Não perdereis um só fio de cabelo de vossa cabeça... (Lc 21,19) - 13/11/2016

Ao longo de todo este ano da vida da Igreja que está para terminar tivemos a companhia do evangelista Lucas e fomos formados pelas páginas de seu escrito. Neste domingo, o terceiro evangelista coloca diante de nossos olhos a temática dos últimos tempos, dos tempos derradeiros do mundo e também de cada um de nós. Escritas em estilo apocalíptico, estas páginas são extremamente difíceis de serem interpretadas.

Pessoas que acompanhavam Jesus exprimiram sua admiração pela beleza do templo. “Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído”. Os ouvintes querem saber quando tal se dará. Jesus não data nem hora. Dá a entender, isto sim, que é preciso perseverar no meio das contradições.

A vida da comunidade cristã e de cada discípulo é provada, experimentada, submetida a crises de toda sorte. O caminho dos seguimento de Jesus exige audácia, coragem, força, revisões de vida, replanejamento. Há dias de tempestade, semanas de bonança e tempos de incertezas. Há uma porta estreita a ser ultrapassada.

Há essas crises pessoais, normais que acontecem na vida de todos e também no campo da fé. Houve os começos de enamoramento do Senhor vividos, quem sabe, com muita confiança e sabor. Depois se instalou a rotina, a mesmice e dúvidas não tanto intelectuais, mas existenciais foram espocando. Não conseguimos mais ver a “beleza do templo”. Vemos em nossos tempos tantos que, devido a uma precária catequese, foram deixando a prática da fé e começaram a se dar conta da insignificância ou mesmo fragilidade da fé e da Igreja. Há destruições dentro de nós. Há paredes que caem. Há uma diminuição da presença de fiéis nas missas dominicais. Talvez não exista uma rejeição expressa mas nota-se uma indiferença não confessada para com as coisas da fé. Há forte diminuição de candidatos para a vida consagrada.

Há esse mundo todo de tantas coisas belas e grandes, mas também de tantas misérias. Tantos anos de cristianismo e não conseguimos reverter situações de violência, crueldade, pisoteio dos mais fracos. Catástrofes com tintas apocalípticas e terroristas. Não fica pedra sobre pedra. A terra se exaure, as águas secam, as chuvas matam, a seca esteriliza, o pai abusa da filha, há casamentos “legalizados” de uma mulher com dois maridos na mesma casa. E os discípulos de Cristo se sentem perplexos. Parece que não fica pedra sobre pedra.

Um mundo novo pode estar se desenhando no horizonte. Há coisas sendo gestadas em todos os campos: na família, na paróquia, na escola, na educação, na transmissão da fé aos filhos, na aproximação das religiões. Preciso será dar tempo ao tempo.

Será fundamental dar com coragem testemunho de fé. Não uma fé expressa com palavras que ninguém entende, mas dita de tal forma que as pessoas sintam a solidez de nosso projeto de vida. “Essa será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé. Fazei o firme propósito de não planejar com antecedência a própria defesa, porque eu vos darei palavras tão acertadas, que nenhum dos inimigos vos poderá resistir e rebater”.

Será perseverando pacientemente que, nos desafios da vida, os discípulos ganharão a vida. José A. Pagola assim descreve com toda propriedade a paciência: “A paciência de que fala o Evangelho não é propriamente uma virtude dos homens forte e aguerridos. É antes atitude serena de quem crê num Deus paciente e forte que alenta e conduz a história, às vezes tão incompreensível para nós, com ternura e amor compassivo. A pessoa animada por esta esperança não se deixa perturbar pelas tribulações e crises dos tempos. Mantém o ânimo sereno e confiante. Seu segredo é a paciência fiel de Deus que, apesar de tanta injustiça absurda e tanta contradição, continua sua obra até cumprir suas promessas (…). A pessoa paciente não se irrita nem se deixa deprimir pela tristeza. Contempla a vida com respeito e mesmo com simpatia. Deixa os outros serem, não antecipa o julgamento de Deus, não pretende impor sua própria justiça” (Pagola, Lucas, p. 331).

“É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!”

O que vem a ser dar um testemunho de fé?

• Fidelidade renovada a cada dia: renovação do morrer e renascer para Deus. Experimentar esse paradoxo de morte e vida.
• Nutrir uma consciência delicada e alimentar uma amizade pessoal para com o Senhor. Coração contrito e buscar a intimidade com o Senhor
• Não se isolar. Viver a vida junto com a força de outras pessoas.
• Sempre que possível, sem aparatos externos, colocar-se contra toda forma de injustiça. Experimentar a fraternidade.
• Não se desesperar com incompreensões, falhas dos outros e nossas noites
interiores.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, ofm
(www.franciscanos.org.br)

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