"... é bom estarmos aqui..." Lc 9,28b-36 - 24/02/2013

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elementos catequéticos para o povo Mafa, que vive em Camarões e é isolado culturamente

Já chegamos à segunda etapa de nossa subida à festa pascal. A 1a leitura nos apresenta a fé com a qual Abraão recebe a promessa de Deus e assim é considerado justo por Deus. Mas o tema que retém nossa atenção está no evangelho de hoje: a visão da fé que descobre o brilho divino no rosto de Jesus.

No evangelho, Lucas nos conta como Jesus foi orar no monte, levando consigo Pedro, Tiago e João, e de repente ficou transfigurado diante dos seus olhos. Apareceu-lhes envolto de glória, acompanhado por Moisés (a Lei) e Elias (os Profetas). Falavam com ele sobre seu “êxodo” em Jerusalém, onde iria enfrentar a condenação e a morte.

No momento em que despontava o conflito mortal, Deus mostrou aos discípulos a face invisível de Jesus, seu aspecto glorioso.

Na 2a leitura, Paulo anuncia que Cristo nos há de transfigurar conforme a sua existência gloriosa. Todos nós somos chamados a sermos filhos de Deus. Nosso destino verdadeiro é a glória que Deus nos quer dar. Ora, para chegar lá, devemos – como Jesus – iniciar nosso “êxodo”, nossa caminhada da fé e do amor fraterno, comprometido com a prática da transformação. Isso nos pode levar a galgar o Calvário, como aconteceu a Jesus.

O caminho é árduo, e as nossas forças parecem insuficientes. Às vezes parece que não existe perspectiva de mudança. Uma sociedade mais justa e mais fraterna parece sempre mais inalcançável. Mas assim como os discípulos de Jesus, pela sua transfiguração no monte, puderam entrever a glória no fim da caminhada, assim sabemos nós que a caminhada da cruz é a caminhada da glória.

Antes de ser desfigurado no Gólgota, o verdadeiro rosto de Cristo foi transfigurado. Revelou, no monte Tabor, seu brilho divino. Para a fé, os rostos dos nossos irmãos latino-americanos, explorados e pisoteados, brilham como rostos de filhos de Deus. Apesar da desfiguração produzida pela miséria, desigualdade, exclusão, o brilho divino está aí.

Se nós precisamos realizar uma mudança política, econômica e cultural, a mudança radical é a que Deus opera quando torna filho seu aquele que nem figura humana tem. A consciência disto é que nos vai tornar mais irmãos e, daí, mais empenhados em criar uma sociedade digna da glória de Deus que habita em nossos irmãos excluídos.

Na Campanha da Fraternidade descobriremos isso. Contemplando a glória de Cristo no rosto do irmão procuraremos caminhos para pôr fim à deformação que nossa sociedade imprimiu a esse rosto, não apenas pela opressão, como também por uma cultura da ilusão e da irresponsabilidade. Por isso, enfrentamos esta caminhada de modo bem concreto, assumindo o sofrimento dos nossos irmãos pisados e oprimidos, participando das lutas materiais, políticas, culturais, e comprovando assim a seriedade de nosso amor fraterno.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
www.franciscanos.org.br

ORAÇÃO DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2013

 


Tema: Fraternidade e Juventude
Lema: "Eis-me aqui, envia-me" (Is 6,8)

Pai santo, vosso Filho Jesus,
conduzido pelo Espírito
e obediente à vossa vontade,
aceitou a cruz como prova de amor à humanidade.

Convertei-nos e, nos desafios deste mundo,
tornai-nos missionários
a serviço da juventude.

Para anunciar o Evangelho como projeto de vida,
enviai-nos, Senhor;
para ser presença geradora de fraternidade,
enviai-nos, Senhor;
para ser profetas em tempo de mudança,
enviai-nos, Senhor;
para promover a sociedade da não violência,
enviai-nos, Senhor;
para salvar a quem perdeu a esperança,
enviai-nos, Senhor;
para ... (intenções da comunidade)

As Tentações de Jesus - 17/02/2013 - Lc 4, 1 – 13

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1. TENTAÇÕES. Lucas apresenta as tentações de Jesus. Elas são uma síntese das tentações que ele sofreu ao longo de sua prática libertadora. Lucas quer mostrar que Jesus é humano como qualquer pessoa e, enquanto ser humano, vem de Deus. Por isso, as tentações por ele sofridas são as mesmas que nós enfrentamos no esforço de atuar o projeto divino.
2. Superando as tentações, Jesus inicia sua atividade e apresenta seu programa libertador (4,16-19). Como irá ele atuar esse programa? Nesse sentido, as tentações são propostas que ele rejeitou, porque por meio delas é impossível libertar os oprimidos.

