"Jesus ensinava como quem tem autoridade..." - 28/01/2018 - Mc 1,21-28

(*) Pe. José Antonio Pagola

Jesus não foi um profissional especializado em comentar a Bíblia ou interpretar corretamente seu conteúdo. Sua palavra, clara, direta, autêntica, tem uma força diferente, que o povo sabe captar imediatamente.

O que sai dos lábios de Jesus não é um discurso. Tampouco uma instrução. Sua palavra é um chamado, uma mensagem viva que provoca impacto e abre caminho no mais profundo dos corações.

O povo fica admirado “porque ele não ensina como os escribas, e sim com autoridade”. Esta autoridade não está ligada a nenhum título ou poder social. Não provém da doutrina que ele ensina. A força de sua palavra é ele mesmo, sua pessoa, seu espírito, sua liberdade.

Jesus não é “um vendedor de ideologias”, nem um repetidor de lições aprendidas de antemão. É um mestre de vida que coloca o ser humano diante das questões mais decisivas e vitais. Um profeta que ensina a viver.

É duro reconhecer que, frequentemente, as novas gerações não encontram “mestres de vida” que elas possam escutar. Que autoridade podem ter as palavras dos dirigentes civis ou religiosos, se não estão acompanhadas de um testemunho claro de honestidade e responsabilidade pessoal?

Nossa sociedade precisa de homens e mulheres que ensinem a arte de abrir os olhos, de maravilhar-se diante da vida e interrogar-se com simplicidade sobre o sentido último da existência. Mestres que, com seu testemunho pessoal, semeiem inquietude, transmitam vida e ajudem a considerar honestamente as interrogações mais profundas do ser humano.

Dão o que pensar as palavras do escritor anarquista A. Robin, pelo que podem pressagiar para nossa sociedade: “Suprimir-se-á a fé em nome da luz; depois suprimir-se-á a luz. Suprimir-se-á a alma em nome da razão; depois suprimir-se-á a razão. Suprimir-se-á a caridade em nome da justiça; depois suprimir-se-á a justiça. Suprimir-se-á o espírito da verdade em nome do espírito crítico; depois suprimir-se-á o espírito crítico”.

O evangelho de Jesus não é algo supérfluo e inútil para uma sociedade que corre o risco de seguir tais rumos.

(*) Pe. José Antonio Pagola é sacerdote, tendo cursado Teologia e Ciências Bíblicas no Pontifício Instituto Bíblico de Roma.

Vinde e Vede! João 1,35-42 - 14/01/2018


O modo como se dava o discipulado de Jesus era muito distinto daquele dos rabinos. Na tradição rabínica, o discípulo escolhia seu mestre e por este era instruído na arte de interpretar as Escrituras.

Esta atividade de caráter intelectual desenvolvia-se numa escola onde o mestre distinguia-se pela excelência do saber e o discípulo, pelo desejo de conhecer.

O método adotado por Jesus consistia na transmissão de um modo de ser, mais do que uma ciência. Os discípulos não estavam confinados numa escola, mas se colocavam no seguimento do Mestre e aprendiam, ouvindo suas palavras e presenciando o que ele fazia em favor do povo.

Este aprendizado existencial ia transformando a vida do discípulo, num processo paulatino de assimilação de tudo que o Mestre realizava.

O discipulado, neste caso, consistia num duplo movimento. "Vinde" indicava que o discipulado se dava pela iniciativa de Jesus que convocava para o seu seguimento. Era ele quem chamava.

Cabia ao discípulo aceitar o convite. "Vede" supunha concentrar a atenção na pessoa de Jesus para captar os valores que regiam sua ação e deixar-se moldar por eles.

Os primeiros discípulos aceitaram o convite de Jesus, ficaram fascinados por ele, e saíram para partilhar com os irmãos a experiência deste encontro transformador. Quem quiser se fazer discípulo do Senhor deverá trilhar o mesmo caminho.

Pe. Jaldemir Vitório – Jesuíta, Doutor em Exegese Bíblica
(fonte: domtotal.com)