"o Espírito do Senhor está sobre mim..." - Lc 1,1-4;4,14-21 - 24/01/2016

Lucas narra a atividade de Jesus com jeito de historiador. Não no sentido moderno da palavra – homem de escavações e bibliotecas -, mas no sentido antigo: alguém que sabe contar os fatos de modo que a gente os possa imaginar. Não existiam as atuais exigências da historiografia, a documentação consistia principalmente em depoimentos orais, recolhidos de modo empírico. Mesmo assim, Lucas colecionou os dados a respeito de Jesus, para dar um embasamento sólido à fé de seus contemporâneos, lá pelos anos 80 d.C., para mostrar-lhes melhor quem foi e o que fez Jesus de Nazaré.

Como bom narrador, Lc imagina Jesus iniciando sua pregação lá na sua terra, em Nazaré, na reunião de sábado na sinagoga (*). Os adultos podiam comentar a Lei a partir de um texto profético. Jesus abriu o rolo do profeta Isaías, no texto que fala da missão do mensageiro de Deus para instaurar a verdadeira justiça e liberdade, pelo fim da opressão e a realização de um ano sabático ou jubilar, para restituição dos bens aliena­dos, com vistas a um novo início de uma sociedade realmente fraterna, como convém ao povo de Deus (cf. Dt 15).

Proclamando que esta profecia se realiza no presente momento, “hoje”, Jesus: 1) se identifica como porta-voz estabelecido (“ungido”) por Deus e impulsionado por seu es­pírito (força e iluminação), para levar a “boa-nova” aos oprimidos; 2) anuncia o início de uma nova situação da comunidade, restaurada conforme a vontade de Deus: o tem­po messiânico. Nenhuma das duas coisas é muito evidente … O pronunciamento de Je­sus provocará uma reação negativa do povo (que será narrada no próximo domingo). Hoje, portanto, ficamos com a “declaração de programa” de Jesus: instaurar a realida­de messiânica.

Por trás disso está toda uma história. Fazia muito tempo que se sonhava com um “ano de restituição”. Textos como Ne 5 nos mostram que o ano de restituição era uma necessidade desde muitos séculos, mas a Bíblia não conta que alguma vez tenha sido realizado. Era uma utopia. Jesus pretendia realizar a utopia? Ele queria converter as pessoas a Deus, mas a conversão se devia comprovar por sinais exteriores, e a realiza­ção da velha utopia do ano de restituição seria um sinal muito eloqüente.

A 1ª leitura fornece um pouco de “cultura bíblica”, necessária para imaginar os costumes e sentimentos do judaísmo pós-exílico referentes à leitura da Lei. Mostra o protótipo do culto sinagogal: a leitura da Lei. (A figura central, Esdras, contemporâneo de Neemias, pode ser considerado como o “pai do judaísmo”, quando, depois do exílio babilônico, as famílias de Judá voltam ao distrito de Jerusalém.)

Uma mensagem própria traz a 2ª leitura: a alegoria do corpo e dos membros. Essa alegoria, Paulo a aprendeu na escola: pertence à cultura greco-romana (fábula de Me­nênio Agripa). Paulo a aplica à Igreja: nenhum membro do corpo pode dizer a outro que não precisa dele. E, com certo humor (que desaparece na versão abreviada), fala também dos membros mais frágeis, que são circundados com cuidados maiores – alu­são aos capítulos iniciais da 1 Cor, onde Paulo critica os partidarismos e ambições que dividem a igreja de Corinto e lembra que Deus escolheu o que é fraco e pequeno neste mundo (1,26; cf. dom. próximo).

Existe na Igreja legítima diversidade, desde que se realize a necessária unidade: o pluralismo. O Espírito de Cristo revela-se, nos fiéis, de muitas maneiras: as diversas funções na comunidade, os diversos modos de expressar a consciência de sua fé, as di­versas “teologias” fazem parte desta multiplicidade de órgãos, que constitui o corpo. Ninguém precisa reunir em si todas as funções e toda a teologia (12,30). Importa que todos contribuam para a edificação do único “corpo” de Cristo neste mundo – e corpo significa, biblicamente, o estar presente e atuante.

(*) Lembramos que Mt evoca como primeira pregação de Jesus logo o Sermão da Montanha, ain­da enriquecido com discussões sobre diversos pontos da Lei. A intenção de Mt é catequética: para conhecer o ensinamento de Jesus cabe começar pela instrução fundamental do cristão.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
(fonte: http://www.franciscanos.org.br)

Vida nova para os homens - Jo 2,1-11 - 17/01/2016

Entre Deus e o povo do Antigo Testamento, Israel, existia um pacto, uma aliança, como se fosse um casamento. Mas Israel foi infiel: por causa de presumidas vantagens materiais, correu atrás dos deuses dos povos pagãos. Isso se chama prostituição. O resultado foi que Israel caiu nas mãos desses estrangeiros. Foi levado ao cativeiro, na Babilônia: era o seu castigo. Mas agora, o profeta anuncia, em nome de Deus, a salvação. Deus vai acolher de novo sua esposa infiel, proclama a 1ª leitura.

No evangelho, Jesus, introduzido por sua mãe, torna-se presente numa festa de casamento. Na Palestina, quem oferecia a festa de casamento era o próprio noivo; mandava e desmandava. Mas, no fim da festa, sem que os convidados e nem mesmo o noivo se deem conta, Jesus toma o comando e faz servir, milagrosamente, o “vinho melhor”. É ele o verdadeiro esposo do fim dos tempos, oferecendo a abundância do vinho da alegria a quantos comparecem à sua festa (cf. Jl 14,18; Am 9,13).

Nós sentimos dificuldade em conceber a vida cristã como um casamento. Talvez porque hoje é difícil conceber um casamento de verdade … Casamento é questão de fé e de compromisso. A alegria da união amorosa para sempre não é fruto apenas de sentimentos espontâneos. Devemos crer que nossa fidelidade a Deus e Jesus Cristo é duradoura aliança de amor, que nos proporciona felicidade mais profunda do que o mais perfeito matrimônio. E para isso precisamos nos deixar amar, gostar de que Deus goste de nós. Então faremos tudo para sermos amáveis para Deus e para os seus filhos. E isso não só individualmente, mas antes de tudo como povo, como comunidade.

Será que fazemos o necessário para que a comunidade dos fiéis seja uma noiva radiante para Cristo? Quando vivermos realmente o que Cristo nos ensina, não há dúvida que a fé e comunidade cristã serão uma alegria, um preparar-se para corresponder sempre melhor a amor que Cristo nos testemunhou. Na dedicação aos nossos irmãos encarnamos o nosso amor e afeição a Cristo, que é fiel para sempre.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
(www.franciscanos.org.br)