Domingo do Bom Pastor - Jo 10,11-18 - 26/04/2015

O Bom Pastor dá sua vida!

O tema central da liturgia de hoje (evangelho) é a alegoria do Bom Pastor (como sempre no 4° domingo pascal).

Na primeira parte da alegoria, lida no ano A, Jo comparou Jesus com a porta do redil, porta pela qual entra o pastor e pela qual sai o rebanho conduzido pelo pastor.

Quem não entra pela porta que é Jesus não é pastor, mas assal­tante. Na segunda parte, lida hoje, Cristo é o próprio pastor, em oposição aos mercenários: imagens tomadas de Ez 34.

Os mercenários não dão sua vida pelo rebanho. Jesus, sim. Todo mundo entende esta comparação. O sentido é obvio: Jesus deu, na cruz, sua vida por nós.

Para Jo, porém, ela esconde um sentido mais profundo: a vida que Jesus dá não é apenas a vida física que ele perde em nosso favor, mas a vida de Deus que ele nos comunica (exatamente ao perder sua vida física por nós).

Esta idéia constitui a ligação com a imagem precedente (a porta): em Jo 10,10b, Jesus diz que ele veio para “dar a vida”, e dá-la em abundância; e continua, em 10,11, apontando sua própria vida como sendo esta vida em abundância que ele dá. Nos v. 17-18 aparece, então, que ele dá essa vida com soberania divina (ele tem o poder de retomá-la; ninguém lha rouba): doando-se por nós, nos faz participar da vida divina, porque entramos na comunhão do amor de Jesus e daquele que o enviou (estas idéias são elaboradas em Jo 14-17, esp. 15,10.13; 17, 2.3.26 etc.).

A vida que Jesus nos dá é o amor do Pai, que nos faz viver verdadeiramente e nos torna seus filhos. Já agora temos certa experiência disso, a saber, na prática deste amor que nos foi dado.

Mas essa experiência é ainda inicial; manifestar-se-á plenamente quando o Cristo for completamente manifestado na sua glória: então, seremos seme­lhantes a ele. Desde já, nossa participação desta vida divina nos coloca numa situação à parte: na comunidade do amor fraterno, que o mundo não quer conhecer e, por isso, re­jeita (1Jo  3,lc). É a “diferença cristã” (2ª  leitura).

Porém, a diferença cristã não é fechada, mas aberta. É uma identidade não au­to-suficiente, mas comunicativa. Jo insiste várias vezes neste ponto: Jesus é a vítima de expiação dos pecados não só de nós, mas do mundo inteiro (1Jo 2,2); Jesus tem ainda outras ovelhas, que não são “deste redil” (10 10,16).

O amor, que é a vida divina comunicada pelo Pai na doação do Filho, verifica-se na comunidade dos fiéis batizados, con­fessantes e unidos. Mas não se restringe a essa comunidade. Não só porque existem ou­tras comunidades, mas porque a salvação é para todos.

A atuação dos primeiros cristãos em Jerusalém (1ª  leitura) deve ser entendida neste mesmo sentido. Formam uma comunidade que, sociologicamente falando, pode ser caracterizada como seita.
Porém, não é uma seita auto-suficiente, mas transbordan­te de seu próprio princípio vital, o “nome” de Jesus Cristo (= toda a realidade que ele representa). Quando um aleijado, na porta do templo, dirige a Pedro seu pedido de aju­da, este comunica-lhe o “nome” de Jesus (At 3,6). Daí se desenvolve todo um testemu­nho (narrado na liturgia de domingo passado). Este testemunho leva à intervenção das autoridades, sempre desconfiadas dos pequenos grupos testemunhantes. Pedro e João são presos e levados diante do Sinédrio, que pergunta em que nome eles agem assim.

“No nome de Jesus Cristo Nazareno, crucificado por vós, mas ressuscitado por Deus … Em nenhum outro nome há salvação, pois nenhum outro nome foi dado sob o céu por quem possamos ser salvos” (At 4,10-12; cf. Jo 17,3: “A vida eterna é esta: que te conheçam … e àquele que tu enviaste”). É essa a conclusão do sinal do aleijado da Porta Formosa: a cura que lhe ocorreu significava a “vida” em Jesus Cristo.

Esta deve também ser a conclusão de todo agir cristão no mundo: dar a vida de Cristo ao mundo, pelo testemunho do amor. Tal testemunho convida a participar do amor do qual Jesus nos fez participar, dando sua vida “por seus amigos”. Isto é pastoral.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
fonte: www.franciscanos.org.br

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