Apresentação de Jesus no Templo - 02/02/2020

O CAMINHO PARA DEUS E A VIDA SOLIDÁRIA

Padre Ivo Pedro Oro


A festa da Apresentação do Senhor no templo traz boas notícias para nós. Não basta vermos aí o testemunho de José e Maria, cumpridores das leis, que levavam a sério as normas de sua religião. 

Iluminados pela narrativa de Lucas que, mais do que relatar o fato ocorrido, ressalta uma verdadeira mensagem e ensinamento para nós. 

Aliás, em todo este “Evangelho da Infância” é bom que não vejamos uma reportagem tal e qual, mas sim ensino teológico e revelação do amor de Deus por nós.




Jesus pertence ao Pai


Apresentar o menino Jesus no templo é ofertá-lo ao Pai, é celebrar neste rito que Jesus a Ele pertence. O texto esclarece, mais uma vez, que Jesus nasceu pobre, numa família pobre. Por ocasião da “purificação”, as mães deviam ofertar um sacrifício: as mais ricas, um cordeiro; as mais pobres, um par de rolas ou dois pombinhos (Lev 12,8). 

Esta foi a oferta dos pobres, que Maria e José fizeram. Todo primogênito masculino era “consagrado ao Senhor”, pertencia a Deus. Somente mediante a oferta de um animal, o menino podia ser resgatado. “Ora, Lucas não fala dessa oferta. E assim descobrimos que Jesus foi entregue por seus pais ao Pai.” (Bortolini, 2006, p. 726). 

Que Jesus pertencia ao Pai será comprovado sempre pela sua prática e missão, bem como pela entrega de sua vida na cruz: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.” (Lc 23,46).


Os testemunhos de Simeão e de Ana


Lucas, que omite propositalmente os sacerdotes de plantão, diz que Simeão, que não era sacerdote, foi ao templo; ele era um homem “justo e piedoso, esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava com ele”. 

Com o menino nos braços, fez uma belíssima oração: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar o teu servo partir em paz. Porque meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória do teu povo, Israel”. 

Sintonizado com o sonho e a esperança dos pobres, certamente rezava, resistia e lutava para que chegasse o dia da salvação e libertação do povo. E, iluminado pelo Espírito, compreendeu que em Jesus esta promessa se realizava. 

E é ele, representante dos pobres, que apresenta Jesus ao Pai e abençoa os pais de Jesus. Alguns anos depois, Jesus confirma que veio para anunciar a boa nova aos pobres. (cf. Lc 4,18).

Simeão pode ser visto como “o início de um novo sacerdócio, ou seja, o sacerdócio dos que lutam pela justiça” (id., p. 727). 

O profeta Malaquias (3,1-4 – 1ª. leitura) anuncia: “Vai chegar ao Templo o Senhor que vocês procuram. O mensageiro da Aliança que vocês desejam. […] vai refinar e purificar os filhos de Levi, como ouro e prata, para que possam apresentar a Javé uma oferta que seja de acordo com a justiça”. Quem vai chegar, este menino, “vai ser causa de queda e de elevação para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição”. 

Como Ele é a luz das nações, toda a justiça brilhará como luz, e a injustiça será combatida.

Também Ana, senhora viúva e profetisa, de 84 anos, “falava do menino a todos os que esperavam a libertação em Jerusalém”. 

Servindo a Deus com jejuns e orações, ela alimentava o anseio da chegada do Salvador e de um novo tempo de dignidade para os pobres e excluídos. “Se queremos ter certeza da presença ou ausência de Deus, basta que olhemos para a prática da justiça: se ela ilumina a vida do povo, é porque Deus está aí como luz que brilha; se foi banida das relações sociais, é sinal de que o Deus verdadeiro foi expulso, e o que manda na sociedade são ídolos geradores de morte” (id., p. 726).


Jesus humano, solidário e libertador


A Carta aos Hebreus (2,14-18 – 2ª. leitura) nos faz compreender que “Jesus libertou os homens que ficavam paralisados por medo da morte”. 

O fato de Ele ter-se encarnado (“teve que ser semelhante em tudo a seus irmãos, para se tornar sumo sacerdote misericordioso”) é a grande prova do amor e da solidariedade de Deus para conosco: “Justamente porque foi colocado à prova e porque sofreu pessoalmente, ele é capaz de vir em auxílio daqueles que estão sendo provados”. 

“Portanto, os que lutam para vencer a morte não têm razão para desanimar: a morte já foi vencida por Jesus e continuará sendo vencida por Ele em todos os que o seguem.” (id., p. 728). 
Maria também não esmoreceu diante das dificuldades e forças de morte daquele tempo, nem se assustou com as palavras de Simeão: “Quanto a você, uma espada há de atravessar-lhe a alma. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações”.

Para concluir, reflitamos: em nossa vida e em nossa comunidade, vivemos uma solidariedade que nos impulsiona para derrotar as forças da morte? É a luz de Jesus que brilha em nossas opções de vida e escolhas cotidianas? Como respeitamos e acolhemos entre nós o sacerdócio e a profecia dos mais pobres e discriminados?

Padre Ivo Pedro Oro

Mestre em Ciência da Religião (UFJF) e especialista em Educação Popular e em Metodologia Pastoral. Autor e coautor de vários livros. Dedica atenção especial às questões socioculturais e religiosas.

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