Ano Novo! Mensagem do Papa Francisco e Mensagem de D. Tarcisio.

Mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz

http://pt.radiovaticana.va/news/2015/12/15/mensagem_do_papa_para_o_dia_mundial_da_paz/1194452 

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Mensagem de Dom Tarcísio, Bispo Diocesano de Santos


Cristo é quem traz esta mensagem de esperança. Ele veio ao encontro da nossa humanidade, ou melhor, da nossa desumanidade, mas Ele não olha os nossos pecados. Em Sua Misericórdia, Ele nos perdoa, Ele nos abraça e Ele também nos quer misericordiosos. Então, eu imagino que o próximo ano, apesar das dificuldades que nós estamos vivendo e talvez por causa destas dificuldades tão agudas, elas vão nos comprometer mais para que dialoguemos mais e procuremos soluções comuns a todos, deixando de lado nossos egoísmos e interesses particulares. Justamente, para ver o melhor para todos. Essa esperança que Cristo nos traz, vamos abraçá-la como compromisso de vida e assim nós poderemos colaborar para o crescimento desta vida no meio de nós. Que o próximo ano seja de soluções. 2015 pode ter sido marcado por um ano de crises, conflitos e problemas insolúveis. Então, que 2016 seja um ano de diálogos, de entendimentos e de soluções com passos concretos para cada problema que vivemos este ano.



Um Santo Natal em 2015

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Frei Rozântimo no Programa de Fátima Bernardes. 21/12/2015

Frei Rozântimo no Programa de Fátima Bernardes, divulgando o Santuário e a Exposição de Presépios. Entrega um crucifixo originário de Jerusalém para Ana Maria Braga.

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http://globoplay.globo.com/v/4689240/

Para assistir o programa completo clique no link abaixo:

http://globoplay.globo.com/v/4689406/

"Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre..."- 4° Domingo Advento/2015

Deus elege seu enviado e também a mãe que o dá ao mundo. O mistério da eleição de Deus se realiza no útero de Maria. O evangelho de hoje narra o encontro entre Maria, nos primeiros dias de gravidez, e sua parenta Isabel, já no sexto mês. João Batista, ainda no útero de Isabel, manifesta alegria pela presença do Messias no seio de Maria. Em Maria que visita Isabel Deus visita o seu povo, na figura do Messias que há de nascer.

Ora, que significa, concretamente, a liderança messiânica para a qual Jesus nasceu? Ele veio fazer reinar a justiça e o amor que Deus colocou como fundamentos de seu Reino. Veio ensinar-nos a amar-nos mutuamente, procurando cada um servir a seus irmãos e irmãs, em vez de explorá-los. Jesus não veio exercer as funções dos sacerdotes do Antigo Testamento – oferecer sacrifícios de bois e cordeiros – mas realizar a vontade do Pai, até o dom da própria vida: “Me deste um corpo … Aqui estou … para fazer tua vontade” (2ª leitura). O nascimento de Jesus é o primeiro momento do dom da vida de Jesus. O presépio do nascimento é da mesma madeira que a cruz da Sexta-feira Santa.

A disposição com que Jesus oferece sua vida à vontade do Pai é um exemplo para nós. Só acolheremos Jesus de verdade, se assumirmos sua atitude como programa para a nossa vida. O amor é contagioso. Quem ama, gosta de imitar a quem ama. Nosso cristianismo não é em primeiro lugar uma questão de ritos e práticas devocionais, mas de fazer a vontade do Pai. É antes de tudo adesão ao plano divino de salvação, que as nossas mãos vão pôr em prática. É assumir a justiça, o respeito, a libertação e o amor em atos e de verdade, aquilo que Deus deseja para todos os homens. As práticas devocionais devem ser alimento para a prática de nossa vida no meio da sociedade, e não desculpa e fuga. Não basta entrarmos no templo; devemos dizer: “Eis-me aqui, para fazer tua vontade”.

Se Natal significa acolher Jesus, essa acolhida só será verdadeira se, com ele, repetirmos: “Eis-me aqui”.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
(www.franciscanos.org.br)

Um Deus que morre de amor! 22/11/2015 - Jo 18,33b-37

                                                                                                                 Frei Almir Guimarães

Desde a nossa mais tenra idade fomos sendo levados a conhecer e amar a Cristo. Muitos, ao longo do tempo da vida, vão entrando em relação com o Cristo Ressuscitado na Igreja e fazem-se discípulos do Senhor, são súditos do Cristo Rei.

Jesus, o Filho de Maria, foi o primeiro na intenção de Deus. Desde toda a eternidade, no seio da Trindade, o Pai queria exteriorizar seu amor desmedido pelos homens através da encarnação do Filho. Antes que a criação existisse a humanidade de Jesus já estava no pensamento de Deus. O amor sem limites da Trindade se concretiza na encarnação do Verbo. Cristo Jesus é o primeiro no pensamento divino. Tudo para ele existe. Tudo para ele é criado. Esse Jesus encarnado, o Verbo feito carne, toma essa carne no seio de Maria. Ele é o primeiro na intenção de Deus. Ele é rei e centro de tudo. Para ele foram criados os espaços siderais, as plantas e as flores, os rios e os mares, a lua e o sol, o ancião que caminha curvado e a criança que agora vem à luz no meio da selva ou numa maternidade da cidade. Tudo é dele. Para ele tudo foi criado e tudo se sustenta em vista dele. Cristo é rei.

Temos a ideia de que os reis da terra sejam poderosos e potentes. Vestem-se com luxo e se cobrem com joias. Contam com soldados e vivem em fortalezas. Cristo é rei de maneira diferente. Nasce na singeleza e na pobreza. Vive no meio dos simples. Tem mesmo gosto de circular entre os sem vez e sem voz. Diz-se pobre e pobre é. Não tem mesmo uma pedra para reclinar a cabeça. Um rei com os pés empoeirados e o corpo cansado.

Pilatos interrogando a Jesus quer saber se ele é rei ouve a resposta: “Tu o dizes, eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto; para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”.

No alto da cruz ele é o rei que morre de amor. Vemo-lo preso, amarrado, pregado, esse que era um missionário andarilho. Mal pode falar, aquele que era a Palavra. Aquele que é adorado pelos anjos se torna na cruz objeto de chacotas e brincadeiras de soldados. Sim, desde toda a eternidade ele foi o primeiro no pensamento de Deus e na cruz ganha toda credibilidade porque é um rei que morre de amor.

(fonte: www.franciscanos.org.br)

Todos os Santos e Finados/2015 - Reflexões

Festa de "Todos os Santos" - Mt 5, 1-12 

A comunhão dos Santos


Atualmente pouco se ouve falar na “comunhão dos santos”. Além disso, muitos fiéis talvez tenham uma ideia muito restrita a respeito de quem são os santos … Nas suas cartas, Paulo chama os fiéis em geral de “santos”. Todos os que pertencem a Cristo e seu Reino constituem uma comunidade viva e real, a “Comunhão dos Santos”.

As bem-aventuranças (evangelho) proclamam a chegada do Reino de Deus e, por isso, a boa ventura daqueles que “combinam com ele”. Assim, caracterizam a comunidade dos “santos”, os “filhos do Reino”, e proclamando a sua felicidade e salvação. Jesus felicita os “pobres de Deus”, os que confiam mais em Deus do que na prepotência, os que produzem paz, os que vêem o mundo com a clareza de um coração puro etc. Sobretudo os que sofrem por causa do Reino, pois sua recompensa é a comunhão no “céu”, isto é, em Deus. Dedicando sua vida à causa de Deus, eles “são dele”. É o que diz S. João (2ª leitura): já somos filhos de Deus, e nem imaginamos o que seremos! Mas uma coisa sabemos: seremos semelhantes a ele, realizaremos a vocação de nossa criação (Gn 1,26). O amor de Deus tomará totalmente conta de nosso ser, ao ponto de nos tornar iguais a ele.

A santidade não é o destino de uns poucos, mas de uma imensa multidão (1ª leitura): todos aqueles que, de alguma maneira, até sem o saber, aderiram e aderirão à causa de Cristo e do Reino: a comunhão ou comunidade dos santos.

Ser santo significa ser de Deus. Não é preciso ser anjo para isso. Santidade não é angelismo. Significa um cristianismo libertado e esperançoso, acolhedor para com todos os que “procuram Deus com um coração sincero” (Oração Eucarística IV). Mas significa também um cristianismo exigente. Devemos viver mais expressamente a santidade de nossas comunidades (a nossa pertença a Deus e a Jesus), por uma prática da caridade digna dos santos e por uma vida espiritual sólida e permanente.

