Jesus, Marta e Maria - Lc 10,38-42 - 19/07/2019


O Direito de sentar-se

(*) José Antonio Pagola

Mais uma vez, Jesus aproxima-se de Betânia, uma aldeia próxima de Jerusalém, para hospedar-se na casa de uns irmãos muito amigos seus. Ao que parece, Ele o faz sempre que sobe para a capital. Estão em casa apenas as mulheres. As duas adotam posturas diferentes. Marta se queixa e Jesus pronuncia umas palavras que Lucas não quer que sejam esquecidas entre os seguidores de Jesus.

Marta é quem “recebe” Jesus e lhe oferece sua hospitalidade. Desde que Ele chegou desvela-se para atendê-lo. Isso nada tem de estranho. É a tarefa que cabe à mulher naquela sociedade. Esse é seu lugar e sua incumbência: fazer o pão, cozinhar, servir ao varão, lavar-lhe os pés, estar ao serviço de todos.

Enquanto isso, Sua irmã Maria permanece “sentada aos pés” de Jesus, em atitude própria de uma discípula que ouve atenta sua palavra, concentrada no essencial. A cena é estranha, porque a mulher não estava autorizada a ouvir como discípula os mestres da lei.

Quando Marta, sobrecarregada pelo trabalho, critica a indiferença de Jesus e pede ajuda, Jesus responde de maneira surpreendente. Nenhum varão judeu teria falado assim.

Ele não critica a Marta sua acolhida e seu serviço. Ao contrário, fala-lhe com simpatia, repetindo carinhosamente seu nome. Não duvida do valor e da importância daquilo que ela está fazendo. Mas não quer ver as mulheres absorvidas somente pelos afazeres da casa: “Marta, Marta, andas inquieta e nervosa com tantas coisas. Só uma coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada”.

A mulher não deve ficar reduzida às tarefas do lar. Ela tem direito a “sentar-se”, como os varões, para escutar a Palavra de Deus. O que Maria está fazendo corresponde à vontade do Pai. Jesus não quer ver as mulheres só trabalhando. Quer vê-las “sentadas”. Por isso, acolhê-as em seu grupo como discípulas, no mesmo plano e com os mesmos direitos que os varões.

Falta-nos muito, na Igreja e na sociedade, para olhar e tratar as mulheres como o fazia Jesus. Considerá-las como trabalhadoras ao serviço do varão não corresponde às exigências desse reino de Deus que Jesus entendia como um espaço sem dominação masculina.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia
 Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma 
e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém

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