3. NO DESERTO. As tentações de Jesus acontecem no deserto, para onde é conduzido pelo Espírito. O deserto lembra o tempo de gestação do projeto de Deus para o povo do A.T. Foi lá que os hebreus forjaram, – a duras penas, – um projeto de sociedade alternativa, em que todos pudessem usufruir da vida em liberdade, sem traços nem sinais da opressão vivida no Egito.

4. O NUMERO 40. Lucas salienta que Jesus foi tentado durante quarenta dias. Esse número é simbólico.
4.1. Lembra o tempo em que Moisés ficou na montanha (Ex 34,28), sem comer nem beber, a fim de escrever, – na intimidade com Deus, – o contrato da aliança para a nova sociedade.
4.2. Lembra também o tempo em que Elias permaneceu no monte Horeb, depois do qual desceu para transformar completamente a sociedade do ponto de vista político e religioso (cf. 1Rs 19,8).
4.3. Lembra, ainda, os quarenta anos de Israel no deserto, com suas tentações de voltar ao Egito, mesmo que fosse para viver como escravo, desde que de barriga cheia.

5. Veremos: a. 1ª. tentação: ser o messias da abundância – vv. 3-4
b. 2ª. tentação: ser o messias do poder – vv. 5-8
c. 3ª. tentação: ser o messias do prestígio – vv. 9-12

a. 1ª. tentação: ser o messias da abundância – vv. 3-4


6. O PROJETO DO DIABO. O diabo é aquele que tem um projeto capaz de perverter o projeto de Deus e de Jesus. Pode ser uma instituição, um pro-jeto, um tipo de sociedade, um partido político, etc. A proposta que ele faz é que Jesus liberte os oprimidos mediante um passe de mágica, utilizando Deus em benefício próprio: “se és Filho de Deus, manda que esta pedra se torne pão” (v.3).
6.1. O DEUS DA PROSPERIDADE FÁCIL. Ele quer um Deus que seja garantia de prosperidade, um deus de palanque. O diabo tenta Jesus num ponto crucial: a fome. Como resolver o problema da falta de pão? Pensando somente em si, na própria fome?

7. O PROJETO DE JESUS: A PARTILHA. Jesus recusa ser o messias da abundância porque o projeto de Deus vai além de promessas eleitoreiras. “Não só de pão vive o homem!” (v. 4; cf. Dt 8,3).
7.1. O texto do Deuteronômio fala do tempo em que o povo vivia no deserto e se contentava em viver assim desde que tivesse pão para comer.
7.1. A PARTILHA . A palavra de Javé, porém, tinha objetivos mais amplos: conduzir todo o povo à plena posse da vida e da dignidade. Jesus recusa-se a ser o messias da abundância para si, pois sua proposta é a partilha (11,41) e pão para todos (9, 12-17).

b. 2ª. tentação: ser o messias do poder – vv. 5-8

8. O PODER . O diabo volta à carga, tentando desta vez perverter o projeto de Deus mediante a usurpação do poder. A proposta é que ele liberte os oprimidos através do poder: “eu te darei todo o poder e a riqueza destes reinos, porque tudo isso foi entregue a mim, e posso dá-lo a quem eu quiser. Portanto, se te prostrares diante de mim, tudo isto será teu”. (vv.6-7).

9. Os adversários de Jesus diziam que ele expulsava demônios por ordem de Belzebu, o príncipe dos demônios (cf. Lc 11, 14-22). Jesus é tentado a resolver o problema dos oprimidos tornando-se chefe político de estruturas injustas. Como poderá libertá-los tornando-se dono das vidas e controlando a liberdade das pessoas?

