MENSAGEM DE DOM TARCÍSIO PARA A QUARESMA/2016

Mensagem de Dom Tarcísio Scaramussa
Bispo Diocesano de Santos, para a QUARESMA/2016

A preparação para a Páscoa inicia-se na quarta-feira de Cinzas, e dura todo o tempo da Quaresma, até a Missa da Ceia do Senhor, que já marca o início do Tríduo Pascal.

Assim como Jesus começou sua pregação anunciando o Reino e convidando à conversão, este é um tempo de anúncio da Boa-nova, de penitência ou conversão evangélica, que acentua a dimensão batismal de nossa vida.

O reencontro com o Senhor será celebrado com intensa alegria na Festa da Páscoa. A Quaresma se abre com o convite de Deus na boca do profeta Joel: “Voltai para mim de todo o coração” (Jl 2,12).

A Quaresma é o tempo em que os catecúmenos se preparam para o Batismo, e os batizados renovam seus compromissos batismais. É tempo forte de conversão e de renovação interior, uma voltar-se completamente para o Senhor, experimentar sua misericórdia e endireitar o caminho de nossa vida.

Assim poderemos viver a libertação do pecado e da morte, e viver a nova vida, como nova criatura no Senhor Ressuscitado. Isto é a nossa Páscoa. O distanciamento de Deus se manifesta em nossa vida pessoal pela fechamento em nós mesmos, em nossos pequenos interesses, em nossas fraquezas e infidelidades, em nossa acomodação e falta de entusiasmo em assumir o caminho do discipulado e da missão como cristãos.

Por isso, a Igreja faz ressoar novamente o convite insistente de Deus, nas palavras do Apóstolo Paulo: “Deixai-vos reconciliar com Deus”... “Este é o tempo favorável, o tempo de salvação (2 Cor 5,20. 6,2). O caminho da regeneração social passa pela transformação de nosso ser e é facilitado por algumas práticas que nos aproximam de Deus e de seu coração.

É importante intensificá-las neste tempo da Quaresma, e são: o jejum, a oração e a esmola. Mas Jesus nos orienta que só terão efeito se forem expressão de nossa conversão interior e de nossa comunhão com Deus: “E o teu Pai, que vê no escondido, te dará a recompensa” (Mt 6, 4). Não precisamos praticá-las para merecer o perdão misericordioso de Deus, mas necessitamos delas para mergulharmos no mistério pascal de Cristo.

 A Igreja nos convoca neste ano à conversão e ao empenho para cuidarmos melhor da natureza, através da Campanha da Fraternidade Ecumênica que tem como tema a “Casa comum, nossa responsabilidade”, e como lema “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca! (Am 5,24).

As barragens de Mariana ainda não se haviam rompido, e a Igreja já tinha preparado, juntamente com as Igrejas que integram o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) a nova Campanha da Fraternidade para este ano de 2016.

O desastre do rompimento das barragens tornou-se um episódio a mais a clamar pela responsabilidade de todos nós. E não nos esqueçamos dos incêndios na Ultracargo (Santos), e na Localfrio (Guarujá)!

Embora se proponha a trabalhar para garantir a integridade e o futuro de nossa Casa Comum, a CF 2016 tem um foco mais concreto no Saneamento Básico. Este envolve muitas questões, como “os serviços públicos de abastecimento de água, o manejo adequado dos esgotos sanitários, das águas pluviais, dos resíduos sólidos, o controle de reservatórios e dos agentes transmissores de doenças”.

Na primeira leitura da liturgia da quarta-feira de Cinzas, o profeta Joel fala de uma terra invadida por gafanhotos. É interessante reler nesta ótica também a realidade que vivemos, com a infesta- ção de mosquitos e de doenças como a dengue, a chikungunya e o zika virus. É uma imagem da devastação e do mal que o pecado provoca, no caso, considerando também os efeitos do mal na natureza mal cuidada por nós humanos.

Embora os datos estatísticos relativos a algumas cidadas da Baixada Santista estejam entre os melhores do Brasil, a região convive com grandes problemas especialmente nas periferias, onde a situação da população não é diferente de outras partes carentes do país.

“Os últimos dados do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento Básico – base 2013) mostram que pouco mais de 82% da população brasileira tem acesso à água tratada. Mais de 100 milhões de pessoas no país ainda não possuem coleta de esgotos e apenas 39% destes esgotos são tratados, sendo despejados diariamente o equivalente a mais de 5 mil piscinas olímpicas de esgoto sem tratamento na natureza” (CF, n. 40).

A Campanha nos orienta a atuarmos coletivamente em favor da elaboração, implementação e acompanhamento dos Planos Municipais de Saneamento Básico (PMSB). As responsabilidades são coletivas, mas diferenciadas. Ao Poder público cabe a tarefa de realizar as obras de infraestrutura, garantir a limpeza do espaço público e fazer a coleta seletiva do lixo. Todos nós temos a responsabilidade, enquanto cidadãos e cidadãs, de cuidarmos do espaço onde moramos, de não jogar lixo na rua, de zelar pelos bens e espaços coletivos (Cf. CF, n. 168).

Esta Campanha nos permite aprofundar o conteúdo e a vivência da Encíclica Laudato Sì do Papa Francisco. A ação consciente e responsável é fruto também da educação ambiental, para a formação de uma nova consciência social e de ecologia integral comprometida com a preservação da natureza e das gerações futuras.

A conversão expressa nestas formas concretas dará um sentido novo à celebração da Páscoa, vida nova no Senhor Ressuscitado. Crianças nascendo sem microcefalia serão sinal expressivo da Páscoa do Senhor.
(FONTE: Jornal Presença Diocesana Fev/2016)