Sobretudo: santidade não é beatice, não é medo de viver. É uma atitude dinâmica, uma busca de pertencer mais a Deus e assemelhar-se sempre mais a Cristo. Não exige boa aparência!

Desprezar os pobres é desprezar os santos! Mas exige disponibilidade para se deixar atrair por Cristo e entrar na solidariedade dos fiéis de todos os tempos, santificados e unidos por ele.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
fonte: www.franciscanos.org.br

FINADOS

Quando algum dos nossos termina a caminhada…

                                                                                    Frei Gustavo Medella (*)                       

CONSIDERAÇÕES INTRODUTÓRIAS

Caminho… Caminhada… É comum, na espiritualidade, lançar-se mão desta metáfora no intuito de ilustrar o dinamismo da história humana. A vida não é estática. É movimento, mudança, percurso, trajeto. Não poucas vezes, na Sagrada Escritura e na vida dos Santos, o caminho se apresenta como rota de conversão, de amadurecimento, de tomada das grandes decisões. Basta recordar a peregrinação do Povo de Israel, 40 anos pelo deserto, retornando do exílio para a terra prometida, das muitas andanças de Jesus Cristo e de Francisco de Assis, quando este volta das Apúlias para sua terra natal, com desejo ardente de atender ao convite do Senhor. Movimento, mudança, questionamento e insegurança quase sempre são elementos constituintes destas caminhadas.

Na vida individual tal fenômeno também é perceptível: cada pessoa experimenta na própria história os efeitos do caminho empreendido. Relações, decisões, alegrias, decepções e dúvidas dão a tônica desta caminhada, até o dia em que, às vezes lenta, às vezes abruptamente, ela chega ao fim. A certeza da finitude funciona como uma espécie de bússola ou, mais modernamente falando, de um GPS que orienta as escolhas e opções de cada um.

Monteiro Lobato, com arte e maestria, dá voz à personagem Emília: “A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais […] A vida das gentes neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscados. Cada pisco é um dia. Pisca e mama, pisca e brinca, pisca e estuda, pisca e ama, pisca e cria filhos, pisca e geme os reumatismos, e por fim pisca pela última vez e morre. – E depois que morre?, perguntou o Visconde. – Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?”

Apesar de ser caminhada individual, a existência humana é uma obra em aberto, principalmente no que diz respeito às relações que permite criar. No paradoxo humano, cada individualidade é fruto de uma relação que tende a expandir suas tramas configuradas pela consanguinidade, pela identificação, pela simpatia, pela amizade, pela necessidade. E é neste aspecto que o tema da finitude ganha força e repercussão, não na história de quem finda sua caminhada, mas se lança como desafio imperativo para quem permanece na estrada. Lidar com a partida daquele que se ama é tarefa inadiável e intransferível, é o preço que se paga por se viver relacionalmente.

E é sobre este nó da trama vital que a presente reflexão deseja se debruçar, principalmente no que diz respeito à abordagem pastoral da questão, revelando o rosto de uma Igreja companheira e solidária com seus filhos e filhas que atravessam este obscuro vale em sua caminhada de vida: a partida de um ente querido. O termo “Igreja” aqui compreendido de forma ampla, na presença dos ministros, ordenados ou instituídos, na atuação de uma pastoral específica, na disponibilidade de uma comunidade capaz de se solidarizar.

Em um primeiro momento, algumas considerações a partir da espiritualidade cristã. Logo após, o texto se ocupará em tecer comentários a partir de situações que a própria prática pastoral apresenta, a saber: A partida como coroamento de uma longa caminhada; a partida de quem atravessa o calvário da doença; a partida repentina. É evidente que a complexidade e a variação quase infinita dos arranjos das inúmeras possibilidades individuais ultrapassam de longe os poucos aspectos aqui descritos. Eles são apenas alguns acenos aproximativos que buscam provocar a reflexão.
1.  ALGUNS OLHARES A PARTIR DA ESPIRITUALIDADE
1.1  A vida do justo e a sabedoria do Antigo Testamento

O Livro da Sabedoria traz reflexões que abordam diferentes situações da vida, mais ou menos agradáveis. “A vida dos justos está nas mãos de Deus” (Sb 3,1) é uma constatação do autor que aborda a última passagem do ser humano, peregrino e viajante por natureza. É a passagem desta vida para a vida eterna.

A justiça é um bem divino e o ser humano que pauta sua vida na busca e no cultivo dela se aproxima cada vez mais de Deus. Não é à toa que, no Livro de Jeremias, Deus aparece designado como “Senhor, nossa justiça” (Jr 23,6).

Na história da Salvação muitos foram denominados justos; todos aqueles que souberam conduzir suas vidas pelos caminhos do Senhor. No Novo Testamento, aparece, por exemplo, o justo José, pai adotivo de Jesus, que se lançou de corpo e alma como colaborador efetivo do projeto de Deus.

Quem vive justamente parte como justo e é acolhido com amor pelo Senhor. Importante é lembrar que viver retamente não significa passar pela existência sem cometer erros. Os tropeços e enganos fazem parte da história humana. Mais importante do que evitá-los a qualquer preço, às vezes às custas de um escrúpulo paralisante, é cultivar, cada um em si, um auto-reconhecimento das próprias limitações e, apesar delas, seguir em frente, com confiança na misericórdia de Deus.

E o justo sabe bem disso. “A vida dos justos, ao contrário, está nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá. Aos olhos dos insensatos, aqueles pareciam ter morrido, e seu fim foi considerado como desgraça. Os insensatos pensavam que a partida dos justos do nosso meio era um aniquilamento, mas agora estão na paz. As pessoas pensavam que os justos estavam cumprindo uma pena, mas esperavam a imortalidade. Por uma breve pena receberão grandes benefícios, porque Deus os provou e os encontrou dignos dele. Deus examinou-os como ouro no crisol, e os aceitou como holocausto perfeito. No dia do julgamento, eles resplenderão como fagulhas no meio da palha. Eles governarão as nações, submeterão os povos, e o Senhor reinará para sempre sobre eles. Os que nele confiam compreenderão a verdade, e os que lhe são fiéis viverão junto dele, no amor, pois a graça e a misericórdia estão reservadas para seus escolhidos”. (Sb 3,1-9).
1.2  O grão de trigo e as “pequenas mortes” de cada dia

“Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto”.(Jo 12,24). Conforme expresso no Evangelho de João, Jesus Cristo lança mão da comparação com o grão de trigo para referir-se a si mesmo. Ele queria desta forma mostrar que sua morte, ainda que sofrida e injusta, seria fonte de vida para o mundo. E a principal garantia de Cristo era sua total fidelidade ao projeto do Reino de Deus. Ele foi fiel até o fim. Outro elemento a ser destacado é que o sangue derramado na cruz foi o coroamento do processo de toda a vida de Cristo. Em cada gesto de acolhida, em cada palavra de estímulo, em cada cura ou ensinamento, o mestre estava se entregando por inteiro, para que todos tivessem vida, e vida em abundância (Cf. Jo 10,10).

O acontecido ao grão de trigo também se aplica à existência do ser humano. Todo sacrifício realizado em benefício do próximo não deixa de ser uma pequena morte, mas é morte que gera a vida. Bom exemplo é o da mãe que, de madrugada, se levanta para acudir seu bebê que está chorando. Naquele momento ela morreu para seu sono, para sua preguiça, para a vontade de ficar dormindo. Foi capaz de se sacrificar porque alguém que ela ama estava precisando de seu socorro. Outra situação de “morte para si mesmo” é o casamento: mais uma vez se morre para gerar vida. Marido e mulher precisam se transformar mutuamente, um se adequando ao outro. Caminhando desta forma são capazes de construir uma união feliz. A vida, portanto, é um constante morrer, mas esta constatação não deve ser motivo de tristeza ou medo. Ela pretende apenas recordar que vida e morte caminham de mãos dadas, uma gerando a outra.
1.3  São Francisco e seu encontro com a irmã morte

Poucos instantes antes de morrer, por volta de 1226, São Francisco pediu a seus irmãos que o despissem e que o colocassem nu sobre a terra. Era o coroamento de uma experiência profunda de Deus, o Deus da vida. Em Cristo, Francisco conseguiu enxergar a beleza e a grandiosidade do amor do Pai e, por isso, transformou sua vida em um perene louvor a Deus, pautado em profundo amor e respeito por todos os seres humanos e pelos bens da criação.

Francisco já partiu há quase 800 anos, mas sua experiência continua a inspirar milhões de homens e mulheres em todo mundo. O Santo de Assis, descobrindo profundamente amado por Deus, o Sumo Bem, Único e Verdadeiro Bem, conseguiu transmitir este amor para além das fronteiras de seu tempo e de seu espaço.