10. O messias do poder. Jesus se recusa ser o messias do poder: “a Escritura diz: adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás!” (v.8; cf. Dt 6,13). A citação completa desse versículo do Deuteronômio (Dt 6,13: “É a Javé teu Deus que temerás. A ele servirás e pelo seu nome jurarás”) mostra claramente que se absolutizar no poder é repetir a ação opressora do Faraó. Jesus tem outros projetos mediante os quais libertará os oprimidos. Em Lucas, uma de suas principais características é o serviço (cf. 22,27: “eu estou no meio de vocês como quem está servindo).

c. 3ª. tentação: ser o messias do prestígio – vv. 9-12

11. Lucas inverteu propositalmente a ordem da segunda e terceira tentações, reservando para Jerusalém o arremate final, pois será nessa cidade que Jesus - ao longo de sua prática libertadora, – irá enfrentar a morte.

12. O diabo tenta Jesus para que abuse do poder de Deus, a fim de se livrar da morte. E desta vez utiliza um texto da Bíblia (Sl 91,11-12). Jesus é convidado a se precipitar do ponto mais alto do Templo de Jerusalém, para mostrar que Deus está do lado dele e que será capaz de libertá-lo da morte. Com essa demonstração comprovaria ser ele o Messias, pois, segundo a tradição, o pináculo do templo seria o lugar da manifestação do Messias.

13. JESUS RECUSA SER O MESSIAS DO PRESTÍGIO. Recusa, sobretudo, escapar da morte, pois o projeto de Deus, – que é libertação para os oprimidos, – passa pela morte de Jesus: “não tentarás o Senhor teu Deus” (v.12; cf. Dt 6,16). Ser messias do prestígio constitui idolatria.

14. O evangelho conclui dizendo que “tendo esgotadas todas as formas de tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para voltar no tempo oportuno” (v.13). O tempo oportuno é o final da prática libertadora de Jesus, onde vai enfrentar os chefes dos sacerdotes, doutores da lei e anciãos (cf. cap.20).
Estes personificam as tentações que Jesus venceu:
- creem que Deus lhes garante a prosperidade;
- acham que é o suporte político para as estruturas injustas que defendem e promovem;
- vivem envolvidos pela busca do prestígio.
Jesus vai enfrentá-los. É sua última tentação. Eles o matam. Mas a ressurreição é a prova de que o projeto do Pai é mais forte que as forças da morte.

Prof. Ângelo Vitório Zambon
Teólogo
Comissão Liturgia Arquidiocese de Campinas

Saiba mais sobre a Quaresma - II

Clique no link abaixo e acesse o material especial preparado para reflexão nesse tempo forte.
Diretamente do site dos Franciscanos.

Saiba mais sobre a Quaresma - I

Por que a Igreja utiliza a cor roxa nesse tempo?

Chama-se Quaresma os 40 dias de jejum e penitência que precedem à festa da Páscoa. Essa preparação existe desde o tempo dos Apóstolos, que limitaram sua duração a 40 dias , em memória do jejum de Jesus Cristo no deserto. Durante esse tempo a Igreja veste seus ministros com paramentos de cor roxa e suprime os cânticos de alegria: O "Glória", o "Aleluia" e o "Te Deum".

Na Quaresma, que começa na quarta-feira de cinzas e termina na quarta-feira da Semana Santa, os católicos realizam a preparação para a Páscoa. O período é reservado para a reflexão, a conversão espiritual. Ou seja, o católico deve se aproximar de Deus visando o crescimento espiritual. Nesse tempo santo, a Igreja católica propõe, por meio do Evangelho proclamado na quarta-feira de cinzas, três grandes linhas de ação: a oração, a penitência e a caridade.

Essencialmente, o período é um retiro espiritual voltado à reflexão, onde os cristãos se recolhem em oração e penitência para preparar o espírito para a acolhida do Cristo Vivo, Ressuscitado no Domingo de Páscoa.

Assim, retomando questões espirituais, simbolicamente o cristão está renascendo, como Cristo.

Por que a cor roxa?

A cor litúrgica deste tempo é o roxo que simboliza a penitênica e a contrição. Usa-se no tempo da Quaresma e do Advento.

