"Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!" - 25/01/2015 - Mc 16,15-18

Nos domingos do Tempo Comum, a cada ano, a Igreja proclama um dos três Evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). Neste ano, temos a oportunidade de ler e meditar, com a Igreja, o Evangelho segundo Marcos. O texto, hoje proclamado (Mc 1,14-20), nos apresenta os inícios da pregação de Jesus, anunciando a chegada do Reino. “O tempo já se completou!”.  Por isso, como resposta a essa boa nova, todos são chamados a crer e a converter-se. A fé e a conversão andam juntas. 

Na primeira leitura, a brevidade do tempo é ressaltada, conforme a expressão “dentro de quarenta dias”, empregada por Jonas (Jn 1,4). O povo de Nínive, cidade que muitos consideravam condenada por seus pecados, se converte e faz penitência diante da pregação do profeta Jonas, obtendo, assim, o perdão de Deus. Nesta perspectiva de urgência, colocam-se também as palavras de São Paulo, afirmando que “o tempo está abreviado” (1Cor 7,29) , exortando ao desapego das coisas passageiras deste mundo.

Deus continua a olhar para o seu povo, hoje, com compaixão, esperando o arrependimento dos pecados e a conversão sincera. A recusa da conversão e do perdão de Deus continua a gerar a violência, a injustiça e a morte. Ao contrário, os que reconhecem seus pecados, buscam o perdão e se dispõem à conversão, fazem a experiência da vida nova dos discípulos de Cristo feita de amor, de alegria e de paz.

Os discípulos são os primeiros a acolher a boa nova, fazendo a experiência da conversão e da fé, dispondo-se a seguir a Cristo. No relato do chamado aos primeiros discípulos, Marcos destaca a iniciativa de Jesus, isto é, o discipulado como dom ofertado, como sinal da gratuidade do amor de Deus. É Jesus quem se dirige aos primeiros discípulos e os chama para segui-lo.

A resposta dos discípulos ao chamado exprime aquilo que jamais poderá faltar aos discípulos de todos os tempos: a pronta disponibilidade. Eles deixaram “imediatamente” as redes para seguir Jesus. Tal disponibilidade brota da fé, que vai se iluminando e amadurecendo ao longo do caminho. A resposta à conversão, assumindo a condição de discípulo, deve ser motivada pelo reconhecimento de que Deus é “ternura, compaixão, misericórdia e bondade sem limites”, conforme o Salmo 24, hoje meditado.

A missão de anunciar o Evangelho continua na Igreja. Somos chamados a fazer a experiência do discipulado em comunidade. A Igreja necessita de discípulos em comunhão, com o coração missionário, capaz de levar a todos, especialmente aos que mais sofrem, a boa nova da chegada do Reino.

+ Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília

"Encontramos o Messias" - 18/01/2015 - Jo 1,35-42

Após as santas festas do Tempo do Natal do Senhor, iniciamos o Tempo Comum. Terminada a primeira semana deste tempo em que os paramentos são de cor “verde”, entramos agora no Segundo Domingo chamado Comum: comum do dia-a-dia, da vida miúda, vivida na presença do Senhor que está sempre presente na sua Igreja, na potência do seu Espírito Santo, dando vigor à Palavra e eficácia aos sacramentos. Em nossa Arquidiocese, estamos vivendo a Trezena de São Sebastião com a peregrinação da réplica da imagem, trazida há 450 anos por Estácio de Sá para a fundação de nossa cidade, em nossas comunidades (capelas e paróquias), organismos oficiais, militares, organizações sociais (de crianças, idosos, saúde, culturais) e em todos os recantos de nossa amada Igreja Metropolitana.

A Escritura que escutamos neste Domingo fala-nos de um Deus que chama, que entra na nossa vida e nos dirige o seu apelo. Foi assim com Samuel que, novinho, sequer sabia reconhecer a voz do Senhor; foi assim com os primeiros discípulos, traspassados pela palavra do Batista que, apresentando o Cordeiro de Deus, quase que forçava aqueles dois, André e Tiago, a seguirem Jesus. E lá vão eles: “Rabi, onde moras? Onde tens tua vida?” E Jesus os convida: “Vinde e vereis! Somente se tiverdes a coragem de virdes comigo, de comigo permanecerdes, podereis ver de verdade!” Não é impressionante, quase que inacreditável, caríssimos, que Deus nos conheça pelo nome, que o Senhor nos chame e nos queira parceiros seus no caminho da vida? E, no entanto, é assim! Também nós somos conhecidos pelo nome; nossos passos, nosso coração, nossas vidas são conhecidas pelo Senhor... E ele nos chama com amor. A nós, que estamos procurando a felicidade e a realização na vida, o Senhor também dirige a pergunta: “O que estais procurando”? Vinde, caríssimos, fiquemos com o Senhor e encontraremos aquilo que nosso coração procura, aquilo que faz a vida valer a pena.