Foi modelo de vida até o fim. Francisco bem sabia que tudo aquilo era e tinha havia recebido como dom gratuito, e por isso não queria tomar posse de nada, nem das coisas, nem da natureza, nem da pessoa. Soube viver em profunda gratuidade e, assim, apesar de todos os sofrimentos (físicos inclusive), conseguiu ser uma pessoa realizada e feliz.

Quando chegou sua hora, Francisco encheu seu coração de esperança e conseguiu chamar a morte de “novo nascimento”. Não se trata de um fim, mas de uma transformação, do ingresso em uma nova maneira de existir. No Cântico das criaturas, Francisco louva e agradece a Deus por todos os benefícios que Ele realizou (e realiza) na criação. E não deixa de fora a “Irmã Morte Corporal”, escrevendo assim: “Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã a morte corporal, da qual homem algum pode escapar. (…) Felizes os que ela achar conformes à tua santíssima vontade, porque a morte segunda não lhes fará mal!”

Francisco de Assis ensina que a vida é dom, presente de Deus. No momento da partida de alguém querido, esta recordação é muito salutar, pois alia à dor e à tristeza um profundo sentimento de gratidão e esperança.
2.  PARTIDA E PARTIDAS

Embora seja um só fenômeno, parte integrante da existência, a maneira como ocorre varia de acordo com uma série incontável de fatores. Tendo em vista este aspecto, também a lida pastoral difere de caso a caso. A presença da Igreja neste delicado momento da vida das famílias assume matizes diferentes segundo as circunstâncias do ocorrido. A seguir, algumas pistas de atuação e também poucas reflexões diante de três configurações distintas
2.1  A partida como coroamento de uma longa caminhada

É o caso da existência que, seguindo seu curso natural, chega ao fim, à semelhança de uma vela acesa que, consumida, se apaga. Vêm à lembrança aqueles que partem aos 80, 90 anos, levados pelas limitações da própria idade. Em sua existência, é claro, tiveram momentos de dor, sofrimento e aridez. Porém, com sabedoria, tiveram a capacidade de promover uma síntese positiva de sua história. Evidente que deixam saudades. Cônjuges, filhos, netos, bisnetos e amigos lamentam a partida, choram ao despedir-se daquele ser humano que tanto marcou a história deles. No entanto, parece que nestes casos a própria existência oferece os elementos capazes de auxiliar quem fica na busca de um sentido para o fato: “Papai descansou, cumpriu sua missão!” – Não é incomum, nestes casos, ouvir de filhos e filhas, por exemplo, este tipo de afirmação.

Permanece a saudade como sentimento profundo, que pode inclusive gerar poesia e canção, como no caso do músico Sérgio Bittencourt. Ao expressar a saudade que sentia de se pai (Jacó do Bandolim), Sérgio compôs a bela peça musical “Naquela mesa”: “Naquela mesa ele sentava sempre / E me dizia sempre o que é viver melhor / Naquela mesa ele contava histórias / Que hoje na memória eu guardo e sei de cor / Naquela mesa ele juntava gente / E contava contente o que fez de manhã / E nos seus olhos era tanto brilho / Que mais que seu filho / Eu fiquei seu fã / Eu não sabia que doía tanto / Uma mesa num canto, uma casa e um jardim / Se eu soubesse o quanto dói a vida / Essa dor tão doída, não doía assim / Agora resta uma mesa na sala / E hoje ninguém mais fala do seu bandolim / Naquela mesa tá faltando ele / E a saudade dele tá doendo em mim”.

Nestas situações, a presença de uma Igreja que reza junto à família e aos amigos, que se apresenta com palavras de gratidão a Deus e como semeadora de esperança, se torna útil e oportuna. A celebração no velório, com a presença do ministro, a posterior visitação à família para além da missa de sétimo dia, a comunidade que se une em oração são ações que conferem corpo e consistência à presença eclesial. Soma-se aqui a atuação dos serviços pastorais voltados aos idosos e doentes, em especial o trabalho de visitação constante, da comunhão aos enfermos e outras atuações do gênero.

Há os casos ainda – e não são poucos – em que a família, ou o próprio falecido, não tem ligação direta com qualquer comunidade de fé. Aí também cabe uma presença da Igreja, não de caráter proselitista, mas fundada principalmente na lógica do testemunho, da presença amiga e companheira, da especialista no trato humano, oferecendo, como São Pedro à porta do templo, aquilo que ela tem para dar: “Nem ouro, nem prata, mas Jesus Cristo, o Nazareno” (At 3,6). Quem sabe tal testemunho não desperte no coração de algum dos presentes a vontade viva de se aproximar desta Igreja que traz a Boa-Nova de um Cristo amigo e servidor?
2.2  A partida de quem atravessa o calvário da doença

“O Filho de Deus sofreu, morreu, mas ressuscitou, e exatamente por isso aquelas chagas tornam-se o sinal da nossa redenção, do perdão e da reconciliação com o Pai; tornam-se, contudo, também um banco de prova para a fé dos discípulos e para a nossa fé: todas as vezes que o Senhor fala da sua paixão e morte, eles não compreendem, rejeitam, opõem-se. Para eles, como para nós, o sofrimento permanece sempre carregado de mistério, difícil de aceitar e suportar.” (Papa Bento XVI, na Mensagem para o XIX Dia Mundial do Doente – 2011).

Encontrar nas chagas de Cristo e nas próprias chagas um sinal de redenção não é exercício dos mais fáceis, conforme aponta o Papa Bento XVI. O mistério do sofrimento, quando vivido na própria história, ou na vida daqueles que estão próximos, traz em si um caminhão de questionamentos e muito pouco – ou às vezes nada – de resposta. Muitas vezes são anos a fio de limitação, dor e luta vivenciados pelo enfermo e por aqueles que estão a seu redor, especialmente os mais próximos. Não são poucos os que, ao contemplar tamanha provação, sentem profunda dificuldade em enxergar um sentido para vida que seja capaz de ir além daquele sofrimento macerante, a molde do personagem bíblico Jó, quando diz: .”Pereça o dia em que nasci, e a noite que disse: ‘Foi concebido um menino’”. (Jó 3,3).

A partida de alguém depois de um período de enfermidade, principalmente se esta se estende por muito tempo, provoca em quem fica um misto de sentimentos. Aos mais próximos geralmente surge certo sentimento de alívio, aliado à saudade e à dor da perda, é óbvio. Basta pensar, por exemplo, na figura da filha solteira, já de certa idade, que cuidou anos a fio da mãe octogenária acamada. Nos últimos anos o nível de comunicação se reduzira a alguns olhares esporádicos com certa aparência de consciência. Certamente, para esta filha, dentre o turbilhão de emoções que brotam em seu coração, está o suspiro aliviado de quem acompanhou todo o ciclo de sofrimento ocasionado pela doença.

Além de oferecer o conforto aos que sofrem com esta realidade e iluminá-los a partir da perspectiva da fé, o esforço pastoral deve também identificar os fermentos da ação evangélica de quem se dispõe a acompanhar pessoas que atravessam este tipo de situação-limite. Se a enfermidade é, de acordo com a Igreja, oportunidade para o fiel conformar sua cruz à cruz de Cristo, a presença dos “cireneus” que acompanham estes dramas é também fermento fecundo de amor-doação. É um grito silencioso e eloquente de profecia diante da mentalidade vigente de exaltação do lucro, do sucesso e do prazer a qualquer custo. Eis aí uma grande chance para exemplificar na prática a riqueza e a beleza da proposta cristã. Não se trata de exaltação pessoal de quem se dispôs a doar a própria vida ao cuidado de alguém, mas de iluminar a grandeza deste gesto generoso que tende fortemente ao Evangelho.

