Neste tempo de conversão, é necessário, mais do que nunca, como revisão de vida e superação da mediocridade, na consciência de que não cabem mais em nossas vidas, gestos superficiais, teatrais e sensacionalistas. Não é tempo de rasgar as vestes. Deixemos aos fariseus esse gesto ritual que exprime indignação. No nosso caso, pelo contrário, precisamos rasgar o coração: “Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes”, exorta o profeta Joel.

A conversão deve, portanto, partir do íntimo do coração humano, pois, como disse Jesus, “É do coração humano que provém os propósitos maus, os homicídios, os adultérios, as prostituições, os furtos, os falsos testemunhos, as blasfêmias” (Mt 15,19). Essa mudança profunda das atitudes mais íntimas, isto é, a conversão, é uma ocasião de arrependimento para ir do amor a si mesmo ao amor de Deus. Uma passagem, portanto, necessária do “eu” a “Deus”! É já mesmo antes da Páscoa e em preparação para celebrá-la, uma passagem pascal que se dá na própria dinâmica da conversão. Converter-se significa admitir humildemente que temos muitos erros; significa penitenciar-se por causa das más escolhas feitas, repetindo as palavras do rei Davi: “Reconheço toda a minha iniquidade, o meu pecado está sempre à minha frente, foi contra vós que eu pequei e pratiquei o que é mau aos vossos olhos” (Sl 50, 5). Converter-se significa seguir o exemplo do filho Pródigo, que oprimido pela fome “caiu em si” (Lc 15,17), abandonando o caminho do pecado, para voltar aos braços do Pai.

Deus espera a nossa volta sempre! O próprio Jesus nos ensina como empregar este tempo de preparação para a Páscoa, sugerindo o que se deve evitar e o que se deve fazer: “Guardai de praticar as vossas boas obras diante dos homens”! Bem sabemos que o estilo do mundo é um estilo de aparências; aparências descaradamente vazias, no jogo do engano dos expedientes mesquinhos, vazios e ridículos. O tempo de conversão tem, ao contrário, necessidade da solidez das coisas, segundo o princípio da vida espiritual, para o qual nada tem valor, nada conta quando feito só para parecer e aparecer. Como Deus disse ao profeta Samuel, “Eu não vejo como o homem vê.

O homem vê a aparência, o Senhor vê o coração” (1 Sam 16,7). Se o que buscamos é a aprovação dos homens, demonstramos não ser inteligentes, porque a sua aprovação, mesmo que nos agrade, nunca poderá nos dar aquilo que não temos. É bom lembrar o que nos diz sobre isso o Apóstolo Paulo: “Pois busco eu agora o favor dos homens ou o favor de Deus? Ou procuro agradar aos homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servidor de Cristo” (Gl 1,10). Quanto ao que diz respeito aos compromissos que devem caracterizar o nosso caminho quaresmal, o Senhor se detém em três pontos da prática religiosa, cara à tradição de Israel: a esmola, a oração e o jejum, apresentando-os como um convite urgente, persuasivo e ao mesmo tempo, pessoal e delicado. “Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; quando rezardes, entra no teu quarto, quando jejuardes, perfuma a cabeça e lava o rosto e o teu Pai que vê o que está escondido em segredo, te dará a recompensa”! Com estes três grandes exemplos o Senhor nos ensina o caminho da interioridade e do primado de Deus sobre a vida.

Iniciemos, particularmente, este período com a observância do jejum, de uma maneira séria e comprometida, de fato, olhando ao nosso redor para ver os mais necessitados que nos estendem as mãos.

O ensinamento do grande São Pedro Crisólogo pode nos ajudar nesse sentido: “Jejuando, portanto, irmãos, coloquemos o nosso alimento na mão do pobre; (...). A mão do pobre é o banco de Cristo, porque Cristo acolhe tudo aquilo que o pobre recebe. Dá, portanto, ó homem, a terra ao pobre, para ter o céu; dá o dinheiro, para ter o Reino; dá uma migalha, para ter o tudo” (São Pedro Crisólogo, Sermões, 8, 4). Meus irmãos e irmãs desejo uma boa e frutífera quaresma. Demos espaço a Deus, demos-Lhe o nosso tempo. Ele não fará outra coisa senão, encher-nos de alegria, a verdadeira alegria de quem se converte e crê no Evangelho! (Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA – Superior dos Missionários Inacianos – formador@inacianos.org.br – Website: www.inacianos.org.br).

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