"Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida"

No domingo passado, Cristo foi chamado a "porta das ovelhas". No Evangelho de hoje vemos com maior clareza por que Cristo é o acesso ao Pai: Caminho, Verdade e Vida. O sentido destes três termos, que constituem uma unidade (o Caminho da Verdade e da Vida) é apresentado através de uma pequena encenação.
Jesus inicia sua despedida dizendo que é uma viagem necessária, para lhes preparar um lugar, e que eles conhecem o caminho.

Tomé responde que não. Jesus explica que ele mesmo é o caminho da Verdade e da Vida, o caminho pelo qual se chega ao Pai. Toda pessoa piedosa quer conhecer Deus. Mas, nos diz João no prólogo de seu evangelho, ninguém jamais o viu... (Jo 1,18).

Agora, Jesus explica a Filipe, que lhe pede para mostrar-lhe o Pai: “Quem me vê, vê o Pai”. Em outros termos: em Jesus contemplamos Deus. Nosso perguntar encontra nele resposta, nosso espírito, verdade, nossa angústia, a fonte da vida. Neste sentido, ele mesmo é o caminho que nos conduz ao Pai e, ao mesmo tempo, a Verdade e a Vida que se tomam acessíveis para nós. “O Unigênito no-lo fez conhecer” (Jo 1,18).

Mas que significa conhecer, ver Deus em Jesus Cristo? Significa que, para saber como é Deus, o Absoluto da nossa vida, não precisamos contemplar outra coisa que a existência de Jesus de Nazaré, “existência para os outros”, à qual Deus imprimiu seu selo de garantia, no coroamento da Ressurreição. Muitas vezes tentamos primeiro imaginar Deus, para depois projetar em Jesus algo de divino (geralmente algo de bem pouco humano...). Devemos fazer o contrário: olhar para Jesus de Nazaré, para sua vida, palavra e morte, e depois dizer: assim é Deus — isso nos basta (cf. Jo 14,8-9). Ele está no pai e o Pai nele (14,11), e quem a ele se une, fará o que ele fez, e mais ainda, agora que ele se vai (14,12).

Somos conscientes da semelhança entre o rosto do Cristo e o rosto dos oprimidos. As palavras: “Quem me vê, vê o Pai”, pronunciadas na véspera da cruz, recebem entre nós uma atualidade especial. Quem tem medo de encarar os rostos dos pobres e sofridos no meio de nós não é capaz de conhecer a glória do amor do Pai, que se dá a ver no rosto coroado de espinhos de Jesus, o homem de Nazaré.

Na perspectiva deste evangelho, ganha um sentido bem especial o canto da entrada: Deus revelou sua justiça diante dos povos, a saber, na existência de Jesus Cristo, coroada pela ressurreição.

As duas primeiras leituras descrevem a constituição da comunidade do Cristo. A 1ª leitura, At 6, narra a conflituosa expansão da comunidade no meio dos judeus helenistas (que ganharam sua própria “administração” — os sete diáconos); e também no meio dos sacerdotes. O salmo responsorial comenta este episódio no sentido da providência de Deus para todos os seus. E a 2ª leitura, continuação da carta de Pedro (2,4-9), canta a dignidade do povo constituído em Cristo, construído com pedras vivas sobre a pedra rejeitada pelos construtores, que se tomou a pedra angular.

A oração do dia é inspirada em Jo 8,31ss: a liberdade dos filhos de Deus, filhos adotivos, por certo, mas verdadeiramente “gente da casa” para Deus, e herdeiros de sua graça e vida; é à realização escatológica dessa realidade que alude o começo do evangelho de hoje (“Na casa de meu Pai há muitas moradas”). O canto da comunhão inspira-se em Jo 15 (alegoria da videira, tema central deste domingo no ano B).

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
(http://www.franciscanos.org.br/)

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