À medida que o momento da partida se aproxima, no interior de quem sofre ocorre uma verdadeira batalha de sentimentos, conforme escreve J.B Libanio: “No momento em que o enfermo se depara com a proximidade certa da morte, corta-lhe o coração terrível dor. Sou eu mesmo e por quê? Não, não pode ser verdade. Tempo da negação, do isolamento. Momento difícil para acompanhar o enfermo. Rói-lhe o interior o sentimento de injustiça. Por que ele está nesse estado terminal? Tal percepção vem-lhe de uma intuição que nasce do próprio corpo e das circunstâncias. Embora não se fale da gravidade da doença e ele mesmo conscientemente a silencie, no fundo tudo em volta respira tal situação de fatalidade. Trava-se-lhe dentro a batalha da verdade e da aceitação da verdade a respeito da própria situação. Ele corre atrás de algum médico que lhe diga palavra, ainda que não verdadeira, do consolo da cura. Visita os lugares de milagres. Pessoas que estavam longe da religião, entregam-se a devoções na esperança de vencer a doença. E com a atual abundância de pastores e de grupos carismáticos pregando e semeando curas, o paciente corre atrás deles. Mas o verdadeiro cuidado não nasce de promessas que nos escapam. Porque da desilusão de não se curar brota a revolta. Em vez de bem espiritual, ao acenar aos doentes impossíveis curas, quando o caso já chega ao fim, geramos, não raro, ressentimento. Toca-nos ajudar a pessoa a aceitar a morte na esperança da vida eterna. Aí está a grande mensagem do cristianismo!” [Cuidadores de doentes terminais – Disponível em http://www.jblibanio.com.br/modules/wfsection/article.php?articleid=40].
2.3  A partida repentina

Nos dois casos descritos até agora, o momento da partida é precedido por um processo mais ou menos longo. No entanto, há situações em que, tragicamente, vidas são ceifadas de repente. São acidentes, assassinatos, suicídios, males súbitos que trazem espanto, desconsolo e até mesmo desespero. São pais que perdem filhos repentinamente, cônjuges que, de uma hora para outra, se veem desamparados e muitos outros dramas humanos.

O cantor e compositor britânico Eric Clapton passou por um terrível momento quando um grave acidente ceifou a vida de seu filho, Conor Clapton, então com quatro anos, em 1991. O menino caiu da janela de um andar altíssimo de um prédio em Nova York.

A partida precoce do menino inspirou Clapton a compor Tears in heaven, o que ajudou o compositor a lidar com a dor da perda. A publicação da música não foi planejada, mas ocorreu mesmo assim, e ela se transformou em um sucesso conhecido em diferentes partes do mundo.

É uma espécie de diálogo de Clapton com o filho e também uma série de perguntas que o autor lança na esperança de um dia contemplar o céu. Certamente a arte é importante aliada nestes momentos de separação. Ela ajuda a pessoa a dar um passo além, a descobrir-se ligada a algo maior do que ela, a Deus. E a dimensão deste Deus infinito, que abraça a toda a criação, faz a pessoa perceber-se parte de uma obra maravilhosa, integrada com todos os seres humanos, inclusive aqueles que já partiram, e com toda a criação.

No caso de Clapton, cantar a partida do filho (uma das dores que mais castiga qualquer ser humano) foi a forma que ele encontrou de se perceber ligado ao menino mesmo depois do ocorrido. A versão em português que segue é uma tradução livre: “Você saberia meu nome / se eu o visse no céu? / Você seria o mesmo, / se eu o visse no céu? / Eu tenho que ser forte, / e seguir em frente. / Porque eu sei que não pertenço ao céu. // Você apertaria minha mão / se eu o visse no céu? / Você me ajudaria a me levantar / se eu o visse no céu? / Encontrarei o meu caminho / atravessando noite e dia. / Porque eu sei que não posso ficar no céu. // O tempo pode trazer você para baixo. / O tempo pode fazer você dobrar os joelhos./ O tempo pode partir seu coração, / fazer você implorar por favor / Implorar por favor. // Atrás da porta / há paz. / Eu tenho certeza / e sei que não haverá mais / lágrimas no céu.

Diante deste tipo de acontecimento, na grande maioria das vezes, a celebração dos velórios conta com participação maciça de elevado número de pessoas e o clima que se espalha no ambiente é de profunda comoção, de nervos à flor da pele. Eis um cenário desafiador para o ministro que, em nome da Igreja, irá rezar junto a uma assembleia atônita e desestruturada humanamente. O que dizer para este povo? Que palavras de conforto podem ser proferidas diante de tal tragédia? Seguem algumas preocupações especiais do ministro nestas ocasiões:

● Fazer-se ouvir. Parentes, amigos e conhecidos se encontram transtornados.

Qualquer mensagem ou palavra proferida parece não penetrar seus corações sobressaltados. Com calma, prudência e confiança na força que vem de Deus, é conveniente que o ministro, aos poucos, tente criar na assembleia um ambiente de escuta, de concentração, de oração. Colocar-se na humildade, como companheiro(a) nesta hora difícil é uma postura que pode ajudar. Ao perceberem este calor humano e esta solidariedade imediata de quem está próximo, certamente os atingidos mais diretamente pela perda terão maior possibilidade de contemplar em Cristo o companheiro por excelência neste momento de profunda dor.

● Manter-se calmo. Jesus Cristo se compadeceu em diversas situações de dor e perda com a qual se deparou. Exemplo mais conhecido foi no episódio da morte de Lázaro, quando, segundo o relato do Evangelho de João (Jo 11,35), veio às lágrimas diante da partida de seu amigo querido. Comover-se significa “mover-se junto”, sentir-se movido pelo que move o outro. É natural que, neste contexto, o ministro também se sinta comovido, que se emocione, que tenha certa dificuldade em conduzir a assembleia em oração. Manter-se calmo, com os “pés no chão”, no entanto, é uma necessidade nesta hora. Ele será um ponto de referência, de apoio àquelas pessoas que “perderam seu chão”. Elas precisam se firmar e a fé na Ressurreição, por causa de Cristo, é o suporte principal de todo o cristão. Cabe ao ministro, portanto, oferecer elementos que levem as pessoas a se confiarem a esta força divina.

● Encontrar as palavras certas. O ponto de partida é sempre a Sagrada Escritura. O ministro deseja, como a inspiração do Espírito Santo, fazer brotar no coração dos presentes uma esperança fundada na fé. Não pretende apontar possíveis explicações para o fato e, muito menos, associar o acontecido à “vontade de Deus”. Busca, com todas as forças, lançar luzes sobre o drama, sempre evocando o amor

e a misericórdia que provêm do Senhor. Informações prévias sobre as circunstâncias do acontecido, sobre a história de vida de quem partiu, costumam ser importante auxílio, embora a tônica da mensagem deva ser a esperança.

● Falar para todos. Este é um item que demanda muita sensibilidade e perspicácia por parte do ministro. Diferente da missa, ou da celebração da Palavra, onde se presume que todos, ou a imensa maioria, sejam cristãos católicos, estes ambientes geralmente são marcados pele heterogeneidade de pessoas. Há católicos praticantes, outros batizados que nunca mais estiveram ligados à Igreja, cristãos de diferentes denominações, membros de outras religiões, agnósticos, ateus. Daí a preocupação em oferecer uma mensagem fiel ao Evangelho e também capaz de vir carregada de sentido para diferentes públicos.

Além da celebração no velório, o quanto possível, as pessoas que sofreram este tipo de perda necessitam de um acompanhamento próximo. A missa de sétimo dia também é momento de extrema comoção. Geralmente são celebrações lotadas. Há famílias que confeccionam camisetas com a foto da pessoa falecida, preparam homenagens, inúmeros parentes, amigos, colegas e conhecidos marcam presença. Um grande desafio para quem preside a missa de sétimo dia nestes casos é introduzir toda a comunidade, inclusive aqueles fiéis que não têm ligação direta com o fato, em uma oração comum em torno do mistério celebrado: a conformação da ressurreição daquele que partiu à Ressurreição do Senhor.

Em artigo recente, o teólogo J. B. Libanio, já citado anteriormente, descreve a forma pela qual a Ressurreição de Cristo confere luz e sentido à dor, ao sofrimento, ao fracasso: “Os cristãos ressignificam a Páscoa para a ressurreição de Jesus. Misturam-se também a desolação e a festa, a alegria e a terrível tristeza. O destino final de Jesus abateu-se sobre os seus seguidores. Morte pior não poderia ter acontecido. Rejeitado pelo povo, excomungado pela religião judaica, abandonado por Javé, traído por um apóstolo, cercado por dois condenados criminosos, nu, morre pregado numa cruz. Nada a celebrar. Tudo a esquecer. Mas ele ressuscita. Pura vida. No entanto, carrega consigo essa morte para dentro da eternidade. Não a rejeita. Aí estão as chagas para simbolizar a continuidade da cruz no corpo glorioso. Lentamente a comunidade primitiva assimila o trauma da morte de Jesus à medida que o experimenta vivo e senhor de todas as coisas. Milhões e milhões depois dele se entregarão à morte para testemunhar a verdade de sua morte e ressurreição. E bilhões e bilhões o fizeram centro de sua vida até o dia de hoje” [A ressurreição mais além da fé – Disponível em http://www.jblibanio.com.br/modules/wfsection/article.php?articleid=561].
APONTAMENTOS CONCLUSIVOS

O tema da partida é, por sua natureza, desafiante, amplo e complexo. As breves contribuições aqui apresentadas tomam forma de algumas poucas agulhas encontradas em um imenso palheiro. De qualquer forma, fica a provocação dirigida a quem busca se aprofundar no tema, seja por necessidade pastoral, curiosidade existencial ou pela proximidade, no espaço ou no tempo, com a referida temática. Para concluir, seguem alguns pontos já tratados na reflexão, apenas como meio de reforço:

● Elemento constituinte da existência humana, a morte com freqüência se apresenta como desafio principalmente quando diz respeito a alguém de convívio próximo.

