As Tentações de Jesus - 17/02/2013 - Lc 4, 1 – 13

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elementos catequéticos para o povo Mafa, que vive em Camarões e é isolado culturamente

1. TENTAÇÕES. Lucas apresenta as tentações de Jesus. Elas são uma síntese das tentações que ele sofreu ao longo de sua prática libertadora. Lucas quer mostrar que Jesus é humano como qualquer pessoa e, enquanto ser humano, vem de Deus. Por isso, as tentações por ele sofridas são as mesmas que nós enfrentamos no esforço de atuar o projeto divino.
2. Superando as tentações, Jesus inicia sua atividade e apresenta seu programa libertador (4,16-19). Como irá ele atuar esse programa? Nesse sentido, as tentações são propostas que ele rejeitou, porque por meio delas é impossível libertar os oprimidos.

3. NO DESERTO. As tentações de Jesus acontecem no deserto, para onde é conduzido pelo Espírito. O deserto lembra o tempo de gestação do projeto de Deus para o povo do A.T. Foi lá que os hebreus forjaram, – a duras penas, – um projeto de sociedade alternativa, em que todos pudessem usufruir da vida em liberdade, sem traços nem sinais da opressão vivida no Egito.

4. O NUMERO 40. Lucas salienta que Jesus foi tentado durante quarenta dias. Esse número é simbólico.
4.1. Lembra o tempo em que Moisés ficou na montanha (Ex 34,28), sem comer nem beber, a fim de escrever, – na intimidade com Deus, – o contrato da aliança para a nova sociedade.
4.2. Lembra também o tempo em que Elias permaneceu no monte Horeb, depois do qual desceu para transformar completamente a sociedade do ponto de vista político e religioso (cf. 1Rs 19,8).
4.3. Lembra, ainda, os quarenta anos de Israel no deserto, com suas tentações de voltar ao Egito, mesmo que fosse para viver como escravo, desde que de barriga cheia.

5. Veremos: a. 1ª. tentação: ser o messias da abundância – vv. 3-4
b. 2ª. tentação: ser o messias do poder – vv. 5-8
c. 3ª. tentação: ser o messias do prestígio – vv. 9-12

a. 1ª. tentação: ser o messias da abundância – vv. 3-4


6. O PROJETO DO DIABO. O diabo é aquele que tem um projeto capaz de perverter o projeto de Deus e de Jesus. Pode ser uma instituição, um pro-jeto, um tipo de sociedade, um partido político, etc. A proposta que ele faz é que Jesus liberte os oprimidos mediante um passe de mágica, utilizando Deus em benefício próprio: “se és Filho de Deus, manda que esta pedra se torne pão” (v.3).
6.1. O DEUS DA PROSPERIDADE FÁCIL. Ele quer um Deus que seja garantia de prosperidade, um deus de palanque. O diabo tenta Jesus num ponto crucial: a fome. Como resolver o problema da falta de pão? Pensando somente em si, na própria fome?

7. O PROJETO DE JESUS: A PARTILHA. Jesus recusa ser o messias da abundância porque o projeto de Deus vai além de promessas eleitoreiras. “Não só de pão vive o homem!” (v. 4; cf. Dt 8,3).
7.1. O texto do Deuteronômio fala do tempo em que o povo vivia no deserto e se contentava em viver assim desde que tivesse pão para comer.
7.1. A PARTILHA . A palavra de Javé, porém, tinha objetivos mais amplos: conduzir todo o povo à plena posse da vida e da dignidade. Jesus recusa-se a ser o messias da abundância para si, pois sua proposta é a partilha (11,41) e pão para todos (9, 12-17).

b. 2ª. tentação: ser o messias do poder – vv. 5-8

8. O PODER . O diabo volta à carga, tentando desta vez perverter o projeto de Deus mediante a usurpação do poder. A proposta é que ele liberte os oprimidos através do poder: “eu te darei todo o poder e a riqueza destes reinos, porque tudo isso foi entregue a mim, e posso dá-lo a quem eu quiser. Portanto, se te prostrares diante de mim, tudo isto será teu”. (vv.6-7).

9. Os adversários de Jesus diziam que ele expulsava demônios por ordem de Belzebu, o príncipe dos demônios (cf. Lc 11, 14-22). Jesus é tentado a resolver o problema dos oprimidos tornando-se chefe político de estruturas injustas. Como poderá libertá-los tornando-se dono das vidas e controlando a liberdade das pessoas?

10. O messias do poder. Jesus se recusa ser o messias do poder: “a Escritura diz: adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás!” (v.8; cf. Dt 6,13). A citação completa desse versículo do Deuteronômio (Dt 6,13: “É a Javé teu Deus que temerás. A ele servirás e pelo seu nome jurarás”) mostra claramente que se absolutizar no poder é repetir a ação opressora do Faraó. Jesus tem outros projetos mediante os quais libertará os oprimidos. Em Lucas, uma de suas principais características é o serviço (cf. 22,27: “eu estou no meio de vocês como quem está servindo).

c. 3ª. tentação: ser o messias do prestígio – vv. 9-12

11. Lucas inverteu propositalmente a ordem da segunda e terceira tentações, reservando para Jerusalém o arremate final, pois será nessa cidade que Jesus - ao longo de sua prática libertadora, – irá enfrentar a morte.

12. O diabo tenta Jesus para que abuse do poder de Deus, a fim de se livrar da morte. E desta vez utiliza um texto da Bíblia (Sl 91,11-12). Jesus é convidado a se precipitar do ponto mais alto do Templo de Jerusalém, para mostrar que Deus está do lado dele e que será capaz de libertá-lo da morte. Com essa demonstração comprovaria ser ele o Messias, pois, segundo a tradição, o pináculo do templo seria o lugar da manifestação do Messias.

13. JESUS RECUSA SER O MESSIAS DO PRESTÍGIO. Recusa, sobretudo, escapar da morte, pois o projeto de Deus, – que é libertação para os oprimidos, – passa pela morte de Jesus: “não tentarás o Senhor teu Deus” (v.12; cf. Dt 6,16). Ser messias do prestígio constitui idolatria.

14. O evangelho conclui dizendo que “tendo esgotadas todas as formas de tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para voltar no tempo oportuno” (v.13). O tempo oportuno é o final da prática libertadora de Jesus, onde vai enfrentar os chefes dos sacerdotes, doutores da lei e anciãos (cf. cap.20).
Estes personificam as tentações que Jesus venceu:
- creem que Deus lhes garante a prosperidade;
- acham que é o suporte político para as estruturas injustas que defendem e promovem;
- vivem envolvidos pela busca do prestígio.
Jesus vai enfrentá-los. É sua última tentação. Eles o matam. Mas a ressurreição é a prova de que o projeto do Pai é mais forte que as forças da morte.

Prof. Ângelo Vitório Zambon
Teólogo
Comissão Liturgia Arquidiocese de Campinas

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