"...nosso Deus é Deus dos Vivos..." Lc 20,27-38 - 10/11/2019

A questão central do nosso texto gira à volta da ressurreição, um tema que não significava nada para os saduceus.

Percebendo que, quanto a essa questão, a perspectiva de Jesus estava próxima da dos fariseus, os saduceus apresentaram uma hipótese acadêmica, com o objectivo de ridicularizar a crença na ressurreição: uma mulher casou, sucessivamente, com sete irmãos, cumprindo a lei do levirato (segundo a qual, o irmão de um defunto que morreu sem filhos devia casar com a viúva, a fim de dar descendência ao falecido e impedir que os bens da família fossem parar a mãos estranhas, cf. Dt 25,5-10). Quando ressuscitarem, ela será mulher de qual dos irmãos?

A primeira parte da resposta de Jesus (vers. 27-36) afirma que a ressurreição não é (como pensavam os fariseus do tempo) uma simples continuação da vida que vivemos neste mundo (na linha de uma revivificação - ideia apresentada na primeira leitura), mas uma vida nova e distinta, uma vida de plenitude que dificilmente podemos entender a partir das nossas realidades quotidianas. A questão do casamento não se porá, então (a expressão "são semelhantes aos anjos" do vers. 30 não é uma expressão de depreciação do matrimônio, mas a afirmação de que, nessa vida nova, a única preocupação será servir e louvar a Deus).

O poder de Deus, que chama os homens da morte à vida, transforma e assume a totalidade do ser humano, de forma que nascemos para uma vida totalmente nova e em que as nossas potencialidades serão elevadas à plenitude. A nossa capacidade de compreensão deste mistério é limitada, pois estamos a contemplar as coisas e a classificá-las à luz das nossas realidades terrenas; no entanto, a ressurreição que nos espera ultrapassa totalmente a nossa realidade terrena.

A segunda parte da resposta de Jesus (vers. 37-38) é uma afirmação da certeza da ressurreição. Como não podia apoiar-se nos textos recentes da Escritura (como Dn 12,2-3), que sugeriam a fé na ressurreição (pois esses textos não tinham qualquer valor para os saduceus), Jesus cita-lhes a "Torah" (cf. Ex 3,6): no episódio da sarça-ardente, Jahwéh revelou-Se a Moisés como "o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob"...

Ora, se Deus Se apresenta dessa forma - muitos anos depois de Abraão, Isaac e Jacob terem desaparecido deste mundo - isso quer dizer que os patriarcas não estão mortos (um homem "morto" - ou seja, um homem reduzido ao estado de uma sombra inconsciente e privada de vida no "sheol", segundo a ideia semita corrente - tinha perdido a proteção de Deus, pois já não existia como homem vivo e consciente).

Na perspectiva de Jesus, portanto, os patriarcas não estão reduzidos ao estado de sombras na obscuridade absoluta do "Sheol"(*), mas vivem atualmente em Deus.

Conclusão: se Abraão, Isaac e Jacob estão vivos, podemos falar em ressurreição.

(*) Sheol, segundo a crença hebraica, era o lugar para onde iam os mortos, 
por isso é sinônimo de sepultura, ou lugar de silêncio dos mortos

Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
(www.dehonianos.org)


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