● Na perspectiva cristã, não obstante o sofrimento, os questionamentos e a saudade, a Ressurreição de Cristo é o grande alento de força e esperança que enche de luz e dá sentido à partida deste mundo.

● Como momento crucial da história individual da pessoa e do grupo humano à qual ela pertence, a morte demanda, por parte da Igreja, um olhar pastoral repleto de carinho e atenção, que leve em conta as diferentes circunstâncias e situações em que tal fenômeno ocorre.

●  A atuação pastoral nestes casos requer sensibilidade, disposição e testemunho. Mais do que a presença institucional, na condução de cerimônias, faz-se mister uma presença próxima, amiga, companheira e solidária, um verdadeiro ministério de vida e esperança.

●  A presença ministerial nestas ocasiões não se refere somente à figura do ministro ordenado – embora este deva ser o primeiro a nutrir em si e na comunidade esta postura de companheirismo –, mas de toda a comunidade, que, sob iluminação do Espírito Santo, se organiza inteligentemente para dar uma resposta viva, ativa e eficaz a todos que atravessam estes difíceis momentos.

●  Jesus Cristo conferiu sentido à morte por sua ressurreição. Seguindo seus passos, a comunidade cristã busca e sonha contemplar a partida deste mundo como um novo nascimento para a existência plena e definitiva junto ao Senhor.

(*) Frei Gustavo Wayand Medella, OFM, é coordenador da Frente de Comunicação da Província da Imaculada e autor do livro “Há vida após o luto”.

Email: gmedella@gmail.com

(fonte:  www.franciscanos.org.br )

Ser VIP é servir - 18/10/2015 - Mc 10,35-45

Brasileiro gosta de ser VIP, Very Important People… Se puder, na base do jeitinho, conseguir um lugar melhor, uma vantagenzinha no atendimento, pular alguns lugares na fila, bom também… Levar vantagem eleva a autoestima, transmite segurança, injeta autoconfiança, traz uma certa alegria, meio infantil, do tipo “eu posso, você não pode”, “eu tenho, você não tem”. Em muitos aspectos, teimamos em crescer. Também queriam tratamento VIP Tiago e João ao se aproximarem de Jesus para pedir dois lugares de destaque, um à esquerda e outro à direita do Senhor quando Ele estivesse em sua glória: desejavam fama, conforto, destaque, segurança (Mc 10,38, o evangelho deste 29º domingo do Tempo Comum). Ainda não tinham compreendido a lógica de Jesus e do Reino que Ele planejava instaurar.

Voltando à comparação com as crianças, se o senso comum nos impele a investir no “eu posso, você não pode”, Jesus assume postura oposta, abraçando o “eu poderia, mas escolhi não poder”, bem explicado: Filho de Deus Onipotente, Jesus se despe desta prerrogativa e escolhe viver na plenitude a humanidade, sem demonstração de força, sem exigência de tratamento diferenciado, abraçando, inclusive, terríveis sofrimentos e dolorosas humilhações para se colocar a serviço de todos. É este mistério de entrega que impressiona o profeta, que diz: “Oferecendo sua vida em expiação, ele terá descendência duradoura, e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor” (Is 53,11).

Como modelo de ser humano que batalhou incansavelmente para combater qualquer tentação de grandeza, São Francisco de Assis buscou seguir com fidelidade o itinerário proposto por Jesus e adquiria força para tal empreitada numa vida de contínua oração, pela qual buscava cada admirar-se pela grandeza da humildade de Deus manifesta em Jesus Cristo. E, por isso, consegue exclamar: “Eis que Ele [Jesus] se humilha todos os dias, tal como na hora em que, descendo do seu trono real para o seio da Virgem, vem diariamente a nós sob aparência humilde; todos os dias desce do seio do Pai sobre o altar, na mão do sacerdote” (Adm 1,16-17).

A humildade do Filho do Homem impressionou Francisco e teceu o sentido do seu viver. Também pode tecer o nosso. Basta abrirmos espaço no coração, esvaziando-o do desejo infantil de ser importante, poderoso, notável, o máximo. Afinal, na lógica de Francisco e de Cristo, “SER VIP” é “SERVIR”.

Frei Gustavo Medella, OFM
(www.franciscanos.org.br)

"Tu és o Messias" - Mc 8,27-35 - 13/09/2015

A reflexão de hoje apresenta duas partes bem distintas. Na primeira, Pedro dá voz à comunidade dos discípulos e constata que Jesus é o Messias libertador que Israel esperava; na segunda, Jesus explica aos discípulos que a sua missão messiânica deve ser entendida à luz da cruz (isto é, como dom da vida aos homens, por amor).

A primeira parte do nosso texto (vers. 27-30) começa com Jesus a pôr uma dupla questão aos discípulos: o que é que as pessoas dizem d’Ele e o que é que os próprios discípulos pensam d’Ele?

A opinião dos “homens” vê Jesus em continuidade com o passado (“João Baptista”, “Elias”, ou “algum dos profetas”). Não captam a condição única de Jesus, a sua novidade, a sua originalidade. Reconhecem apenas que Jesus é um homem convocado por Deus e enviado ao mundo com uma missão – como os profetas do Antigo Testamento… Mas não vão além disso.

Na perspectiva dos “homens”, Jesus é apenas um homem bom, justo, generoso, que escutou os apelos de Deus e que Se esforçou por ser um sinal vivo de Deus, como tantos outros homens antes d’Ele (vers. 28). É muito, mas não é o suficiente: significa que os “homens” não entenderam a novidade de Jesus, nem a profundidade do seu mistério.

A opinião dos discípulos acerca de Jesus vai muito além da opinião comum. Pedro, porta-voz da comunidade dos discípulos, resume o sentir da comunidade do Reino na expressão: “Tu és o Messias” (vers. 29). Dizer que Jesus é o “Messias” (o Cristo) significa dizer que Ele é esse libertador que Israel esperava, enviado por Deus para libertar o seu Povo e para lhe oferecer a salvação definitiva.

A resposta de Pedro estava correcta. No entanto, podia prestar-se a graves equívocos, numa altura em que o título de Messias estava conotado com esperanças político-nacionalistas. Por isso, os discípulos recebem ordens para não falarem disso a ninguém. Era preciso clarificar, depurar e completar a catequese sobre o Messias e a sua missão, para evitar perigosos equívocos. É isso que Jesus vai fazer, logo de seguida.

Na segunda parte do nosso texto (vers. 31-35), há duas questões. A primeira (vers. 31-33) é a explicação dada pelo próprio Jesus de que o seu messianismo passa pela cruz; a segunda (vers. 34-35) é uma instrução sobre o significado e as exigências de ser discípulo de Jesus.

Jesus começa, portanto, por anunciar que o seu caminho vai passar pelo sofrimento e pela morte na cruz (vers. 31-33). Não é uma previsão arriscada: depois do confronto de Jesus com os líderes judeus e depois que estes rejeitaram de forma absoluta a proposta do Reino, é evidente que o judaísmo medita a eliminação física de Jesus. Jesus tem consciência disso; no entanto, não se demite do projecto do Reino e anuncia que pretende continuar a apresentar, até ao fim, os planos do Pai.

Pedro não está de acordo com este final e opõe-se, decididamente, a que Jesus caminhe em direcção ao seu destino de cruz. A oposição de Pedro (e dos discípulos, pois Pedro continua a ser o porta-voz da comunidade) significa que a sua compreensão do mistério de Jesus ainda é muito imperfeita. Para ele, a missão do “messias, Filho de Deus” é uma missão gloriosa e vencedora; e, na lógica de Pedro – que é a lógica do mundo – a vitória não pode estar na cruz e no dom da vida.

Jesus dirige-se a Pedro com alguma dureza, pois é preciso que os discípulos corrijam a sua perspectiva de Jesus e do plano do Pai que Ele vem realizar. O plano de Deus não passa por triunfos humanos, nem por esquemas de poder e de domínio; mas o plano do Pai passa pelo dom da vida e pelo amor até às últimas consequências (de que a cruz é a expressão mais radical).