Nesta época do ano, os campos se enfeitam de flores roxas e róseas das quaresmeiras. Antigamente, era costume cobrir também de roxo as imagens nas igrejas. Na nossa cultura, o roxo lembra tristeza e dor. Isto porque na Quaresma celebramos a Paixão de Cristo: na Via-Sacra contemplamos Jesus a caminho do Calvário

Qual o significado destes 40 dias?

Na Bíblia, o número quatro simboliza o universo material. Os zeros que o seguem significam o tempo de nossa vida na terra, suas provações e dificuldades. Portanto, a duração da Quaresma está baseada no símbolo deste número na Bíblia. Nela, é relatada as passagens dos quarenta dias do dilúvio, dos quarenta anos de peregrinação do povo judeu pelo deserto, dos quarenta dias de Moisés e de Elias na montanha, dos quarenta dias que Jesus passou no deserto antes de começar sua vida pública, dos 400 anos que durou a estada dos judeus no Egito, entre outras. Esses períodos vêm sempre antes de fatos importantes e se relacionam com a necessidade de ir criando um clima adequado e dirigindo o coração para algo que vai acontecer.

O Jejum

A igreja propõe o jejum principalmente como forma de sacrifício, mas também como uma maneira de educar-se, de ir percebendo que, o que o ser humano mais necessita é de Deus. Desta forma se justifica as demais abstinências, elas têm a mesma função. Oficialmente, o jejum deve ser feito pelos cristãos batizados, na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa.

Pela lei da igreja, o jejum é obrigatório nesses dois dias para pessoas entre 18 e 60 anos. Porém, podem ser substituídos por outros dias na medida da necessidade individual de cada fiel, e também praticados por crianças e idosos de acordo com suas disponibilidades.

O jejum, assim como todas as penitências, é visto pela igreja como uma forma de educação no sentido de se privar de algo e reverte-lo em serviços de amor, em práticas de caridade. Os sacrifícios, que podem ser escolhidos livremente, por exemplo: um jovem deixa de mascar chicletes por um mês, e o valor que gastaria nos doces é usado para o bem de alguém necessitado.

Qual é a relação entre Campanha da Fraternidade e a Quaresma?

A Campanha da Fraternidade é um instrumento para desenvolver o espírito quaresmal de conversão e renovação interior a partir da realização da ação comunitária, que para os católicos, é a verdadeira penitência que Deus quer em preparação da Páscoa. Ela ajuda na tarefa de colocar em prática a caridade e ajuda ao próximo. É um modo criativo de concretizar o exercício pastoral de conjunto, visando a transformação das injustiças sociais.

Desta forma, a Campanha da Fraternidade é maneira que a Igreja no Brasil celebra a quaresma em preparação à Páscoa. Ela dá ao tempo quaresmal uma dimensão histórica, humana, encarnada e principalmente comprometida com as questões específicas de nosso povo, como atividade essencial ligada à Páscoa do Senhor.

Quais são os rituais e tradições associados com este tempo?

As celebrações têm início no Domingo de Ramos, ele significa a entrada triunfal de Jesus, o começo da semana santa. Os ramos simbolizam a vida do Senhor, ou seja, Domingo de Ramos é entrar na Semana Santa para relembrar aquele momento.

Depois, celebra-se a Ceia do Senhor, realizada na quinta-feira Santa, conhecida também como o lava pés. Ela celebra Jesus criando a eucaristia, a entrega de Jesus e portanto, o resgate dos pecadores.

Depois, vem a missa da Sexta-feira da paixão, também conhecida como Sexta-feira Santa, que celebra a morte do Senhor, às 15h00. Na sexta à noite geralmente é feita uma procissão ou ainda a Via Sacra, que seria a repetição das 14 passagens da vida de Jesus.

No sábado à noite, o Sábado de Aleluia, é celebrada a Vigília Pascal, também conhecida como a Missa do Fogo. Nela o Círio Pascal é acesso, resultando as cinzas. O significado das cinzas é que do pó viemos e para o pó voltaremos, sinal de conversão e de que nada somos sem Deus. Um símbolo da renovação de um ciclo. Os rituais se encerram no Domingo, data da ressurreição de Cristo, com a Missa da Páscoa, que celebra o Cristo vivo.

CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

Pescadores de homens

Uma história de pesca e pregação, eis o evangelho de hoje. Fala primeiro de pregação, depois de pesca, e finalmente une os dois numa síntese um tanto inesperada. Jesus adapta-se ao cenário local. No meio dos pescadores, seu púlpito deve ser um barco de pesca, provavelmente do mais dinâmico entre os pescadores de Cafarnaum, um certo Simão. Ao terminar, Jesus lhe devolve o barco: ”Agora podes pescar” (Lc 5,4). Pedro deve ter pensado que de pesca Jesus pouco entendia – não era tempo bom: passaram a noite sem nada apanhar. Mas a autoridade de Jesus se impõe. ”Porque tu o dizes, lançarei mais uma vez as redes”.

Surpreendentemente, a pescaria deu um resultado digno de qualquer reunião de pescadores. As redes começando a rachar, tiveram de chamar outro barco para recolher a quantidade de peixes que apanharam.

A partir daí, muda o tom da narração. Simão reconhece uma presença misteriosa, numinosa. Como Isaías, ao sentir quase palpavelmente a presença de Deus no santuário (Is 6; 1ª leitura), assim também Simão se sente invadido por um sentimento de pequenez, impureza e indignidade diante do Mistério que ele vislumbra. “Afasta-te de mim, Senhor, eu sou um homem impuro”. Não mais impuro do que qualquer outro, mas diante de Deus todo ser humano é impuro.

A reação de Jesus é diferente da de Deus em Is 6. Não manda um anjo com uma brasa para purificar Simão, mas diz, com toda a simplicidade: “Não temas”. Ora, como em Isaías, aqui também a presença de Deus se faz sentir com determinada intenção, a vocação: “A partir de agora serás pescador de homens”. E, assim como Isaías respondeu: “Eis-me aqui, envia-me”, Simão se dispõe a assumir sua vocação, abandonando seu barco e seguindo Jesus, com João e Tiago, os filhos de Zebedeu.

Podemos ver, nesta narrativa, como são entrelaçados a vocação divina e os fundamentos humanos da mesma. Isaías é homem do templo: é lá que Deus o agarra. Simão é homem da pesca; é lá que Jesus o apanha. A vocação encarna-se na situação vital de cada um, porém, o arrasta daí para o caminho que Deus projetou. Dialética dos pressupostos humanos e da irrupção divina. Utiliza primeiro a situação da gente, o barco, depois, urge abandonar esse barco para engajar-se num caminho do qual não se conhecem as surpresas. Mas, no entremeio, há um sinal: a pesca. Ao entrar no mar para lançar mais uma vez as redes, Simão não sabia o que aconteceria.

A confiança em Jesus nas coisas do dia-a-dia nos prepara para assumir a vocação do desconhecido.
Também Paulo viveu uma irrupção de Deus em sua história: o Cristo glorioso, que lhe apareceu no caminho de Damasco, revolucionou sua vida. Esta é a resposta que Paulo dá aos coríntios que questionam a ressurreição de Cristo e dos mortos em geral,  pois toda a sua vida está baseada na experiência de que Cristo ressuscitou (2ª leitura).

Porém, não é apenas sua experiência pessoal; é a fé comum dos Apóstolos, a “tradição” que também ele recebeu: que Jesus foi morto por nossos pecados, cumprindo a Escritura (cf. Is 52,13-53,12 etc.), e foi sepultado; que ele foi ressuscitado no terceiro dia,  cumprindo as Escrituras (cf. Sl 16[15]; Os 6,2 etc.), e manifestado aos discípulos 15,3-5). Só depois dessa referência à fé da comunidade, Paulo invoca o testemunho de sua própria experiência, equivalente à dos outros, embora ele fosse um perseguidor da  Igreja.

Experiência cujo efeito está presente aos olhos dos coríntios na própria figura do apóstolo. No texto que se segue ao de hoje, Paulo afirma que toda a sua e também a nossa vida seria um lamentável absurdo, se não existisse a ressurreição – de Cristo e de todos nós. Este tema é, evidentemente, um tema à parte, mas tem em comum com o do evangelho a transformação que a vocação, ou melhor, o encontro com Cristo opera na vida de cada um. Vocação transformadora, não só da gente, mas também do mundo em que a gente vive.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
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