O início da vida pública de Jesus, o começo de sua missão, é marcado pelo chamamento (VOCAÇÃO) dos primeiros discípulos. O Evangelho (Jo 1, 35-42) nos fala da vocação de João e André. O chamado nasce do testemunho de João Batista, que aponta Jesus presente entre o povo: “Eis o cordeiro de Deus”. E segue aquela cena comovente. Jesus volta-se para eles e pergunta: “Que estais procurando”? Disseram: “Rabi, onde moras”? Disse-lhes: “Vinde e Vede”. Eles foram e viram onde morava e permaneceram com Ele aquele dia. O encontro causou tal impressão que o evangelista nunca mais esqueceu a hora.

A experiência do encontro com Cristo faz de André, um dos dois que O haviam seguido, um apóstolo: Encontrou seu irmão Simão e lhe disse: “Encontramos o Messias”. Ele o conduziu a Jesus. Coisa maravilhosa! André conduz Pedro a Jesus. A experiência do convívio com Jesus transforma as pessoas em apóstolos! Todo Cristão, de acordo com o seu estado de vida, é chamado a seguir Jesus, à santidade, ao apostolado.

Será que nossa experiência de encontro com Cristo, o Messias, é tão forte que sejamos capazes de conduzir outras pessoas a Jesus? Cada Domingo deveria repetir-se esta experiência do nosso encontro com Jesus Cristo, na Eucaristia, na escuta da Palavra, no encontro com os irmãos. A Liturgia, além da vocação dos primeiros discípulos, apresenta-nos a vocação de Samuel (1Sm 3, 3-10. 19). No silêncio da noite, Samuel se encontra com Deus que o chama.

Mas, esse “estar com o Senhor”, esse “permanecer com ele”, que é o início da própria vida eterna já neste mundo, não pode se dar sem que realmente sejamos de Cristo com todo o nosso ser, corpo e alma. Aqui aparece com toda clareza a urgência e atualidade da advertência de São Paulo feita aos coríntios e a nós. Corinto era uma cidade particularmente devassa do Império Romano. E, como hoje, os cristãos eram tentados a “corintiar”, a entrarem na onda, achando tudo normal, moderno e compatível com a fé. O Apóstolo, em nome de Cristo, desmascara essa ilusão, tão comum entre os cristãos de hoje.

Ouçamo-lo! É a Palavra de Deus que nos ilumina, liberta e nos salva... Ouçamo-la! “O corpo não é para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo”! Eis cristão: teu corpo pertence ao teu Senhor Jesus Cristo, que nele habita pela potência do seu Espírito Santo desde o dia do teu Batismo: “Porventura ignorais que vossos corpos são membros de Cristo? Ou ignorais que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que habita em vós e que vos é dado por Deus? E, portanto, ignorais que não pertences a vós mesmos? Então, glorificai a Deus em vosso corpo”! Compreendes, cristão! Tu pertences a Cristo, tu és sagrado porque no Batismo foste consagrado pelo Espírito de Cristo que habita em ti! Teu corpo foi lavado pela água, símbolo do Santo Espírito, foi ungido pelo óleo batismal, sinal da graça de Cristo, foi ungido pelo santo Crisma, sinal da força e da energia do Espírito de Cristo; teu corpo foi alimentado com o Corpo do Senhor... Teu corpo é sagrado; cristão, teu corpo é santo, teu corpo pertence ao Senhor! “Portanto, ignorais que não pertenceis a vós mesmos? Então, glorificai a Deus em vosso corpo!” Solteiro ou casado, todos nós temos o dever sagrado, o dever de amor de fugir da imoralidade.

À medida que o paganismo avança, perde-se o sentido cristão do corpo e da sexualidade! Tem-se a idéia de que o corpo é para o prazer, para a satisfação da libido; pensa-se que o corpo é uma coisa, um objeto de prazer, que a bel prazer pode ser usado... Isso pensam os pagãos; isso vivem os pagãos. Nós sabemos que não é assim: “O corpo é para o Senhor e o Senhor é para o corpo...” para este corpo, que será ressuscitado para a glória de Cristo!

Que neste domingo que antecede a festa do padroeiro São Sebastião, reflitamos sobre o chamado de Deus que marca nossa vida, e que aprendamos com o Mestre a discernir e responder sim, para que ela seja sempre mais coerente com o Evangelho e sejamos testemunhas da esperança!

Cardeal Orani João Tempesta   
Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro

Epifania do Senhor - Festa de Reis - Dia 06 de Janeiro de 2015

Acompanhe a Homilia do Papa Francisco, neste dia 06 de Janeiro de 2015.
Vertida para o Português pela Rádio Vaticano.