Ao pedir a Jesus que não embarque nos projectos do Pai, Pedro está a repetir essas tentações que Jesus experimentou no início do seu ministério (cf. Mc 1,13); por isso, Jesus responde a Pedro: “Vai-te, Satanás”. As palavras de Pedro pretendem desviar Jesus do cumprimento dos planos do Pai; e Jesus não está disposto a transigir com qualquer proposta que O impeça de concretizar, com amor e fidelidade, os projectos de Deus.

Depois de anunciar o seu destino (que será cumprido, em obediência ao plano do Pai, no dom da própria vida em favor dos homens), Jesus convida os seus discípulos a seguir um percurso semelhante…
Quem quiser ser discípulo de Jesus, tem de “renunciar a si mesmo”, “tomar a cruz” e seguir Jesus no caminho do amor, da entrega e do dom da vida.

O que é que significa, exactamente, renunciar a si mesmo? Significa renunciar ao seu egoísmo e auto-suficiência, para fazer da vida um dom a Deus e aos outros. O cristão não pode viver fechado em si próprio, preocupado apenas em concretizar os seus sonhos pessoais, os seus projectos de riqueza, de segurança, de bem estar, de domínio, de êxito, de triunfo… O cristão deve fazer da sua vida um dom generoso a Deus e aos irmãos. Só assim ele poderá ser discípulo de Jesus e integrar a comunidade do Reino.

O que é que significa “tomar a cruz” de Jesus e segui-l’O? A cruz é a expressão de um amor total, radical, que se dá até à morte. Significa a entrega da própria vida por amor. “Tomar a cruz” é ser capaz de gastar a vida – de forma total e completa – por amor a Deus e para que os irmãos sejam mais felizes.

No final desta instrução, Jesus explica aos discípulos as razões pelas quais eles devem abraçar a “lógica da cruz”. Convida-os a entender que oferecer a vida por amor não é perdê-la, mas ganhá-la. Quem é capaz de dar a vida a Deus e aos irmãos, não fracassou; mas ganhou a vida eterna, a vida verdadeira que Deus oferece a quem vive de acordo com as suas propostas.

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos) www.dehonianos.org

Um inadiável acerto de contas com a Mãe Terra - Leonardo Boff - 06/09/2015



A encíclica do Papa Francisco sobre “O cuidado da Casa Comum”(Laudato Si) está sendo vista como a encíclia “verde”semelhantemente como quando dizemos economia “verde”. Eis aqui um grande equívoco. Ela náo quer ser apenas “verde” mas propõe a ecologia “integral”.

Na verdade, o Papa deu um salto teórico da maior relevância ao ir além do ambientalismo verde e pensar a ecologia numa perspectiva holística que inclui o ambiental, o social, o político, o educaciional, o cotidiano e o espiritual. Ele se coloca no coração do novo paradigma segundo o qual cada ser possui valor intrínsceo mas está sempre em relação com tudo, formando uma imensa rede como aliás o diz exemplarmente a Carta da Terra.

Em outras palavras, trata-se de superar o paradigma da modernidade. Este coloca o ser humano fora da natureza e acima dela como “seu mestre e dono (Descartes), imaginando que ela não possui nenhum outro sentido senão quando posta a serviço do ser humano que pode explorá-la a seu bel-prazer. Esse paradigma subjaz à tecnociência que tantos benefícios nos trouxe mas que simultaneamente gestou a atual crise ecológica pela sistemática pilhagem de seus bens naturais.
E o fez com qual voracidade que ultrapassou os principais limites intransponíveis (a Sobrecarga da Terra). Uma vez transpostos, colocam em risco as bases físico-química-energéticas que sutentam a vida (os climas, a escassez de água, os solos, a erosão da biodiversidade entre outros). É hora de se fazer um ajuste de contas com a Mãe Terra: ou redifinimos uma nova relação mais cooperativa para com ela e assim garantimos a nossa sobrevivência ou podemos conhecer um colapso planetário.

O Papa inteligentemente se deu conta desta possibilidade. Daí que sua encíclica se dirige a toda a humanidade e não apenas aos cristãos. Tem como propósito fundamental cobrar um novo estilo de vida e uma verdadeira “conversão ecológica”. Esta implica uma novo modo de produção e de consumo, respeitando os ritmos e os limites da natureza também em consideração das futuras gerações às quais igualmente pertence a Terra. Isso está implícito no novo paradigma ecológico.

Como temos a ver com um problema global que afeta indistintamente a todos, todos são convocados a dar a sua contribuição: cada país, cada instituição, cada saber, cada pessoa e, no caso, cada religião como o cristianismo.

Em razão desta urgência, o Papa juntamente com a Igreja Ortodoxa instituíu todo o dia 1º de setembro de cada ano como o “Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação”. Assevera claramente que “devemos buscar no nosso rico patrimônio espiritual as motivações que alimentam a paixão pelo cuidado da criação”(Carta do Papa Francisco de 6/08/2015). Observe-se a expressâo “paixão pelo cuidado da criação”. Não se trata de uma reflexão ou algum empenho meramente racional mas de algo mais radical, “uma paixão”. Invoca-se aqui a razão sensível e emocional. É ela e não simplesmente a razão que nos fará tomar decisões, nos impulsionará a agir com paixão e de modo inovador consoante a urgência da atual crise ecológica mundial.

O Papa tem consciência de que o cristianismo (e a Igreja) não está isento de culpa por termos chegado a esta situação dramática. Durante séculos pregou-se um Deus sem o mundo, o que propiciou o surgimento de um mundo sem Deus. Não entrava em nenhuma catequese o mandato divino, claramente assinalado no segundo capítulo do Genesis, de “cultivar e cuidar o jardim do Éden” (2,15). Pelo contrário, o conhecido historiador norte-americano Lynn White Jr ainda em 1967 (The historical Roots of our Ecologic Crisis, em Science 155) acusou o judeo-cristianismo com sua doutrina do domínio do ser humano sobre a criação como o fator principal da crise ecológica. Exagerou como a crítica o tem mostrado. Mas de todos os modos, suscitou a questão do estreito vínculo entre a interpretação comum sobre o senhorio do ser humano sobre todas as coisas e a devastação da Terra, o que reforçou o projeto de dominação dos modernos sobre a natureza.

O Papa opera em sua encíclica (nn. 115-121) uma vigorosa crítica ao antropocentrismo dessa interpretação. Entretanto, na carta de instauração do dia de oração com humildade suplica a Deus “misericórdia pelos pecados cometidos contra o mundo em que vivemos”. Volta a referir-se a São Francisco com seu amor cósmico e respeito pela criação, o veradeiro antecipador daquilo que devemos viver nos dias atuais.

Cabe concluir com as palavras do grande historiador Arnold Toynbee:”Para manter a biosfera habitável por mais dois mil anos, nós e nossos descendentes temos que esquecer o exemplo de Pedro Bernardone, (pai de São Francisco), grande empresário de tecidos no século XIII e seu bem-estar material e começar a seguir o modelo de Francisco, seu filho, o maior entre todos os homens que viveram no Ocidente…Ele é o único ocidental que pode salvar a Terra” (em ABC, Madrid 19/12/1972, p. 10).

Leonardo Boff é colunista do JB on-line e escreveu Opção Terra: a solução da Terra não cai do céu, Record 2010.

"...As coisas que saem de dentro da pessoa é que a tornam impura..." - Mc 7,1-8.14-15.21-23 - 30/08/2015

A melhor coisa, quando se corrompe, vira a pior.

Isso acontece com a Lei, dada por Deus a Israel mediante Moisés, quando deixada nas mãos de mestres que lhe desconhecem a intenção originária. A 1ª  leitura de hoje descreve muito bem o alto valor da Lei: um tesouro de sabedoria, que supera as leis e filosofias dos outros povos.

Diz direitinho o que é para fazer e para deixar. A Lei servirá para garantir a posse pacífica da Terra Prometida. E mais: servirá como um testemunho de Deus entre as nações, pois qual é o povo que tem um Deus tão sábio?

Esta última frase revela que essas palavras foram escritas, não no tempo de Moisés, mas no tempo em que Israel, novamente, vivia no meio das nações, no exílio babilônico. Para os judeus exilados, a “conversão” à prática da Lei seria o meio para voltar à Terra Prometida e, entretanto, já servia de testemunho entre as nações (cf. a vocação do Servo do Senhor a ser “luz das nações”, Is 42,6; também da situação do exílio).

Por isso, era importante observar a Lei da melhor maneira possível, sem nada tirar ou acrescentar, para não obscurecer a palavra divina por invenções humanas.

Para proteger a “árvore da vida”, que é a Lei, os escribas montaram ao redor dela a cerca de suas interpretações, tradições, jurisprudências etc. Querendo protegê-la, tomaram-na inacessível para o povo comum, e ainda a sufocaram na sua intenção principal, que é: ser a expressão do amor de Deus.

