O milagre da partilha - Jo 6,1-15 - 29/07/2012

No evangelho de João, na narrativa da última ceia de Jesus em Jerusalém, não há menção à partilha eucarística do pão. A grande ação de Jesus nesta ceia é o lavar os pés dos discípulos, como exemplo de serviço para eles (cf. 5 abr.).

Este gesto de partilha se realiza neste momento de encontro com a grande multidão no alto da montanha e tem um caráter universalista, pois aí estavam presentes gentios da Galileia e de territórios vizinhos.

Foi no alto de uma montanha que Deus deu os dez mandamentos a Moisés. Agora é o novo mandamento de Jesus, ou seja: o mandamento da partilha e do amor. O personagem central é um menino, um jovem escravo que trazia consigo com cinco pães de cevada e dois peixes. Jesus dá graças pela partilha, e ela acontece a partir dos mais humildes.

Somos convidados a viver a eucaristia como partilha concreta do pão e da vida. Nesta narrativa é destacada, logo de início, a grande multidão de excluídos que segue Jesus e que merece sua atenção. Vemos aí, também, uma contraposição entre este encontro de Jesus com a multidão e "a Páscoa, a festa dos Judeus".

Nesta Páscoa celebrava-se a passagem da escravidão para a liberdade, ou seja: a saída do povo de Israel do Egito que, liderados por Moisés, iriam repousar aos pés do Monte Sinai, onde receberiam as tábuas da Lei da vida. De acordo com o evangelista João, no alto daquela montanha, Jesus, através da partilha que alimenta milhares de pessoas, revela o Deus da vida e do amor. Sempre no meio da multidão, Jesus comunica a vida.

A expressão "festa dos judeus" aparece cinco vezes no evangelho de João, ao referir-se às festas religiosas celebradas em Jerusalém, nas quais Jesus se fez presente. Com esta expressão João quer indicar que Jesus não se identifica com estas festas, mas vai a Jerusalém para criticar o sistema do Templo e para fazer seu anúncio da vontade do Pai ao povo que para aí acorre.

Agora, no alto da montanha, o povo participa da verdadeira festa que é o banquete do Reino, caracterizado pela partilha, pelo amor e pela fraternidade. O evangelho de João apresenta sete sinais de Jesus, que correspondem aos milagres, nos sinóticos. São sinais da realidade maior que é a presença do Deus de amor no mundo e na história. Esta cena da partilha dos pães é o quarto sinal.

Os evangelistas sinóticos, Marcos, Mateus e Lucas, também narram esta partilha dos pães. Suas narrativas foram colhidas da tradição das primeiras comunidades cristãs que se inspiravam na narrativa da partilha do pão feita pelo profeta Eliseu, conforme nos ensina a primeira leitura.

A solução do problema da fome e das carências humanas não está ancorada numa política econômica paternalista que se resume em “Bolsas”, mas na partilha da renda justa, de empregos, educação, moradia, transporte, saneamento básico, saúde, ética, transparência, honestidade, temor a Deus, solidariedade, fraternidade e da justiça que faz com que todos os seres humanos sejam realmente iguais; e, não numa economia de mercado que gera a ganância e a avidez pelo lucro.

A solução de todos os problemas da humanidade foi apresentada, por Jesus, há dois mil anos atrás, pois ele ensinou que é pela partilha dos bens deste mundo, do pão, da terra, da cultura, que se pode satisfazer a todos e ainda há de sobrar em abundância.

É pela partilha que se chega à unidade desejada por Deus, superando-se a divisão entre ricos e pobres, formando-se um só corpo e um só Espírito, no vínculo da Paz, conforme nos fala Paulo, na segunda leitura.

Portanto, se ainda podemos testemunhar, na realidade em que vivemos, tantas situações de morte, isto significa que a Doutrina do Mestre Jesus ainda não atingiu os corações dos homens, particularmente daqueles que detém o poder, daqueles que governam em todas as instâncias do Poder Público.

Oração

Pai, que os ensinamentos de Jesus renove em mim a consciência de saber partilhar, pois é pela partilha que reconhecemos a Jesus, o Cristo, segunda pessoa da Santíssima Trindade. Perdoa-me, ó Pai, se ainda não aprendi a partilhar e viver na comunhão, na qual Jesus se oferece a todos indistintamente.

Prof. Diácono Miguel A. Teodoro

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