Pescadores de homens

Uma história de pesca e pregação, eis o evangelho de hoje. Fala primeiro de pregação, depois de pesca, e finalmente une os dois numa síntese um tanto inesperada. Jesus adapta-se ao cenário local. No meio dos pescadores, seu púlpito deve ser um barco de pesca, provavelmente do mais dinâmico entre os pescadores de Cafarnaum, um certo Simão. Ao terminar, Jesus lhe devolve o barco: ”Agora podes pescar” (Lc 5,4). Pedro deve ter pensado que de pesca Jesus pouco entendia – não era tempo bom: passaram a noite sem nada apanhar. Mas a autoridade de Jesus se impõe. ”Porque tu o dizes, lançarei mais uma vez as redes”.

Surpreendentemente, a pescaria deu um resultado digno de qualquer reunião de pescadores. As redes começando a rachar, tiveram de chamar outro barco para recolher a quantidade de peixes que apanharam.

A partir daí, muda o tom da narração. Simão reconhece uma presença misteriosa, numinosa. Como Isaías, ao sentir quase palpavelmente a presença de Deus no santuário (Is 6; 1ª leitura), assim também Simão se sente invadido por um sentimento de pequenez, impureza e indignidade diante do Mistério que ele vislumbra. “Afasta-te de mim, Senhor, eu sou um homem impuro”. Não mais impuro do que qualquer outro, mas diante de Deus todo ser humano é impuro.

A reação de Jesus é diferente da de Deus em Is 6. Não manda um anjo com uma brasa para purificar Simão, mas diz, com toda a simplicidade: “Não temas”. Ora, como em Isaías, aqui também a presença de Deus se faz sentir com determinada intenção, a vocação: “A partir de agora serás pescador de homens”. E, assim como Isaías respondeu: “Eis-me aqui, envia-me”, Simão se dispõe a assumir sua vocação, abandonando seu barco e seguindo Jesus, com João e Tiago, os filhos de Zebedeu.

Podemos ver, nesta narrativa, como são entrelaçados a vocação divina e os fundamentos humanos da mesma. Isaías é homem do templo: é lá que Deus o agarra. Simão é homem da pesca; é lá que Jesus o apanha. A vocação encarna-se na situação vital de cada um, porém, o arrasta daí para o caminho que Deus projetou. Dialética dos pressupostos humanos e da irrupção divina. Utiliza primeiro a situação da gente, o barco, depois, urge abandonar esse barco para engajar-se num caminho do qual não se conhecem as surpresas. Mas, no entremeio, há um sinal: a pesca. Ao entrar no mar para lançar mais uma vez as redes, Simão não sabia o que aconteceria.

A confiança em Jesus nas coisas do dia-a-dia nos prepara para assumir a vocação do desconhecido.
Também Paulo viveu uma irrupção de Deus em sua história: o Cristo glorioso, que lhe apareceu no caminho de Damasco, revolucionou sua vida. Esta é a resposta que Paulo dá aos coríntios que questionam a ressurreição de Cristo e dos mortos em geral,  pois toda a sua vida está baseada na experiência de que Cristo ressuscitou (2ª leitura).

Porém, não é apenas sua experiência pessoal; é a fé comum dos Apóstolos, a “tradição” que também ele recebeu: que Jesus foi morto por nossos pecados, cumprindo a Escritura (cf. Is 52,13-53,12 etc.), e foi sepultado; que ele foi ressuscitado no terceiro dia,  cumprindo as Escrituras (cf. Sl 16[15]; Os 6,2 etc.), e manifestado aos discípulos 15,3-5). Só depois dessa referência à fé da comunidade, Paulo invoca o testemunho de sua própria experiência, equivalente à dos outros, embora ele fosse um perseguidor da  Igreja.

Experiência cujo efeito está presente aos olhos dos coríntios na própria figura do apóstolo. No texto que se segue ao de hoje, Paulo afirma que toda a sua e também a nossa vida seria um lamentável absurdo, se não existisse a ressurreição – de Cristo e de todos nós. Este tema é, evidentemente, um tema à parte, mas tem em comum com o do evangelho a transformação que a vocação, ou melhor, o encontro com Cristo opera na vida de cada um. Vocação transformadora, não só da gente, mas também do mundo em que a gente vive.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
(www.franciscanos.org.br0

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