Para não cair no erro se proíbe uma série de outras coisas, porque “nunca se sabe … “. Traços disso existem ainda no judaísmo atual, onde a cozinha para a carne é separada da cozinha para as comidas com leite, pois poderia acontecer que, sem o saber, a gente cozinhasse carne numa panela com um restinho de leite do mesmo animal, e a Lei proíbe cozinhar um animal com seu leite …

O exagero se transformou em critério de boa conduta. Os fariseus inventaram que só os que observavam essas invenções exageradas eram realmente bons judeus. Os outros, que nem conheciam a Lei (e as suas interpretações), eram desprezíveis: os “ignorantes”.

Jesus escandaliza por seu comportamento (evangelho). Se ele fosse um verdadeiro “rabi”, ele deveria, em primeiro lugar, ver se as pessoas com quem lidava eram puras ou não. Pelo contrário: toca num leproso (Mc 2,41), deixa-se tocar por uma hemorrágica (5,27), presta ajuda a uma pagã (7,24-30).

Por trás da pergunta por que os discípulos de Jesus comem com as mãos “impuras” (não lavadas), está toda a crítica do farisaísmo à conduta global de Jesus. A resposta de Jesus é violenta: a religião dos fariseusé invenção humana, e não a vontade de Deus, o que ele demonstra com o exemplo dos votos feitos ao templo em detrimento dos próprios pais (7,8-13, infelizmente eliminado da perícope litúrgica). E mais: toda essa questão de puro e impuro é uma farsa, pois o que deve ser puro é o interior, do copo e da gente, não o exterior.

A podridão não é coisa de fora que entra na gente, como a comida, que sai novamente e vai à fossa (16-20, suprimido na liturgia!). A podridão está no coração da gente! Assim, Jesus não apenas declara todo alimento puro (19b), restituindo a criação de Deus, que fez as coisas boas (cf. At 10,15), mas ainda ensina ao homem olhar para dentro do próprio coração.

Jesus aqui demonstra espantosa liberdade face às tradições humanas, considerado o ambiente rígido em que vivia: o judaísmo lutando contra as influências estrangeiras, procurando conservar sua identidade, mediante a (exagerada) observância da Lei. Aos olhos dos “bons”, Jesus estava destruindo o povo de Deus. Coisa semelhante acontece hoje. Os que procuram garantir a “identidade”, não apenas dos cristãos, mas da “civilização cristã ocidental”, não admitem nenhum comportamento divergente das normas tradicionais que garantiram sucesso à cristandade.

E, contudo, para “restituir a Lei a Deus”, para fazer com que ela seja expressão do amor de Deus, talvez seja preciso me­xer com as tradições esclerosadas e com as estruturas sociais que sustentaram a cristan­dade tradicional juntamente com seu maior inimigo, a sociedade do lucro individual e do ateísmo prático.

O cristão deve sempre ter claro que só a Lei de Deus é intocável; as interpretações humanas, por necessárias que forem, não. Por isso, Jesus reduziu a Lei de Deus ao es­sencial: amor a Deus e ao próximo (nem mesmo o sábado sobrou no seu “resumo” … ). Quando nossas interpretações contrariam a causa de Deus, que é a causa do homem, estamos no caminho errado, no caminho dos fariseus.

E, por falar em vontade de Deus, não basta escutar sua formulação na Lei; é preci­so executá-la. Verdadeira religião não é doutrina, mas amor prático, para com os mais humildes em primeiro lugar; é o que nos ensina a 2ª leitura, de Tiago.

Do livro Liturgia Dominical, Johan Konings, SJ.. Editora Vozes
fonte: www.franciscanos.org.br

"Palavra dura de escutar"-Jo 6,60-69-23/08/2015

A opção por Cristo não um peso, mas uma libertação.

É uma escolha que exige deixar os muitos deuses. Josué continua na disposição de servir o Senhor.

Ao escolher Jesus, os discípulos são desafiados a um novo modo de vida a partir de Jesus. Isso exige fé e entrega. No ensinamento sobre o Pão da Vida, muitos dos discípulos que O escutaram disseram: “Esta Palavra é dura! Quem pode escutá-la?” O sentido dessa palavra (dabar), em hebraico, significa duro de compreender e de escutar.

É dura porque envolve ver e praticar. Era abominável para o judeu beber sangue e comer a carne de alguém. Em segundo, como aceitar que um homem como nós se põe como Deus? Vemos na prática que os cristãos mantêm a recusa dessas palavras duras e não se aproximam da Eucaristia. Pior, é tomar a Eucaristia sem perceber sua intensidade espiritual e a conseqüência humana.

Se eles se escandalizaram com o discurso do Pão da Vida, mais ainda se escandalizarão quando Jesus subir ao Céu. Como um homem pode ir ao Céu glorificado?  Jesus responde a esses questionamentos apresentando que o que se refere a Deus, somente se entende a partir do Espírito Santo. Afirma: “O Espírito é que dá vida, a carne não adianta nada” (Jo 6,63).

Somente o Espírito pode fazer-nos compreender que a Eucaristia, pão e vinho consagrados, são o Corpo e Sangue do Senhor Jesus em seu Mistério Pascal de vida, morte e ressurreição. Por isso Jesus ensina: “As palavras que digo são espírito e vida” (63). Ninguém pode vir a mim, a não ser que lhe seja concedido pelo Pai (65).
Até entre os discípulos mais próximos, os apóstolos, há os que não acreditavam apesar de tudo o que Jesus demonstrara.

Tu és o Santo de Deus

Ao ver que muitos se afastavam Dele, pergunta aos discípulos: “Vós também não quereis ir embora?” (67). Em nome de todos Pedro responde: “A quem iremos, Senhor? Só Tu tens palavras de vida eterna.

Nós cremos firmemente e reconhecemos que Tu és o Santo de Deus” (Jo 6,68-69). É a entrega de fé. É a resposta a todo o mistério da Eucaristia. Assim foram também as palavras de Josué: “Nós serviremos ao Senhor porque Ele é nosso Deus” (Js 24,18b) 

Nós imploramos para dar a mesma resposta: “Dai ao vosso povo amar o que ordenais e esperar o que prometeis, para que, na instabilidade deste mundo fixemos nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias”.

Deus não obriga a servi-Lo como diz Josué: “Se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se aos deuses a quem vossos pais serviram na Mesopotâmia ou aos deuses dos amorreus?” (Js 24,15).

Nosso Deus faz hoje a mesma pergunta não impondo, mas propondo um caminho. Atualmente vemos que muitos se afastam de Jesus como os discípulos e preferem se entregar a ideologias e aos muitos deuses que a sociedade fabrica.

Fruto da Eucaristia no amor

Reconhecemos que a Eucaristia tem uma força transformante: “Fazei agir em nós o sacramento do vosso amor, e transformai-nos de tal modo pela vossa graça que em tudo possamos agradar-Vos” (Pós comunhão).

Não basta receber a Eucaristia. É preciso coerência. Sem isso ela perde o sentido. Não basta por a santa Hóstia na boca, é preciso guardá-la no coração. Paulo, na Carta aos Efésios, orienta a vida dos casais para viver no amor como Cristo Se doa à Igreja e dela recebe a entrega total.

Família nasce da Eucaristia, pois não há amor matrimonial que não seja continuação do amor de Cristo. Como Cristo é um com a Igreja, o casal é unidade espiritual e carnal. São espelho do amor de Deus.

Pe. Luiz Carlos de Oliveira

Festa de Nossa Senhora da Assunção - 16/08/2015

A mulher toda gloriosa

Frei Almir Guimarães

Estamos acostumados a ver Maria mais vestida com trajes esplendorosos, cercada de anjos, com auréola dourada, quase sempre representada como uma habitante das alturas do que uma mulher da terra dos homens. Compreende-se. Ela é a Senhora da Glória.

Vale a pena ler esse texto de Pio XII na declaração do dogma da Assunção: “Desde toda a eternidade unida misteriosamente a Jesus Cristo, pelo mesmo desígnio de predestinação, a augusta Mãe de Deus, imaculada na concepção, virgem inteiramente intacta na divina maternidade, generosa companheira do divino Redentor, que obteve pleno triunfo sobre o pecado e consequências, ela alcançou ser guardada imune da corrupção do sepulcro, como suprema coroa de seus privilégios”. Assim, ela é a Senhora da Glória.

Necessário, no entanto, contemplar a singeleza humana dessa mulher ímpar que temos a alegria de chamar de nossa Mãe.

Uma mocinha de um canto perdido da Palestina, uma moça que fora criada na fé de seus pais e que deve ter tido forte influência da espiritualidade de Abraão, uma mulher que estava acostumada a olhar as nuvens dos céus que deveriam chover o Justo.

Dela se aproxima a força do Altíssimo, o Senhor chega na singeleza dessa Maria de Nazaré. Pede-lhe assentimento e quer associá-la ao seu desejo de mostrar aos homens seu amor através do Filho. Maria é escolhida para ser Mãe daquele que se tornou a luz do mundo, o pastor das ovelhas desgarradas, o transformador de nossa vida banal em vida plena. Essa mocinha dá seu assentimento.

Cuida do menino, vê o menino crescer, busca-o no templo, pede que ele seja razoável em suas afirmações porque pode morrer, está a seu lado em todos os momentos, sempre levando todas as coisas para o fundo do coração, sempre reiterando o sim do começo, corroborado de modo especial na hora da cruz quando a mãe ouve o Filho pronunciar a palavra do salmo: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. Mulher, simplesmente mulher, mulher mãe, mulher das coisas de todos os dias, mulher fiel… Mãe do Menino e Mãe de Deus.

E assim a Assunção de Maria é o dia glorioso em que ela foi elevada ao céu. Novamente Pio XI, na declaração do dogma: “Semelhantemente a seu Filho, uma vez vencida a morte, foi levada em corpo e alma à glória celeste, onde, rainha, refulge à direita de seu Filho, o imortal rei dos séculos”.

“Aurora e esplendor da Igreja triunfante, ela é consolo e esperança para o vosso povo ainda em caminho, pois, preservastes da corrupção da morte aquela que gerou de modo inefável vosso próprio Filho feito homem, autor de toda a vida” (Prefácio da Assunção de Maria).

(fonte: www.franciscanos.org.br)

Dia dos Pais - 09/08/2015

Dia dos Pais/2015 

Oração pelos Pais

Venho hoje a Ti, Senhor, pedir que estenda Tuas Mãos Divinas sobre todos os Pais, abençoando-os.

Abençoa, Senhor, o Pai amigo e companheiro, o Pai sempre presente, que oferece o colo e estende a mão, mas  também o Pai ausente colocando todo Teu Amor em seu coração.

Abençoa, Senhor, o Pai que hoje recebe o abraço de seus filhos e o Pai que chora a ausência do filho que partiu para Teus braços. Dai-lhe o consolo da mansa saudade e enxuga, com Teu Divino Manto, as lágrimas que vertem de seus olhos.

Estenda, Senhor, Tuas mãos de Amor sobre todos os Pais, concedendo a eles os dons da paciência, compreensão, tranqüilidade, ternura, justiça, fé na vida  e em seus filhos, e Amor, muito Amor, para que cada filho seja, para seu pai, um pai, e para que cada pai seja, para seu filho, um filho.

E aos filhos, cujos Pais estão junto a Ti, dai a Fé e o entendimento de que os Pais  nunca vão embora... Eles apenas mudam de lugar...

Amém. FELIZ DIA DOS PAIS.

Festa da Porciúncula - 02 de agosto de 2015

Clique na imagem abaixo para acessar o conteúdo sobre a Festa de Nossa Senhora dos Anjos (também chamada de Porciúncula). Preparado por Por Frei Régis Daher, OFM.
http://www.franciscanos.org.br/?p=19242 

«Este é mesmo o Profeta que devia vir ao mundo.» - Jo 6,1-15 - 26/07/2015

O pão da multidão e a voz da Igreja

Em certa sociedade é comum ouvir-se críticas à ação social da Igreja e, muito mais, às suas declarações sobre a política econômica. Julga-se que a Igreja não deve tocar em assuntos “temporais”,  mas ocupar-se com o “espiritual”. Mas a violência, a impunidade, a falta de saúde e educação, a fome de grande parte da população não dizem respeito ao Reino de Deus que Jesus veio anunciar e inaugurar e que a Igreja pretende atualizar?

No domingo passado, Mc descreveu a chegada de Jesus diante da multidão: compadeceu-se deles, porque eram como ovelhas sem pastor. E começou a ensinar, com a conseqüência de que, no fim do dia, teve de alimentar a multidão. Hoje, para descrever esse gesto, a liturgia prefere dar a palavra ao evangelista João (evangelho), porque nos domingos seguintes vai continuar o “sermão do Pão da Vida”, que não está em Mc.

A maneira em que João apresenta a multiplicação dos pães salienta que Jesus não agiu surpreendido pelas circunstâncias (a hora avançada), mas porque ele quis apresentar pão

ao povo (Jô 6,5-6) – para depois mostrar qual é o verdadeiro “pão”. Se em Mc Jesus manda os discípulos distribuir o pão (exemplo para a Igreja), João diz que Jesus mesmo o distribui, para acentuar que o pão é o dom de Jesus. E, no fim, João menciona que o povo quer proclamar Jesus rei (messias), mas Jesus se retira, sozinho, na região montanhosa (Jô 6,14-15).

Este último traço é muito significativo. Jesus não veio propriamente para distribuir cestas básicas e ser eleito prefeito, para resolver os problemas materiais do povo. Isso é apenas um “sinal” que acompanha sua missão. Para resolver problemas materiais do povo há  meios à disposição, desde que as pessoas ajam com responsabilidade e justiça. Mas para que isso  aconteça, é preciso algo mais fundamental: que conheçam o Deus de amor e justiça que se  revela em Jesus. E é para isso que Jesus vai pronunciar o sermão do Pão da vida, como veremos nos próximos domingos.

A preocupação social da Igreja deve pautar-se por essa linha. Para resolver os problemas econômicos e sociais não é preciso vir o Filho de Deus ao mundo. Os meios estão aí. O Brasil é rico; é só ter pessoas justas, sensíveis às necessidades do povo, para bem gerenciar essa riqueza. Mas a missão da Igreja é em primeiro lugar colocar os responsáveis diante da vontade de Deus, como Jesus fez. E criar uma comunidade em que as pessoas vivam como Jesus ensinou.

Isso não significa pregar ingenuamente a “boa vontade”, sem fazer nada que obrigue as pessoas a pô-la em prática. Somos todos filhos de Adão, portadores de pecado desde a origem. Quem diz que não tem pecado fala mentira (1Jo 1,8-10). A boa vontade de usar bem os meios econômicos segundo a justiça social precisa de leis que funcionem, de mecanismos econômicos e de “estruturas” que os reproduzam, para amarrar essa boa vontade e realizações concretas. Não é o papel da Igreja inventar e implantar tais mecanismos, assim como Jesus não se transformou em fornecedor de pão e de bem-estar. Mas a Igreja tem de mostrar o rosto de Deus, que é Pai de todos e deseja que nos tratemos como irmãos. E para isso ela não pode deixar de apontar quais são as responsabilidades concretas.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
(fonte: www.franciscanos.org.br)

"... ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro..." Mc 6,7-13 - 12/07/2015

Jesus chamou os doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois. Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros”. O apelo dos Apóstolos está ligado ao seu envio, à sua missão.

Serem os companheiros de Jesus, não para ficarem abrigados perto d’Ele, mas para serem enviados como suas testemunhas até aos confins da terra.

Ele envia-os dois a dois. Sem dúvida, porque na altura um testemunho só era reconhecido como autêntico se levado por duas testemunhas. Mas, mais profundamente, Jesus veio para colocar os homens na “circulação do amor”.

Deus criou os homens para serem à sua imagem. Como “Deus é Amor”, os homens serão imagens de Deus na medida em que construírem juntos relações de amor fraterno.

Ora, eles recusaram isso. O espírito do mal é chamado de diabo, aquele que divide em vez de unir. Jesus veio para acabar com a divisão. Ele é aquele que reconcilia os homens com Deus e entre si. Eis porque Jesus envia os Apóstolos dois a dois: para que sejam primeiramente, pelo seu comportamento e pela sua vida, testemunhas desta obra de reconciliação.

A salvação nunca é individual, é colocada na relação dos homens entre si, no movimento de amor de Deus. A missão dos Apóstolos é, pois, de lutar contra o mal que divide e corrompe. Então, compreendemos melhor porque Jesus dá conselhos de pobreza. Encher-se de riquezas materiais é arriscar cair na armadilha da possessão egoísta, é entrar no círculo infernal da vontade de poder, da inveja.

É centrar-se sobre si mesmo em lugar de dar lugar aos outros. É obscurecer o seu olhar interior e não ser mais suficientemente disponível para acolher o outro. É sempre válido para todos os batizados cuja missão é serem testemunhas da Boa Nova no coração do mundo!

Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos).
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